Caminho do Oriente: Poço do Bispo e Marvila Antiga

Caminho do Oriente: Poço do Bispo e Marvila Antiga

Itinerários de Lisboa

  • Marvila está na moda e veste-se a preceito.
  • Sob os holofotes mediáticos renova-se a cada dia e é o bairro mais reivindicado e cobiçado da cidade.
  • Percorrendo as suas ruas, percebe-se a razão. A vivacidade trazida pelos novos cafés, restaurantes, lojas de charme e empresas tecnológicas alterna com a quietude de ruas e casas antigas, de velhos conventos e palácios, de ruínas de antigas fábricas.
  • A feição rural, que a chegada da “cidade” ainda não apagou, é uma das marcas da paisagem, tal como as vistas desafogadas sobre o rio e a outra margem que se revelam a cada passo.
  • Damião de Góis

A Praça David Leandro da Silva, o coração do Poço do Bispo, é o ponto de partida deste percurso. Usada desde tempos imemoriais, a via do oriente que por aqui passava acompanhava o leito do rio, em cujas margens foram surgindo, sobretudo a partir do século XVI, conventos, palácios e quintas que abasteciam a cidade. A grande transformação chega em meados do século XIX com o advento da indústria. Zona ampla, bem servida por vias de comunicação, entre as quais o rio e, a partir de 1856, a linha férrea, converte-se num polo industrial com fábricas, armazéns e habitação para operários. Na Praça David Leandro da Silva cruzavam-se as três linhas de elétrico que serviam a zona, o que se refletiu no seu peculiar traçado em forma de cone. Os dois urinóis que aí se encontram, um de alvenaria e tijolo e outro de ferro, são já exemplares raros em Lisboa. Do centro desta plataforma observam-se dois edifícios a partir dos quais se escreveu boa parte da história local. Em frente, na direção do rio, os (1) Armazéns Abel Pereira da Fonseca, sede da empresa que entre 1907 e 1993 se dedicou ao fabrico, comercialização e distribuição de vinho. O fundador, grande proprietário agrícola no Bombarral, fazia chegar o vinho por via fluvial, sendo a descarga feita num cais privativo situado na atual Avenida Infante D. Henrique. O edifício, da autoria de Norte Júnior, foi construído em 1917 e destaca-se pela originalidade da fachada, onde as grandes janelas circulares com a forma de toneis, encimadas por cachos de uva e folhas de videira, remetem para a laboração da empresa. Do lado esquerdo, ergue-se a antiga (2) sede de uma firma concorrente, pertencente a José Domingos Barreiro, que funcionou entre 1887 e o final do século XX. Desenhado pelo arquiteto Edmundo Tavares, o edifício, também de 1917, alia ao traço elegante uma decoração de gosto eclético. Esta empresa era abastecida por um ramal ferroviário e, para além da sede e dos escritórios, contava com armazéns e uma zona residencial destinada aos operários.

Uns passos à frente, já na Rua Fernando Palha ergue-se a (3) antiga Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata. Foi construída entre 1904 e 1908 no local da Oficina de Pirotecnia e da Real Vidreira, dedicando-se ao fabrico de munições de artilharia sob a alçada do Arsenal do Exército. Mais tarde, estendeu a sua produção a armas e veículos, atingindo o auge de laboração durante a Guerra do Ultramar. Nos anos 50 ocorreu aqui uma grande explosão acidental, abafada pela Censura. Desativada nos anos 1980 foi convertida em polo cultural em 2007.

Antes de infletir para a Rua Zófimo Pedroso, pausa para olhar o monumento dedicado (4) Aos Construtores da Cidade colocado na Avenida Infante D. Henrique. Da autoria do escultor José de Guimarães, data de 1999 e foi inicialmente pensado para a zona ribeirinha, frente à Cordoaria Nacional. O conjunto, que se eleva a 25 metros do solo, integra a escultura alegórica “Lisboa”, concebida como uma figura feminina reclinada voltada para o Tejo. O momento é oportuno para lembrar o passado marítimo desta movimentada avenida e a forte ligação que existia entre as duas margens do rio.

Em direção à Rua Direita de Marvila, breve paragem na Rua do Vale Formoso de Cima, para contemplar o (5) nicho maneirista onde foi colocada uma imagem de Santo Agostinho. Desta rua, atravessa-se um túnel sob a linha férrea para chegar à (6) Antiga Quinta de Marvila ou Quinta do Marquês de Abrantes. Integrou originalmente o morgado do Esporão, tendo passado por herança aos condes de Figueiró que a venderam aos Marqueses de Abrantes. Na posse destes, a casa beneficiou de melhoramentos, mas a partir de meados do século XVIII passa a ser arrendada com frequência, originando um lento processo de degradação. Na segunda metade de novecentos parte da quinta é expropriada pelos caminhos-de-ferro e, em 1862, o edifício principal recebe a Escola Normal Primária de Lisboa que funcionou até à sua transferência para Benfica em 1919. Nessa altura, é ocupado por várias famílias que aqui se instalam. Torna-se também a sede da "Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885", local onde se ensaia a marcha de Marvila. Nos terrenos da quinta surgiu o bairro de habitação precária, conhecido como Bairro Chinês. O imponente portal seiscentista é, hoje, um dos poucos testemunhos da grandiosidade de outrora. 

Um pouco mais à frente, no nº 46, a (7) grande empena intervencionada pelo street artist espanhol Okuda, surpreende quem passa. Intitulada “Jungle King” esta obra de arte urbana, uma das muitas que têm vindo a surgir nesta zona, data de 2014 e remete para a visita do então Príncipe das Astúrias, hoje rei Filipe VI, ao nosso país.  

De regresso à Rua Direita de Marvila, é tempo de parar na magnífica (8) Igreja de Santo Agostinho de Marvila. Integrada num antigo convento de religiosas da Ordem do Santíssimo Salvador, ou Brígidas, como eram comumente chamadas, a igreja sobreviveu ao terramoto de 1755, apesar dos estragos avultados. O convento, hoje ocupado pela Fundação D. Pedro IV, foi fundado em 1660 por Fernão Cabral, arcediago da Sé de Lisboa, com a contribuição de D. Isabel Henriques, que aqui se recolheu depois de enviuvar, e da sua filha D. Juliana Maria de Santo António. Os três encontram-se sepultados no interior da Igreja onde se destacam os grandes painéis de azulejos figurativos que decoram a nave e o coro baixo, atribuídos ao monogramista P.M.P, a talha dourada e as pinturas da autoria de José Rodrigues Ramalho (retábulo da capela-mor), António Pereira Ravasco (nave) e Bento Coelho da Silveira (capela-mor e coro baixo). A temática ligada a Santo Agostinho, a Santa Brígida e à Ordem por ela fundada predominam na iconografia.

Descendo à Rua do Açúcar, regressa-se ao passado industrial desta zona. No início da rua, alinha-se (9) um conjunto de habitações destinadas a operários. Destacam-se o Pátio do Beirão, nascido a partir do solar da antiga Quinta do Bettencourt, assim chamada em meados do século XVIII quando integrava o morgadio do Esporão. Nesta quinta funcionava em 1763 uma refinaria de açúcar, à qual a rua foi buscar o nome, e da qual não subsistem vestígios. Sucessivamente arrendada, a quinta acabou por ser ocupada por trabalhadores das fábricas, mantendo o portal setecentista como testemunho do seu passado nobre. A Vila Santos Lima, conhecida também como Vila Pereira, fica paredes meias com este pátio. Construída em 1888 por Joaquim dos Santos Lima, outro empresário do ramo vinícola, destinava-se alojar os seus funcionários, mantendo no piso térreo armazéns e oficinas. É um dos mais interessantes exemplos de habitação operária de Lisboa, destacando-se pela repetição modular da fachada, encimada por grandes chaminés, e pelo interior onde se rasgam longos corredores iluminados por claraboias.

Prosseguindo pela Rua do Açúcar chega-se ao (10) Palácio da Mitra, uma imponente construção do início do século XVIII que com D. Tomás de Almeida, Cardeal de Lisboa, se converteu em residência patriarcal. Há poucas certezas sobre quem foram os arquitetos e os artistas que aqui trabalharam, mas alguns investigadores apontam os nomes do italiano António Canevari, do húngaro Carlos Mardel ou do capitão Rodrigo Franco. O Palácio, que chegou a ter um cais privativo, foi objeto de muitas intervenções ao longo dos séculos, mantendo o brasão de D. Tomás sobre o portão cuja gradaria é também a original. Abandonado pelos prelados em 1864, que levaram grande parte do recheio artístico, o edifício foi vendido, passando por vários proprietários até ser adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1930. Aí funcionaram desde então o Asilo da Mendicidade (1933), a Biblioteca (1934) e o Museu da Cidade (1941-1970).

Contornando o palácio entra-se no Beco da Mitra onde se erguem edifícios de tijolo em banda. Num deles, propriedade da autarquia, encontra-se instalado desde 2005 o (11) Teatro Meridional, companhia fundada em 1992 e várias vezes distinguida nacional e internacionalmente.

A antiga (12) Companhia de Fósforos é o passo seguinte no percurso. Fundada em 1895, por proposta de Hintze Ribeiro, esta companhia detinha o monopólio da produção de fósforos, sendo os acionistas maioritariamente portugueses. Na fábrica do Beato, uma invulgar estrutura fechada sobre si mesmo, que laborou até 1985 chegaram a trabalhar cerca de mil operários. Intramuros dispunham de serviço médico, balneário, refeitório, creche e ainda de uma cooperativa e de um grupo desportivo.

Mesmo ao lado ergue-se o edifício modernista da (13) antiga Fábrica Luso-Belga de Borracha. Fundada por Victor Constant Cordier laborou entre 1926 e o início dos anos 1980 e, como o nome indica, dedicou-se ao fabrico de produtos e acessórios de borracha. O edifício atual, um exemplar notável de arquitetura industrial, foi construído nos anos 1940, mas desconhece-se o autor. O conjunto contorna para a Rua José Domingos Barreiros, ao fundo da qual se avista o geomonumento do Miocénico Médio (c. de 13 milhões de anos) onde são visíveis jazidas de vertebrados.

Antes de chegar à última etapa do percurso, impõe-se uma paragem na Rua dos Amigos de Lisboa para observar de longe a (14) Torre do Marialva, último vestígio da Quinta do Marquês de Marialva, cujos jardins foram aclamados pelo inglês William Beckford. Deste mirante, hoje bastante degradado, D. Pedro V assistiu, em 1856, à passagem do primeiro comboio.

Os azulejos da fachada do edifício da antiga (15) Sociedade Portuguesa de Navios Tanques (SOPONATA) rematam da melhor forma este itinerário. Datados de 1950, da autoria de Júlio Pomar e de Alice Jorge, à época marido e mulher, representam a atividade da empresa de navegação fundada em 1947, que se dedicava fundamentalmente ao transporte de petróleo.

[texto de Paula Teixeira | fotografias de Humberto Mouco]
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  • Visitas guiadas integradas no programa Itinerários de Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa: T. 218 170 742

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