Clássicos, um mestre vivo e um país que se extingue

Clássicos, um mestre vivo e um país que se extingue

A temporada 2017/2018 no Teatro Nacional D. Maria II

  • 'Building conversation' de Lotte van den Berg / Third Space
     'Building conversation' de Lotte van den Berg / Third Space

Um Rei Lear a abrir, uma incursão no Auto da Barca do Inferno com comentários de humoristas ou o reencontro com a obra-prima de Von Horváth são alguns dos momentos que marcam a temporada 2017/2018 do Teatro Nacional D. Maria II. Pelo caminho, o teatro de mestre Peter Brook regressa a Lisboa e vários criadores discorrem sobre um Portugal em Vias de Extinção.
 
“Uma temporada para consolidar um projeto que nasceu em 2015”. É assim que Tiago Rodrigues começa por definir a longa e ambiciosa programação que a sua direção artística preparou para os meses de setembro de 2017 a julho de 2018. No total, são 35 espetáculos, entre os quais mais de duas dezenas de criações.
 
Reconhecendo que “a missão consignada a um teatro nacional passa também por permitir aos grandes criadores portugueses recriarem os grandes clássicos”, Rodrigues reservou para abrir a temporada a incursão de Bruno Bravo, e os seus Primeiros Sintomas, no Rei Lear de William Shakespeare. Lear, que se pensou poder ser protagonizado por Eunice Muñoz, estreia a 16 de setembro, com Paula Só a liderar um elenco composto por nomes como os de Ana Brandão, António Mortágua, Carla Galvão, Carolina Salles, João Pedro Dantas, José Redondo, Lídia Muñoz e Miguel Sopas.
 
Shakespeare regressará à Sala Garrett em dezembro, com Macbeth, uma produção do Teatro Nacional de São João, com direção de Nuno Carinhas. Porém, o cardápio de clássicos não se resume ao “Bardo”. Maximo Gorki e Ödon Von Horváth partilham desse estatuto, e será a partir de textos de sua autoria que Jorge Silva Melo e Tonán Quito, respetivamente, apresentarão as suas mais recentes criações. Silva Melo e os Artistas Unidos recuperam o texto de 1902, de Gorki, Albergue Noturno, dando sequência ao trabalho desenvolvido num seminário que decorreu no TNDM II, em meados deste ano, e que conduziu o encenador a este “texto maior” que tanto ambicionava fazer (janeiro de 2018); Tónan Quito continua a explorar as peças de Von Horváth, depois de Fé, Caridade e Esperança, e lança-se em Casimiro e Carolina, provavelmente, um dos mais belos textos do teatro do século XX (abril de 2018).
 
Em outubro, inserido no Voz Alta - Festival de Leituras Encenadas, Tiago Rodrigues coordena um olhar sobre Auto da Barca do Inferno, clássico vicentino que celebra 500 anos, com comentários de humoristas como Ricardo Araújo Pereira, Ana Bola, Bruno Nogueira ou Gregório Duvivier, que não se coíbem de questionar o Portugal de hoje à luz dos anjos e demónios de Gil Vicente.
 

  • O REGRESSO DE PETER BROOK
  • E UM PAÍSEM VIAS DE EXTINÇÃO

É sempre um acontecimento que extravasa o momento de teatro em si. Peter Brook, um dos mais influentes encenadores das últimas décadas apresenta, no âmbito do Lisbon & Sintra Film Festival, o seu regresso a Mahabharata, “um tratado com centenas de anos que toca todos os aspetos da nossa existência”, e que há 30 anos o encenador britânico levaria para o palco, naquela que seria uma das suas mais elogiadas criações. Em Battlefield, Brook e sua parceira Marie-Hélène Estienne oferecem uma nova leitura do épico em sânscrito, introduzindo partes do texto da peça original, da autoria de outro nome histórico do teatro (e do cinema) europeu: Jean-Claude Carrière (novembro de 2017).
 
Outro dos momentos altos da temporada é o ciclo Portugal em Vias de Extinção. Victor Hugo Pontes, Inês Barahona e Miguel Fragata, Alex Cassal, Ricardo Correia, Rui Catalão e João Pedro Mamede são os autores de seis espetáculos que propõem uma reflexão sobre o desaparecimento de um certo Portugal, marcado por práticas, costumes e até mesmo algumas tradições ancestrais. Este ciclo, que decorre entre janeiro e março, será acompanhado de exposições, debates e concertos programados pela equipa de A Música Portuguesa a Gostar dela Própria.
 
E, por falar em extinção, Tiago Rodrigues estreia, a 2 de novembro, Sopro, a mais recente criação do diretor artístico, que passará por Avignon em julho. A peça é protagonizada não por uma atriz, mas por uma mulher chamada Cristina Vidal, que trabalha como ponto no TNDM II há mais de 25 anos. Através da sua figura e desta profissão rara e em vias de extinção, invisível aos olhos do público, propõe-se questionar “que teatro habita a sua imaginação e a sua memória?”
 
A nova temporada abre, uma vez mais, com Entrada Livre. Pelo terceiro ano, o D. Maria II está de portas abertas à cidade a 16 e 17 de setembro. Para além do Lear de Bruno Bravo, arranca o ciclo Recém-nascidos, com o sensacional Teatro da Cidade e o espetáculo Topografia; e há Building Conversation da artista holandesa Lotte van den Berg, que compõe performances através de técnicas de conversação de todo o mundo, colocando-as em prática com participantes de diversas cidades espalhadas pela Europa.
 
De Entrada Livre constam ainda a habitual Feira do Livro de Teatro, no Rossio; Comer a Língua, um espetáculo de Catarina Lacerda, com texto de Regina Guimarães, para os mais novos; uma leitura encenada de Esquecer, de Dimitris Dimitriadis; e um concerto na varanda com Samuel Úria.
 
[por Frederico Bernardino]

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