E o amor venceu o ódio

E o amor venceu o ódio

'Kreatur', de Sasha Waltz & Guests

Hoje e amanhã, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, tem lugar a apresentação da nova proposta de Sasha Waltz, Kreatur, coreógrafa de Berlim e fundadora da sua companhia, que no próximo ano assinala a passagem do 25.º aniversário.

O palco está iluminado com uma luz branca, quase uniforme. A música eletrónica dos Soundwalk Collective anuncia o início do espetáculo. Bailarinos deslocam-se com movimentos espasmódicos, envolvidos cada qual numa espécie de casulo ou nuvem, um dos figurinos concebidos por Iris van Herpen para esta criação de Sasha Waltz. A coreografia sugere isolamento e também nascimento. Figuras humanas que parecem perdidas, denotando uma dificuldade de comunicação entre elas. Um dos casulos é partilhado por dois corpos.

Um bailarino impõe-se no meio do conjunto. Jovem negro, muito alto, que usa como todos os outros calções justos ao corpo, da cor da pele. O seu movimento sugere o estilo breakdance. Parece caminhar “na lua” como Michael Jackson. Corey Scott-Gilbert, é este o seu nome, é o único bailarino que nunca mudará de figurino ao longo de Kreatur, e apenas um obstáculo será colocado à percepção dos seus movimentos: uma película plástica transparente, que amplia e distorce os volumes do corpo, ao mesmo tempo que irradia a luz projectada, sob a forma de um conjunto de cores, como no arco-íris.

No segundo quadro, os bailarinos surgem agrupados e vestidos como numa tribo. A interacção intensifica-se, a música surge mais sincopada. O grupo está investido de uma tarefa comum, de superação. A coreografia é também mais física, no sentido de um maior esforço. Os homens, em clara minoria, transportam corpos femininos. Algumas mulheres carregam outras. No final sobem uma escadaria colocada no canto direito do palco e, de repente, temos a sugestão do Monumento aos Descobrimentos, que se situa relativamente próximo do local onde o espectáculo será apresentado, o Centro Cultural de Belém. Uma coincidência, não arriscamos insinuar que possa ser outra coisa.

Até final, o espectáculo de Sasha Waltz ainda vai sugerir lutas de poder, jogos de dominação entre os bailarinos, onde se descobre o nome da portuguesa Cláudia de Serpa Soares, que colabora com Sasha Waltz desde 1999, encaminhando-se para um discurso dançado e falado sobre a necessidade do amor vencer o ódio.  

[texto de Ricardo Gross | fotografias de Francisco Levita/ACL-CML]

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Kreatur

Sasha Waltz & Guests

Dança › Espetáculos
4 e 5 out/17
Maiores 16 anos
Praça do Império
1449-003 Lisboa

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