Entrevista a Anselmo Ralph

Entrevista a Anselmo Ralph

Foi jurado no The Voice Portugal e é um verdadeiro fenómeno de popularidade. Anselmo Ralph regressa aos palcos nacionais no dia 21 de abril. O cantor vem apresentar o seu novo espetáculo, 1 em 1 Milhão. Pela primeira vez, Anselmo lança um single com uma letra escrita por outra pessoa, nada mais nada menos do que a portuguesa Carolina Deslandes. Sobre isto e muito mais, a Agenda Cultural esteve à conversa com o cantor angolano.
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Nasceste em Luanda, nos anos 80. Quando começou a tua ligação à música?

Até aos meus 10 anos nunca me vi como cantor ou em cima de um palco. O meu pai organizava um festival em Angola, que se chamava Café com Leite. Era um festival para crianças onde havia música, distribuição de brinquedos e se recolhiam donativos para algumas instituições. Houve alguns artistas a estrearem-se neste festival. Eu acompanhava o meu pai, por isso de alguma forma estava ligado à música, mas nunca foi algo que me deslumbrasse ou que me imaginasse vir a fazer. Mais tarde, quando vivi em Espanha, fiquei apaixonado pela musicalidade do Juan Luis Guerra, e é daí que começa a paixão. Depois voltei para Luanda e, quando tinha 13 anos, havia um grupo famoso em Angola, os SSP, que foi uma verdadeira febre. Começou como uma moda, e eu fui apanhado na onda. Criei um grupo, como tantos adolescentes fazem. Quantas raparigas já não foram uma Spice Girl? [risos].
 
Viveste alguns anos em Espanha e em Nova Iorque. Esse contacto com outras culturas teve alguma influência na tua música?
Acredito que sim. Muito da minha sonoridade vem de bandas que ouvia quando vivia em Nova Iorque. Embora em Portugal seja conhecido como cantor de kizomba, em Angola consideram-me um artista pop e muito por causa da influência dos oito anos que vivi em Nova Iorque. Acho que a minha música também tem algo de latino. Pode não se perceber logo, mas há muitas melodias que tem influência das melodias latinas, que são um pouco mais melancólicas.
 
Em 1995, integraste o grupo NGB (New Generation Band). Como correu essa experiência?
Foi com esse projeto que gravei a minha primeira música em espanhol. Começámos a gravar quando eu tinha 14 e acabámos tinha eu 15 anos. Inicialmente éramos um trio, mas houve um membro que saiu, e passámos a duo. Quando o disco saiu eu já estava a viver em Nova Iorque e entretanto o outro membro do grupo tinha começado a cantar kuduro. Os três seguimos caminhos muito diferentes.
 
Tornaste-te um verdadeiro fenómeno em Portugal. Como explicas isso?
Acredito que o segredo do sucesso não existe. Há quem diga que tem a ver com o facto de se ser humilde, mas vejo tantos artistas que não respeitam os fãs e não é por isso que deixam de ter sucesso... Também não acho que tenha a ver com talento… Sou uma pessoa crente, acho que é uma questão de bênção. Às vezes o sol brilha para uns e não brilha para outros.
 
Como resistes ao deslumbramento da fama?
Temos de compreender que todos somos diferentes, todos somos especiais. Não existe ninguém como nós, se não nós mesmos. Temos de perceber que existe alguém que faz aquilo que nós fazemos, mas melhor. Ninguém faz igual a nós, mas existe quem faça melhor. Temos de compreender que o sucesso não é algo que dependa de nós. Quando percebemos que isso nos foi dado e não que o adquirimos porque merecemos, acabamos por ter os pés mais assentes no chão.
 
Essa modéstia faz falta a muita gente?
Sim, claro. Modéstia e ter noção da realidade. Quanto mais vês as coisas como realmente são, mais podes tirar proveito delas.
 
Estiveste como jurado no The Voice Portugal. Como foi para ti essa experiência?
Foi muito boa. Diverti-me especialmente no The Voice Kids, eu e as crianças temos uma boa relação. Tem sido muito divertido, e em princípio vamos voltar para mais uma edição. O The Voice ajudou-me a melhorar o meu à-vontade perante as câmaras. No início detestava entrevistas, televisão, era a parte do meu trabalho que eu menos gostava. Nesse sentido, o The Voice tem sido uma boa escola.
 
Já conhecias alguns dos jurados antes do programa?
Conhecia o Mickael através do David. Sou fã do Mickael e da música dele. Também sou grande fã da Áurea e da Marisa.
 
Compões as tuas letras. Não te incomoda partilhar as tuas experiências pessoais na tua música?
Há muitas coisas que escrevo que não são pessoais, são situações que vi outras pessoas passarem. São problemas do quotidiano, da vida de um casal. Não me faz confusão desde que eu não defina claramente que aquela é a minha história. Fica ali no barulho, ninguém sabe [risos]…
 
É difícil conciliar a vida familiar com a vida de artista?
É muito difícil. É a parte mais difícil deste trabalho, especialmente quando se tem diferentes mercados. Se fores um artista português a viver em Portugal o teu mercado é aqui, é mais tranquilo. Já experimentámos viver aqui mas as nossas raízes estão em Angola.
 
Se um dia os teus filhos quiserem seguir as tuas pisadas vais encorajá-los?
Já lhes disse “esqueçam lá isso” [risos]… A minha filha tem queda para a música, o meu filho já disse que gostava de ser músico mas, se for muito difícil, quer ser bombeiro [risos].
 
Regressas ao Campo Pequeno dia de abril. Como vai ser este concerto?
Vamos gravar um DVD nesse concerto. O primeiro que gravámos foi em 2012 por isso já está na altura de gravar outro. Vamos tocar algumas músicas inéditas como este novo single, 1 em 1 Milhão, que é a primeira música que canto que não foi escrita por mim, é da Carolina Deslandes.
 
Como surgiu esta parceria entre os dois?
Estavam várias pessoas em estúdio a compor, e surgiu esta música. Eu disse logo que era para mim [risos]. Convidei-a para cantar esta música comigo no Campo Pequeno.
 
Vais ter mais convidados especiais?
Sim, tenho alguns convidados mas ainda estou a estudar o guião do concerto e a perceber o que faz sentido.

Para quando o novo álbum?
Para já estou focado em lançar este novo single e em gravar o vídeo. Devo lançar outro single em maio e passado uns meses outro. Depois disso será lançado o dvd deste concerto, que inclui algumas músicas novas. O Amor é Cego faz em novembro dois anos, por isso para já quero ir lançando alguns singles, fazer o aquecimento para o novo álbum. Para o ano logo se vê, mas sem pressão.

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Música › Espetáculos
31 out//18
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