Entrevista a Brass Wires Orchestra

Entrevista a Brass Wires Orchestra

Miguel da Bernarda fala-nos de 'Icarus'

No dia 16 de novembro, os Brass Wires Orchestra (BWO) apresentam o segundo disco, Icarus, no Musicbox. Estivemos à conversa com o vocalista e autor das letras, Miguel da Bernarda, sobre o percurso da banda e o novo disco. A conversa passou ainda pelo uso excessivo das novas tecnologias e das redes sociais, que levou o vocalista dos BWO a estar um ano sem telemóvel. Dessa experiência resultou o primeiro single do disco, Youth.
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Começaram por tocar versões de bandas de que gostam, e só depois começaram a tocar composições vossas. Tocar originais foi uma urgência?
Foi uma coisa que aconteceu com naturalidade. Começámos por tocar músicas de outras bandas mas tínhamos grande vontade de tocar canções nossas. Não foi planeado. Comecei a escrever algumas coisas, apresentei à banda e começámos a trabalhar de forma muito natural, muito ingénua, e os temas começaram a ser inseridos na nossa setlist. Íamos encaixando os originais no meio das versões. O primeiro concerto só de originais que demos foi no Vodafone Mexefest em 2013, salvo erro.

Como começou o vosso projeto? Já se conheciam todos?
Não, não nos conhecíamos. Sou de Alcobaça, não sou de Lisboa. Quando vim para Lisboa, não conhecia ninguém do circuito musical. Na altura namorei com uma miúda que era atriz, e que tinha muitos amigos atores e músicos, entre eles dois ex-namorados, o Tomás e o Afonso. Perguntei-lhes se conheciam alguém que tocasse, para fazermos uma experiência. Ficámos amigos muito rapidamente.

Como se encaixam seis personalidades diferentes num projeto como o vosso?
Ui, é terrível [risos]. Já tivémos vários stresses.Mas faz parte, são egos e personalidades…

Em março de 2012 houve um ponto de viragem na vossa história, com a participação no concurso Hard Rock Rising 2012. Foram a primeira banda portuguesa a atuar no Hyde Park, em Londres. O que retiraram dessa experiência?
Nessa altura era tudo muito fantasioso para nós. Inscrevi a banda sem ninguém saber. Acabámos por ser selecionados para as meias-finais. Tivémos de montar um espetáculo de quatro temas originais e começou aí o nosso percurso profissional, depois de vencermos cá em Portugal e de termos ficado bem classificados no concurso mundial. Quando fomos para Londres percebemos que as coisas iam mudar, que estávamos noutro patamar. Para nós foi um sonho: tínhamos seis meses de banda e de repente estávamos num hotel de 5 estrelas, com motorista, a tocar num festival gigante no estrangeiro.

Fizeram a primeira parte dos Bon Jovi no Parque da Bela Vista. Embora sendo de um género musical bem diferente do vosso, sentiram-se honrados com o convite?
Sentimos porque foram eles que nos escolheram. Foram-lhes propostas algumas bandas e eles escolheram-nos. De facto a sonoridade não tem nada a ver connosco, mas foi uma oportunidade que achámos interessante e decidimos aceitar.

Chegaram a cruzar-se com eles?
Cruzámos, mas não estabelecemos contacto. Foi-nos dito pela produção que era proibido qualquer tipo de interação.

Falando agora deste novo trabalho, o conto mitológico de Icarus foi a premissa para este disco…
A história de Icarus fala de um ato suicida. Havia um grande grau de risco envolvido, e achei que era uma boa comparação porque neste disco decidimos mudar a linguagem e a sonoridade, apesar de acharmos que o nosso cunho pessoal está lá. Íamos mudar elementos, texturas e sons que faziam parte do nosso primeiro disco e que neste novo disco iam progredir para coisas um bocadinho diferentes, mais ao encontro do que gostamos de fazer hoje em dia, mas que se calhar para o público que nos seguiu no primeiro disco podia ser um bocadinho um turn off. Por causa desse risco veio esta comparação.

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  • "Queremos muito tocar lá fora e
  • mostrar a nossa música
  • num circuito internacional,
  • mas é algo que não depende só de nós."
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Estiveste um ano sem usar o telemóvel, experiência essa que deu depois origem ao primeiro single deste disco, Youth. Foi difícil?
Orgulho-me de não ter grandes vícios: não fumo, não bebo (só socialmente), não tenho vícios de substâncias, digamos assim. Quando me apercebi que estava viciado no telemóvel, decidi que não queria mais. Decidi que tinha de fazer um detox. Isto coincidiu com o festival Andanças, onde não há rede, temos que combinar tudo previamente. Soube-me muito bem estar incontactável e decidi continuar assim. Entretanto comecei a namorar, e essa minha namorada obrigou-me a ter um telemóvel para ser mais fácil encontrarmo-nos, porque havia muitos desencontros. Hoje em dia as pessoas não estão habituadas a desencontros. Querem tudo com muita urgência e muita pressa. Tive que arranjar um telemóvel, mas passei a usá-lo de forma muito mais moderada, sem aquela pressão de saber o que se está a passar nas redes sociais, aquele estímulo constante.

Youth é uma crítica ao uso excessivo das novas tecnologias e das redes sociais. Hoje em dia tudo é escrito, reescrito e editado. Achas que estamos a perder a capacidade de sermos autênticos?
No vídeo introduzimos uma voz-off que fala sobre isso. A partir do momento em que estás a partilhar algo que é teu mas que podes editar, acabas por escolher aquilo que queres fazer parecer. É tudo muito pouco autêntico. Hoje em dia há muitas pessoas que têm dificuldade em manter uma conversa que não seja trivial, não conseguem conectar-se aos outros, sentem-se mais salvaguardadas no meio digital. Perdeu-se a arte da conversa. Na altura dos nossos pais era uma arte, as pessoas conversavam, debatiam coisas, hoje isso não acontece muito. Mesmo num jantar de amigos, há sempre alguém agarrado ao telefone.

O videoclip, da autoria de Filipe Correia dos Santos, é quase uma curta-metragem. Houve muito trabalho na elaboração deste vídeo. São perfecionistas?
Tentamos, embora às vezes não tenhamos meios para isso. Neste vídeo certifiquei-me que estava em cima de todos os processos criativos e visuais e trabalhei com o realizador para estarmos em sintonia, para conseguirmos fazer aquilo a que nos tínhamos proposto.

Para um músico, alguém que tem uma voz ativa, é um dever ou, por outro lado, uma inevitabilidade, chamar a atenção para o que está errado na sociedade?
Nunca tive essa chama ativista, embora neste tema em concreto haja uma grande vontade de partilhar o que sinto com o público. Acho que as pessoas acabam por perder a relação humana. Foi um tema que compus muito rapidamente. Se pudesse dobrar o tema da canção teria ainda mais coisas para dizer. Ao vivo não sinto que tenha que parar o concerto e dizer às pessoas o que penso, não sinto a obrigação de educar ninguém.

As vossas músicas são todas em inglês. Colocas a hipótese de algum dia compor em português, tens esse chamamento?
Não, mas há uma explicação para isso. Estudei num colégio inglês desde o 6.º até ao 12.º ano. As disciplinas eram todas dadas em inglês, a música que ouvia era toda em inglês… O meu objetivo, enquanto letrista, era chegar a um patamar em que me podia comparar aos letristas que eu ouvia. Ainda é uma grande preocupação minha.

Preocupa-te que as pessoas possam não entender a mensagem das músicas, especialmente pelo facto de as letras serem escritas em inglês?
Não tenho essa preocupação, mas sei que a minha escolha de palavras não pode ser muito erudita. Gosto de meter uma ou outra palavra mais difícil, porque quando isso me acontece a mim enquanto ouvinte tenho a curiosidade de ir pesquisar. Em termos de mensagem, já tive tantas pessoas a dizerem-me coisas diferentes sobre aquilo que escrevo, interpretações tão diversas, e isso é incrível porque dá-me uma visão diferente daquilo que eu próprio escrevi. Tenho uma ideia, uma história, mas sei que as pessoas vão interpretar como entenderem e isso é muito giro.

Voltam ao Musicbox dia 16 de novembro. Que expectativas têm para este concerto?
Vamos tocar este álbum, mas também vamos tocar algumas músicas do primeiro disco. Não é nada que nos agrade particularmente porque já o tocámos tanto que queríamos arrumá-lo, mas tem de ser.

Já há material para um terceiro disco?
Não, não quero pensar nisso. Quero estar com a cabeça neste disco, agora. Não lido bem com coisas guardadas durante muito tempo, começo a querer mudá-las. Quando tivermos uma data, então começamos a trabalhar no novo disco.

A internacionalização é um objetivo?
Claro, é o nosso grande sonho. Queremos muito tocar lá fora e mostrar a nossa música num circuito internacional, mas é algo que não depende muito de nós. É difícil lá chegar porque há muita oferta. Uma banda portuguesa com seis pessoas tem custos logísticos. É preciso encontrar o circuito certo e uma agência estrangeira que trabalhe bem, e estamos nesse processo neste momento.

[Por Filipa Santos]

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