Entrevista a Fábia Rebordão

Entrevista a Fábia Rebordão

Em concerto no CCB

  • ''Cantar sem rede, sem ensaios, ao sabor da inspiração momentânea...
     ''Cantar sem rede, sem ensaios, ao sabor da inspiração momentânea...
  • ... são coisas que só se ganham nas casas de fado"
     ... são coisas que só se ganham nas casas de fado"

No dia 14 de julho, o CCB recebe um concerto de Fábia Rebordão, uma das vozes da nova geração do fado. Na bagagem, a cantora traz dois discos e influências musicais que vão desde o jazz, à bossa-nova ou ao soul.

Apaixonaste-te pelo fado na adolescência. Quando percebeste que era esse o teu caminho?
Descobri o fado com 14, 15 anos. Cantei em várias casas de fado nessa altura, mas achava que era demasiado nova para ficar agarrada a isso. Achei que era a altura ideal para viver outras coisas e foi o que fiz. Entrei no musical My Fair Lady, do Filipe La Feria, onde estive durante um ano, o que foi muito enriquecedor. Depois disso participei na Operação Trinfo, cantei em bares, casinos e hóteis, algo que me deu muito traquejo. Depois de tudo isto voltei às casas de fado por convite do dono do Bacalhau de Molho (atual Casa de Linhares), que infelizmente já faleceu. O bichinho do fado, que entretanto tinha adormecido, acordou e voltei a sentir essa necessidade de cantar fado.

És considerada uma das vozes de referência da nova geração do fado. Como reages a isso?
Gosto de ter os pés assentes na terra e de criar expectativas em relação ao meu trabalho e à minha evolução, mas não me deslumbro nem crio muitas ilusões porque isto é tudo muito efémero e vou vivendo um dia de cada vez. Tento dar sempre o meu melhor e extrair o melhor de tudo o que me acontece e é nessa base que quero evoluir e aprender. Fico muito feliz e estou muito grata por isso, mas não quero que me influencie.

Tens uma ligação familiar a Amália. Isso coloca-te algum tipo de pressão?
Nunca fiz questão de expôr muito isso e nunca me vali disso. Para mim é um orgulho muito grande, claro. Infelizmente foi-lhe dado valor em Portugal já tarde. Ela nasceu em 1920, e o primeiro Coliseu que fez foi nos anos 80, já tinha uma grande carreira internacional quando começou a ser reconhecida cá. Infelizmente não cheguei a conhecê-la, mas apaixonei-me pelo fado através da voz e da interpretação da Amália, é a minha referência maior. Conheço um bocadinho da Amália através da Celeste Rodrigues com quem tenho uma ligação bastante forte. O meu bisavô materno era o irmão mais novo da mãe da Amália, que era viola de fado. Na altura o fado era mal conotado, não era bem aceite uma mulher cantar fado, e ele era contra ela cantar, instigava a irmã para que não o permitisse, mas não foi possível parar o seu talento.

Embora o fado seja a tua principal influência, tens outras, como a bossa nova, a morna ou o jazz. Como conjugas musicalmente todas estas sonoridades?
Tentei usar tudo isso a meu favor. Sempre ouvi muita música e sempre fiz questão de me cultivar musicalmente. Tenho muitas influências, sendo a minha matriz o fado, mas enquanto compositora e intérprete sinto que é importante ter vários géneros musicais presentes na minha vida. É também uma forma de evoluir e de trazer a minha linguagem a este género onde me movo, que é o fado. Acho importante ter uma identidade, as pessoas ouvirem-me e perceberem quem está a cantar.

Passaste pelas casas típicas de Alfama. Achas que as casas de fado são uma escola fundamental para quem canta o fado?
Sem dúvida. Não temos escolas que ensinem a cantar fado. Existem algumas coletividades de fado amador, onde fazem sessões de fado, mas é nas casas de fado que os grandes músicos e os grandes fadistas começam. Ainda estive uns anos no Bacalhau de Molho a cantar com a Ana Moura e com a Raquel Tavares. É uma experiência importante. O facto de se cantar sem rede, sem ensaios, a inspiração momentânea… são coisas que só se ganham nas casas de fado.

Em setembro do ano passado lançaste o teu segundo álbum, Eu. Este disco tem a participação de nomes como Jorge Fernando, Pedro da Silva Martins, Dino d’Santiago, Jorge Fernando, Tozé Brito, Rui Veloso… Como surgiram estes nomes?
Com este disco quis criar uma linha que fosse muito minha. Tentei, com a Sónia (minha editora) e com o Jorge Fernando, produtor dos meus dois álbuns, pensar num conceito que refletisse aquilo que sinto, as minhas influências, o que tenho para dar… Achámos por bem arranjar uma co-produção. Assim, tenho três produtores: o Jorge Fernando, o New Max (dos Expensive Soul) e o Hugo Novo (irmão do New Max). Eles conseguiram descodificar tudo o que vai cá dentro e fizémos alguns convites. Houve também pessoas que se ofereceram. O Pedro da Silva Martins disse-me que gostava de me fazer uma letra e eu, que sou grande admiradora dele, aceitei logo. Fluiu tudo muito naturalmente com o Rui Veloso, com o Dino d’Santiago, com o Daniel Rebelo, com o Tozé Brito… Encontrámos uma receita que me satisfez muito e que me orgulha muito a mim e a todas as pessoas envolvidas.

A tua ligação ao Jorge Fernando é antiga. Houve uma química musical logo de início?
Quando fui para a Casa de Linhares o Jorge ouviu-me cantar e sempre me ajudou muito, quer na parte da interpretação, quer na escolha de repertório, até que me desafiou a fazer um disco. Antes do disco, convidou-me para fazer um dueto para um disco dele. Abria o disco com esse dueto, Ai Vida, e fechava com o mesmo dueto, mas com a Amália. A partir daí começámos a pensar num disco, em repertório, foi nessa altura que me estreei a compôr. É como um mentor, é uma pessoa muito importante porque me direciona sempre para o sítio certo, gosto que ele veja as coisas que escrevo.

O disco inclui ainda composições tuas. A escrita é um processo de entrega difícil?
A composição está relacionada com a inspiração, que não acontece todos os dias. Às vezes demora meses a vir, outras vezes acontece vários dias seguidos… Está relacionada com situações que vivemos e que precisamos de exorcizar, como se fosse um desabafo. No fado cantamos a vida. Enquanto intérprete, tenho oportunidade de escolher o repertório que canto e o fado não é só tristeza, embora eu goste desse lado denso, nostálgico, melancólico. Cantar e compôr são coisas que me dão muito prazer, mas a escrita é um processo diferente, porque não dá para forçar, simplesmente acontece.

Em julho, atuas no CCB. O que estás a preparar para este concerto?
Ainda estou a pensar no concerto mas já tenho o alinhamento quase pronto. Gosto de me reunir com os músicos e saber a opinião deles. Está tudo a correr bem, vou passar pelo fado, que é a minha matriz, e acho importante mostrar essa minha verdade às pessoas. Vou também passar pelo folclore, coisas mais tradicionais e vou tocar músicas dos meus dois discos.

Já estás a pensar num próximo disco?
Ainda estou a saborear este, mas já tenho muitos temas para o próximo disco. Não quero ficar tanto tempo sem gravar como fiquei do primeiro para o segundo, que foram cinco anos. Queria dar continuidade a este meu Eu, já falei com o Jorge sobre isso e já começámos a escolher algumas coisas para o próximo disco.

[por Filipa Santos; fotografias de Humberto Mouco]

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