Entrevista a Fernando Tordo

Entrevista a Fernando Tordo

70 Anos de Vida e 50 de Canções

Fernando Tordo regressa aos palcos para apresentar o novo álbum, Duetos. Diz-me com quem Cantas, onde partilha algumas das suas canções mais emblemáticas com grandes artistas nacionais. Este foi o mote para a conversa com a Agenda Cultural de Lisboa, onde também se falou sobre as suas recordações do Festival da Canção.

O espetáculo do Tivoli chama-se 70 Anos de Vida e 50 de Canções. O seu repertório é vastíssimo… Foi muito difícil escolher as canções para este concerto?
Normalmente escolhem-se as canções que fizeram as carreiras dos artistas. No meu caso foi Cavalo à Solta, Tourada, Estrela da Tarde, Adeus Tristeza… Por exemplo, a Estrela da Tarde, canção que compus com letra de Ary dos Santos, vai ser uma nova experiência para mim porque vou cantá-la com a Carminho. Mais dentro do jazz, tenho uma canção que se chama O Rato roeu a Rolha, que canto no disco com a Maria João. A Anabela vai cantar comigo Balada para os nossos Filhos. É uma amostragem de um conjunto de canções que fizeram uma carreira. Em lado nenhum do mundo um cantor pode deixar de cantar as canções mais relevantes da sua carreira. Nunca passaria pela cabeça do Frank Sinatra deixar de cantar o My Way ou o Strangers in the Night. Não se pode virar as costas a determinadas músicas só porque estamos fartos delas. Não é isso que o público quer. O repertório novo tem que passar por uma experiência muito dura que é a da rádio. Uma rádio que passe música portuguesa, que não é o caso da nossa. A rádio passa as músicas que as editoras lhe pagam para passar. Tive sorte, porque sou de um tempo em que se gravavam discos e a rádio os passava, criavam-se êxitos assim. É a rádio que cria os grandes êxitos, não é a televisão. Gravei um disco onde musiquei 12 prémios Nobel da Literatura em cinco línguas, e passou completamente ao lado. O fenómeno cultural passa ao lado no nosso país.

Está a gravar um disco de duetos. Quem escolheu para cantar consigo?
Os convidados são pessoas de quem gosto, com umas tenho maior confiança do que com outras. Herman José, Rita Redshoes, Ricardo Ribeiro, Camané, Jorge Palma, Moisés (Quinta do Bill), Tim, Carminho, Rui Veloso… Não se poderia esperar outra coisa de mim, não ando cá por acaso há 50 e tal anos… É natural que tenha escolhido pessoas importantes. Este é um disco sobre a minha longuíssima história na música em Portugal. Novas versões, com novos arranjos. Foi um lado muito interessante, fazer uma nova leitura sobre estas canções, algumas delas muito conhecidas. Vai ser um disco muito interessante. Chama-se Duetos. Diz-me com quem Cantas. Este mês vou apresentá-lo em Lisboa (Teatro Tivoli BBVA), dia 18, e no Porto (Casa da Música), dia 27. Os convidados para o concerto de Lisboa são o Ricardo Ribeiro, a Anabela, o meu filho Filipe (que participa também no disco), que é pianista clássico, e a Marisa Liz. A Anabela vai cantar comigo a canção que escrevi para a edição deste ano do Festival da Canção. Nestes espetáculos participa também o meu octeto, uma formação completamente nova, dois dos músicos são também os orquestradores do disco. Estes concertos são duas provas muito importantes e muito gratificantes.

Recorda-se da sua entrada no universo do Festival da Canção?
Em 1968, a Maria Leonor, uma grande profissional da rádio no nosso país, telefonou-me e pediu-me que fosse à Emissora Nacional, onde ela trabalhava, para me apresentar uns autores que estavam a concorrer ao Festival da Canção de 1969. Cantei a canção, que se chamava Cantiga, e assim a minha vida mudou, de um momento para o outro. Participei em 1969, fiquei em quinto; em 1970, último lugar; 1971 (em parceria com o Ary dos Santos), Cavalo à Solta, terceiro lugar. 1972, último lugar; em 1973 ganhei com A Tourada. Na altura o festival era visto por toda a população portuguesa, só havia uma estação em Portugal. Uma noite de emissão do Festival da Canção nessa época era de 6 ou 7 milhões de pessoas. Nesse festival, pateticamente, resolvi cantar duas canções. Jamais me passaria pela cabeça ganhar nessa altura. Uma pessoa que leva duas canções ao festival vai, inevitavelmente, dividir os votos. Era uma canção muito necessária, tão fora de tudo naquele tempo, um pequeno sininho de que alguma coisa estava para mudar. Isto aconteceu em fevereiro de 1973, faltava um ano e dois meses para a Revolução dos Cravos. Ainda hoje me perguntam como é possível que a canção tenha escapado à Censura. Não faço ideia, alguma coisa aconteceu… Em 1974, ano em que ganhou o Paulo de Carvalho, não concorri propositadamente. Repare nisto: em 1972 ganhou o Carlos Mendes, em 1973 fui eu e em 1974 o Paulo de Carvalho. Uma espécie de trilogia. Aquele triângulo tinha que se cumprir. Em 1976 escrevi duas canções para o Carlos do Carmo, que foi o único intérprete. Ganhou com a canção do José Niza e do Manuel Alegre, Uma Flor de Verde Pinho. Compus duas para esse festival: Novo Fado Alegre e Estrela da Tarde (com letra do Ary), que é, para minha grande satisfação e honra, cantada em todo mundo. Mas as classificações dos festivais valem o que valem, não é por acaso que os passam e não há nenhuma canção que fique. É uma coisa efémera e folclórica, mas muito por pressão das editoras. São elas que continuam a ganhar os festivais. O jogo de bastidores dentro da RTP começa a marcar excessivamente o festival. Em 1977, eu, o Paulo de Carvalho, a Ana Bola, o Edmundo Silva, a Fernanda Piçarra e a Luísa Basto concorremos juntos, formámos Os Amigos e ganhámos com Portugal no Coração. Julgo que a RTP é a estação europeia mais ligada ao festival. Mesmo nas suas próprias celebrações de aniversário o Festival da Canção é um elemento sempre presente.

Que recordações tem desse tempo?
Em 1968 os ensaios para o festival eram feitos nas instalações da Tóbis, na Alameda das Linhas de Torres. Eu tinha saído diretamente dos Sheiks para entrar no mundo do festival por convite da Maria Leonor,  num país em que os cantores eram grandes figuras nacionais. Alguns ainda estão no ativo. Era um rapaz com 18, 19 anos e fiquei um pouco amedrontado com a reação das pessoas porque ninguém se aproximou, mas isso atenuou-se quando começaram a sair as minhas primeiras canções, porque as pessoas perceberam que havia um miúdo português que sabia fazer canções, que gravava com o grande orquestrador Joaquim Luís Gomes.

Ficou muito surpreendido com a vitória do Salvador Sobral?
A Luísa Sobral para mim não era surpresa, já tínhamos cantado juntos o Adeus Tristeza, de que ela gosta muito. Surpresa foi ela ter conseguido uma coisa única. Eu sou da geração que andou a tentar fazer caminho para que algum dia alguém ganhasse o Festival da Eurovisão. Estava no Brasil quando recebi a notícia da vitória e fiquei completamente abismado. Com esse entusiasmo e como sinal de gratidão, gravei uma versão da canção. Do festival desse ano para o deste ano vai infelizmente uma diferença grande, porque se instalou uma teia complexa. Complexa demais para uma estação de televisão que somos nós que pagamos. As coisas não são claras: a escolha do júri, especialmente do júri regional, tem muito que se lhe diga. Quem são aquelas pessoas, quem é que as escolhe? Os concorrentes não sabem quem são estas pessoas. Eu não soube. Não têm nada para me ensinar sobre o Festival. Passei por tudo na minha vida no Festival. Sou, provavelmente, o único português que está à vontade para falar desta maneira. Não me agrada uma certa teia de interesses que a RTP deixou montar dentro da sua própria estrutura.

O feito conseguido pelo Salvador Sobral é irrepetível? Qual a sua expectativa para o desempenho de Portugal na edição da Eurovisão deste ano?
O que desejo este ano é que as coisas corram muito bem, que consigam a melhor classificação possível. Não é, de maneira nenhuma, uma canção que possa ganhar o festival, não tem essa originalidade. A do ano passado tinha, a deste ano não tem, mas pronto, foi a escolhida, embora eu não esteja minimamente de acordo com o critério que levou àquela escolha… Acho muito ridículo todo este folclore que se montou à volta do esquema de segurança com o Festival. Só se ouve falar do Festival por causa disso, em vez de ser por causa da música. É ridículo e deixa-nos mal vistos. Desvia-nos da coisa essencial. Portugal está na moda, especialmente Lisboa. Às tantas, a Eurovisão, que tem problemas económicos graves, começou numa busca de capital para pagar a despesa. Portugal pôs-se muito a jeito. Tínhamos este trauma de nunca termos conseguido ganhar a Eurovisão, mas não acredito que Portugal possa pagar esta despesa, que só tem retribuição no plano turístico, mas não tem nenhuma retribuição no plano cultural. O ano passado houve um conjunto de circunstâncias extraordinárias para Portugal ganhar: a canção era melhor que as outras, o intérprete era completamente diferente dos outros… Não me parece que a canção deste ano tenha esse clima. 

Voltaria a concorrer?
Fiquei tão entusiasmado com a vitória do ano passado que voltaria a concorrer. Não fui ao festival para ganhar. Não era naquelas condições que ia ganhar o festival. Nem sequer tenho editora. Gosto muito da Anabela, isto foi muito bom para a carreira dela. Ela pegou muito bem na canção, foi um exemplo de profissionalismo. Para o ano serei capaz de concorrer se não houver um clima de interferência perigoso dentro da própria RTP. Não me agradou aquilo a que assisti. Sempre fui um homem de esquerda e assumo publicamente: o esquema de seleção e de votação no Festival da Canção antes do 25 de abril era democrático e justo, e hoje não é. As pessoas têm que saber o que isto foi, o que isto é, e o que pode vir a ser. Os portugueses têm direito a um Festival da Canção justo e limpo, e este ano não foi assim.

[Por Filipa Santos | fotografias: Humberto Mouco]

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FERNANDO TORDO

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