Entrevista a Isadora Valero e Francisco Sebastião

Entrevista a Isadora Valero e Francisco Sebastião

'O Lago dos Cisnes' pela Companhia Nacional de Bailado

A Companhia Nacional de Bailado (CNB) encerra as comemorações do seu 40.º aniversário com uma série de representações do Lago dos Cisnes, na época de Natal. Durante os ensaios, falámos com dois jovens bailarinos da companhia que interpretam o par protagonista, a venezuelana Isadora Valero e o português Francisco Sebastião, na sua segunda temporada na CNB, após uma passagem pelo Ballet de São Francisco.
 
A programação da CNB é muito ecléctica, indo do bailado clássico à dança contemporânea. Para uma obra tão exigente como o Lago dos Cisnes, como é feita a preparação dos bailarinos? 
Isadora Valero: Numa companhia de reportório como a CNB, temos uma aula clássica todos os dias. É a forma de mantermos o treino do bailado clássico. Claro que para uma obra tão exigente como o Lago dos Cisnes não chega, é preciso uma dedicação diária mais intensa durante vários meses. Acho os bailarinos desta companhia prodigiosamente versáteis, o que possibilita passar da dança contemporânea para o bailado clássico ao longo de uma temporada.
Francisco Sebastião: O passado na aprendizagem é muito importante. Eu, por exemplo, tive clássico e contemporâneo no conservatório e sinto que adquiri uma versatilidade que posso utilizar no meu trabalho profissional.
 
Do ponto de vista de um bailarino, quais são as diferenças entre interpretar um bailado clássico ou dança contemporânea? 
F S: Na dança clássica temos que nos focar na execução técnica e depois interpretar o papel dentro da técnica. Na contemporânea cada coreógrafo tem o seu estilo pessoal; na clássica a técnica é só uma.
IV: Concordo. O bailado clássico tem um vocabulário que para o executar implica muita determinação e persistência. O contemporâneo também, mas de uma outra forma menos rígida.
 
O que preferem interpretar?
I V: Pessoalmente o neoclássico. O Romeu e Julieta com música de Prokofiev, por exemplo, é uma obra que tem muitas vezes uma abordagem mais neoclássica, o que permite uma liberdade de movimentos mais ampla, mas o estilo neoclássico, propriamente dito, que começa com George Balanchine, é sem dúvida um dos meus preferidos. 
F S: Não tenho preferência. Gosto de interpretar os dois.
 
O que significa para vós interpretar um clássico como O Lago dos Cisnes na Temporada de Natal?
F S: Uma oportunidade e um desafio enormes. Até agora, é das coisas mais difíceis que já fiz, mas é isso que faz um bailarino crescer e ganhar experiência
I V: O Lago dos Cisnes é uma obra-prima e que pelo menos uma vez na vida todos deveríamos assistir. Interpretar este papel é uma responsabilidade muito grande, como seria noutra época qualquer. Claro que o Natal é uma época em que tradicionalmente as pessoas juntam-se para vir ver um bailado clássico e é uma época especial para todos. Nós é que não podemos celebrar muito porque temos que estar em forma e cuidar dos nossos corpos que são o nosso instrumento de trabalho.

Que desafios apresentam os vossos papéis?
IV: Vou interpretar Odette/Odile, dois papéis num só. São duas personalidades extremas e distintas. Existe uma grande diferença na música, no movimento e na personalidade, e isso é muito difícil de interpretar. Há que estudar muito cada movimento e intensão que queres dar a cada movimento. Para além da exigência física que os papéis impõem.
F S: O príncipe Siegfried é o meu primeiro protagonista e sinto que a dificuldade está na totalidade do papel. Tenho que estar preparado em termos de resistência física para dar o meu melhor ao longo de todo o bailado e em cima disso assumir ainda a parte inteira de representação do personagem.

O que pode trazer de novo um bailarino a um obra como o Lago do Cisnes que já foi dançada milhares de vezes e pelos melhores interpretes de sempre? 
F S: O facto de sermos todos diferentes já traz algo de novo ao papel. Quando se atinge um alto nível como bailarino conseguimos imprimir algo da nossa personalidade aos papéis que criamos em palco. 
I V: Concordo. Cada bailarino tem uma forma diferente de dar vida às personagens. A própria versão que agora vamos dançar, do Fernando Duarte a partir de Petipa, tem particularidades próprias que identificam a visão do coreógrafo.

Qual o bailado clássico que sonham interpretar? 
IV: Romeu e Julieta com música de Serguei Prokofiev. 
FS: É também a minha escolha. É um bailado lindíssimo.
 
E o coreógrafo contemporâneo com que gostassem de trabalhar?
FS: Jiri Kylian. É o meu coreógrafo contemporâneo preferido
IV: O coreógrafo sueco Mats Ek.
 
O que pode ser feito para que o bailado clássico e a dança em geral passem a fazer parte dos hábitos culturais dos portugueses?
IV: Há muita coisa que já é feita mas podemos sempre explorar mais hipóteses. Procurar novos públicos, por exemplo, criar uma aproximação maior entre o público e os bailarinos. Penso mesmo que esses hábitos culturais devem ser transmitidos logo muito cedo nas escolas e pelas famílias, para além de um trabalho nesse sentido realizado pelas instituições culturais.
FS: Sinto que o bailado clássico desperta muita curiosidade. Mesmo junto da geração mais jovem. Ouço muita gente da minha idade dizer que querem vir ver o Lago dos Cisnes.

Têm uma profissão de rápido desgaste e de imenso esforço e as vossas representações são quase sempre efémeras. Não vos preocupa o facto de, por norma, não deixarem registo das vossas atuações?
FS: O efémero faz parte do encanto da nossa arte. Aquilo que fazemos existe naquele momento, no palco, e quando acaba deixa de existir. Isso cria uma comunhão única e muito forte com o público que está connosco. Dá me muito prazer estar em palco e sentir a emoção do público. Mesmo que não haja registo em vídeo, esse momento mágico é suficiente para mim.
IV: Gostaria que ficasse um registo, mas não me preocupa. Tenho memórias muito fortes de espectáculos de dança que vi em criança e gosto de pensar que mais tarde o meu trabalho possa servir de inspiração para outras pessoas.

[por Luís Almeida d'Eça | fotografias de Humberto Mouco/CML-ACL]

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8 a 22 dez/17
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