Entrevista a Jaques Morelenbaum

Entrevista a Jaques Morelenbaum

Cellosambatrio ao vivo

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Em abril, Lisboa volta a receber um dos nomes incontornáveis da música popular brasileira. O compositor e maestro Jaques Morelenbaum sobe ao palco do Teatro Tivoli BBVA para apresentar a história do samba através do seu instrumento de eleição: o violoncelo. O músico faz-se acompanhar por uma voz muito querida do público português, a conterrânea Adriana Calcanhoto. Em entrevista à Agenda Cultural, o músico falou não só sobre este projeto, mas também sobre aquilo que o apaixona no nosso país e que o faz regressar tantas vezes.

Em abril, regressa a Portugal para apresentar a história do samba através do violoncelo. Como se dá esse encontro entre o samba e a música de câmara?
Minha inspiração, ao criar o Cellosambatrio há mais de uma década, é basicamente um disco de João Gilberto gravado em 1973, que sempre me impressionou muito, afora a paixão que exerce, pela extrema simplicidade do tecido sonoro, apenas voz, violão e uma percussão leve, e como essa formação aparentemente singela tem o poder de preencher todo o espaço sonoro e estético, sem que nada faça falta. João Gilberto sintetiza o samba com tanta elegância e sutileza, e me conquista totalmente com sua expressão, a ponto de fazer-me querer seguir seus passos, ao convocar Lula Galvão para o violão, Marcio Dhiniz para a percussão e ousar substituir a maviosa voz de João com meu violoncelo.

De António Jobim a João Gilberto, passando por Caetano Veloso e Gilberto Gil, o repertório que escolheu é extenso e variado. Como foi feita essa seleção?
Toco Jobim, Gismonti (o primeiro a levar-me a Portugal), Caetano e Gil, assim como Jacob do Bandolim e Dorival Caymmi, sempre sob a influência do olhar de João Gilberto. Apresento três composições minhas nesse espetáculo, e procuro traçar minha própria formação musical ao declarar minhas paixões artísticas através de obras dos meus grandes mestres, sejam eles de forma direta ou não. Duas das minhas composições estão incluídas no nosso álbum Saudade do Futuro, Futuro da Saudade, sejam elas Maracatuesday e Ar Livre, assim como a inédita Nesse Trem Que Eu Vou, que fará parte do nosso próximo álbum.
 
No concerto que dará em Lisboa, Adriana Calcanhoto será sua convidada. O que podemos esperar desta colaboração?
Rodei o Brasil junto a Adriana, por ocasião do Ano Tom Jobim do Prêmio de Música Brasileira, e esta nossa reunião deixou aquele "gostinho de quero mais". Interpretaremos juntos algumas das pérolas deste nosso compositor maior. Algumas delas já havíamos tocados juntos durante a digressão do Prémio, como por exemplo Eu Sei Que Vou Te Amar. As outras deixaremos aqui aquele gostinho de surpresa, para a nossa apresentação no dia 18 de abril.
 
Tem colaborado com vários nomes ligados ao fado, como Mariza ou Carminho. Qual é a sua opinião sobre o fado?
O Fado para mim é a voz de Portugal. Traz e traduz o espírito deste querido povo irmão, e nele encontro enorme identificação com a música que fazemos no Brasil e em todo o mundo lusófono. Meus olhares libertadores e revolucionários estarão sempre a desejar ampliar as fronteiras, não só do Fado, mas de todos os estilos musicais, porém aprecio profundamente o sabor único que cada um desses estilos nos proporcionam. Apesar de minhas paixões pelo Fado de Lisboa ou o de Coimbra, ouso comparar o Fado com um belo e explendoroso Vinho do Porto!
 
Ultimamente, artistas portugueses como Carminho ou António Zambujo têm-se aproximado da música brasileira. Como vê essa ligação entre identidades musicais aparentemente tão diferentes?
Vejo com muitos bons olhos esta aproximação. Música é diálogo, é troca de emoções e de cultura. Acho que este fato amplia os horizontes de nossa música, assim como o da música de Portugal.
 
É uma presença muito assídua em Portugal. O que o faz regressar?
Amo esta terra por sentir-me em casa, apesar da distância que nos separa. Tantos amigos, tanta música, vinhos dos sonhos, comida  exuberante, tanto aí a me atrair. Há muito penso em passar um tempo mais longo por estas terras queridas, e estou sempre a ensaiar este novo passo!

[Por Filipa Santos]
[Créditos fotográficos: Roberto Cifarelli, Samuele Romano]

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