Entrevista a Jorge Andrade e José Capela

Entrevista a Jorge Andrade e José Capela

A propósito de 'Amazónia'

  • "Como trabalho preocupado...
     "Como trabalho preocupado...
  • ...com as questões da ecologia, resolvemos aplicar...
     ...com as questões da ecologia, resolvemos aplicar...
  • ...um verdadeiro processo de reciclagem de outros espetáculos."
     ...um verdadeiro processo de reciclagem de outros espetáculos."

Quem viu Moçambique poderá estar tentado a pensar que Jorge Andrade tem uma tia brasileira. Mas, não! A ideia de ter família no Brasil até agradaria ao autor, encenador e ator, mas Amazónia, afinidades tropicais à parte, é uma viagem sem conexões familiares aparentes e, certamente, muito mais ecológica. Pelo menos a julgar pelo que os diretores artísticos da Mala Voadora nos revelaram acerca do novo espetáculo, em estreia no Teatro São Luiz a 9 de novembro.

O que é Amazónia e essa “telenovela ecológica” que vem anunciada?
Jorge Andrade: Trata de um grupo de artistas que resolve ir para a Amazónia fazer, precisamente, uma telenovela ecológica, porque o conceito interessa às pessoas, é ético e é urgente; e parece ser uma fórmula de sucesso. Ao chegarem, começam por ocupar o espaço e tentam tornar aquele cenário inóspito, com muita natureza por toda a parte, um sítio agradável. Isso envolve limpar parte dessa natureza, e até mesmo eliminar alguns índios das redondezas. À medida que o vão fazendo, conseguem angariar alguns patrocinadores e financiadores para aquele empreendimento. Mas nem tudo acaba por correr como o previsto…

Ou seja, as preocupações que norteiam a ficção esfumam-se na realidade.
JA: Porque a telenovela ecológica deles é mesmo pouco ética e despudorada. É um projeto a lembrar a nossa história passada fazendo deles novos colonizadores.

Moçambique trabalhava diretamente a história de um país. E aqui, como é que trabalharam a realidade daquele imenso território?
JA: Aquando de uma ida ao Brasil com o Moçambique, que apresentámos em São Paulo e Coritiba, fomos à Amazónia, ao estado do Acre, um dos últimos a integrar o “império” brasileiro. Adquiri bibliografia, estudei alguma história da Amazónia, como aspetos da colonização portuguesa naquela zona, sobretudo a dizimação dos nativos, e a luta atual dos “sem terra” contra os senhores do gado e da soja. Tal como em Moçambique, também aqui se reflete a história, mas de uma forma muito mais livre.

Essa liberdade faz de Amazónia um espetáculo ainda mais pessimista do que Moçambique?
José Capela: Talvez seja um espetáculo mais negro…
JA: Mas não creio, apesar de tudo, que seja um espetáculo cínico e de descrença. Até porque team algum espaço para a esperança. Aliás, e tal como Moçambique, é bastante divertido. Como diz Timothy Morton, “todos nós sabemos que estamos lixados, mas não vamos passar o tempo que nos resta a chorar sobre o quão lixados estamos.”

A preocupação ecológica está subjacente ao próprio modo como este espetáculo foi concebido, não é assim?
JC: Como trabalho preocupado com as questões da ecologia nós resolvemos aplicar um verdadeiro processo de reciclagem de outros espetáculos. Por exemplo, na música e no desenho de luz apropriamo-nos do que criámos em espetáculos anteriores da Mala Voadora; a cenografia é emprestada de um espetáculo da Cláudia Gaiolas, Hunting Scene, com árvores de Natal a ilustrarem a densidade da floresta amazónica. E, as cenas e textos são também objeto desse mesmo processo de reciclagem.

[por Frederico Bernardino | fotografia de Francisco Levita/CML-ACL]

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