Entrevista a Jorge António

Entrevista a Jorge António

A propósito de "A Ilha dos Cães"

  • Jorge António, realizador
     Jorge António, realizador

O realizador e produtor Jorge António estreia o seu mais recente trabalho, A Ilha dos Cães, uma adaptação do livro Os Senhores do Areal de Henrique Abranches. O filme conta a história de uma multinacional que está a construir um resort na Ilha dos Cães, em Angola. Os trabalhos encontram-se atrasados porque os funcionários estão assutados. Vários cães selvagens que habitam na ilha atacam e matam trabalhadores. A empresa luta para expulsar os cães da ilha, mas também os pescadores, que tal como os cães, sempre ali estiveramEmbora exista um certo misticismo, este é sobretudo um filme político onde a luta de classes é evidente. Filmado em São Tomé e Príncipe e em Angola, conta com as participações de Nicolau Breyner, Ângelo Torres, João Cabral e Ciomara Morais. 

A Ilha dos Cães é uma adaptação da obra de Henrique Abranches, Os Senhores do Areal. Como surgiu a ideia de adaptar o romance?
Eu gosto bastante da obra literária do Henrique Abranches. Acho que é um dos nomes maiores da literatura angolana, se calhar pouco reconhecido. Este pequeno romance, escrito em 1992, sempre me despertou o interesse. A ideia de base é fantástica e em termos práticos poderia ser o mais acessível para a adaptação para cinema.
 
A história decorre ao longo de 60 anos. Apesar das diferentes épocas, há questões que se mantêm: a injustiça social, a opressão dos mais fortes sobre os mais fracos. Concorda que ao fim de tanto tempo aprendemos pouco com o passado?
Sim. A história da humanidade repete-se sempre, os erros principalmente. Basta olharmos em volta e ver o que vivemos atualmente no Mundo. Esta história, apesar de ser angolana, africana, poderia passar-se em qualquer lado do mundo.
 
Os cães que habitam a ilha são os protetores da liberdade e da justiça. Pode dizer-se que simbolizam a esperança das pessoas?
Os cães do livro e do filme são realmente os portadores de uma sabedoria ancestral que tenta preservar a liberdade e justiça. Claramente, o final do filme representa isso mesmo.
 
Há um grande misticismo no filme. Estes cães imbatíveis são a única forma de justiça, assim como a morte é, para várias personagens (Pêra D’Aço, Preso Julito, Pedro Mbala,) a única forma de liberdade. Estes ideais tão importantes são uma utopia?
Na verdade nenhuns ideais podem ser uma utopia, senão o que levaria o ser humano a construir a sua própria existência? Afinal aquilo que fazemos, fazemo-lo porque acreditamos que é possível. 
 
As filmagens decorreram em Angola, Portugal e São Tomé e Príncipe, o que provavelmente implicou uma grande produção. Foi difícil angariar meios para trabalhar em locais tão distintos?
Na realidade este projeto começou por ser uma grande produção internacional entre Portugal e Angola. O início da rodagem coincidiu com a crise petrolífera que afetou Angola e tivemos que reformular tudo. Os décors principais do filme no sul de Angola, no deserto do Namibe, passaram para a ilha luxuriante de S. Tomé e Príncipe. Mas acabámos por filmar em Angola. A cena do pesadelo do Pedro Mbala foi no Deserto do Namibe e a do administrador em Luanda. Os cães foram todos filmados em Lisboa, nos estúdios da Cinemate. Foi um grande trabalho de produção da Ana Costa e da sua equipa da Cinemate.

O elenco é formado por atores de diferentes nacionalidades. Como foi feito o casting?
O casting começou a ser feito logo após as primeiras versões do guião. Durante o processo de escrita tinha já alguns atores na cabeça para alguns papéis. Mas fizemos casting em Angola, S. Tomé e Portugal. O último papel a ser escolhido foi o do Patrão Américo (Nicolau Breyner) num episódio engraçado. O Nicolau estava a colaborar com a Ana Costa/ Cinemate nos últimos anos e cruzávamo-nos muitas vezes nos estúdios. Falávamos sobre os projetos dele e dos meus, incluindo a evolução d de A Ilha dos Cães. Na altura em que estávamos a fechar o casting e no final de um almoço perguntei-lhe se ele queria fazer o papel do Patrão Américo e ele respondeu-me: “Se me levares a São Tomé faço o teu filme à borla”. Assim foi.
 
É português e vive em Angola há vários anos. Embora trabalhe entre os dois países, Angola parece inspirar mais a sua obra. Porquê?
Digamos que é um processo natural. Quando se vive mais tempo noutro país com hábitos e culturas diferentes de uma forma intensa, é normal que a vontade seja a de contar histórias desse universo. Mas também porque, se calhar, no caso de Angola, existirem histórias tão incríveis e fascinantes que não podem deixar de ser contadas. É um país novo que está ainda a ser descoberto. As gerações mais novas de cineastas angolanos vivem sobretudo na capital e periferia, são demasiado superficiais na abordagem dos seus temas e são muito influenciados pelo que veem na televisão generalista e pelos produtos que vem da cultura americana, etc. Desconhecem o próprio país e o potencial que tem nas suas próprias histórias.

[por Ana Figueiredo]

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