Entrevista a Kleber Mendonça Filho

Entrevista a Kleber Mendonça Filho

A propósito de ‘Aquarius’

  • O realizador brasileiro esteve em Lisboa...
     O realizador brasileiro esteve em Lisboa...
  • ... para a antestreia de 'Aquarius', e falou com a Agenda Cultural
     ... para a antestreia de 'Aquarius', e falou com a Agenda Cultural

Fomos do Recife a Nova Iorque nunca saindo da Rua do Loreto, ali colados a um dos locais onde Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, está em exibição, o Cinema Ideal. Passaram meses sobre a presença do filme na competição oficial de Cannes, marcada pelo protesto #foratemer que no Brasil motivou a resposta infrutífera #boicoteaquarius. Dissipado o ruído fica a resplandecer um grande filme dentro de nós. Filme sobre a corrupção a que nos sujeitamos, por interesse ou necessidade, dando o exemplo em corpo de mulher madura do que é estar do lado decente da barricada. A nostalgia presente e futura passa por aqui.
 
Clara, referindo-se à sua tia Lúcia, quando surge uma foto desta num álbum de família, diz que quem a fez partiu o molde. Penso que Clara é feita do mesmo molde da tia Lúcia. Existe alguma Clara na sua vida ou trata-se de uma personagem de cinema sem ligações autobiográficas?
Desde muito cedo entendi que Clara seria a minha mãe. A minha mãe faleceu com 54 anos, foi uma mulher incrível que se separou cedo, que criou os filhos na Inglaterra, onde fez um doutoramento. Era uma mulher forte, especial, independente. A base emotiva do filme é a minha mãe. Não significa que o filme seja uma biografia dela. É um filme de cinema, com uma personagem cinematográfica, interpretada por Sonia Braga, que é outra mulher forte, que tem uma história de vida forte, pessoal, independente, e que é inteligentíssima. Sou fascinado por mulheres fortes e interessantes. Senti-me muito à-vontade para escrever esta personagem.
 
O apartamento onde Clara vive tem um papel central no filme. E passa a impressão de ser um espaço habitado, um espaço vivido. Como foi o vosso trabalho para rechear esse apartamento?
Foi trabalho de dois excelentes diretores de arte, Juliano Dornelles e Thales Junqueira, impulsionados o tempo todo por mim e pelo roteiro, que deixa muito claro que esse apartamento precisa ser vivo, não pode nunca parecer um mostruário de loja. Era importante que existisse uma clara diferença entre os discursos da construtora, da filha (“ah, esse lugar tá velho, isso aqui já deu…”) e vermos que aquele é um lugar muito bom para morar, aconchegante, bonito, que tem estilo. Tivemos muito trabalho. O apartamento foi preparado durante um mês. Tudo foi mudado, tudo foi repensado. Para mim, o apartamento é uma personagem.
 
Uma das paredes do apartamento está coberta de filas de discos de vinil e existe uma prateleira onde estão os discos que Clara escuta mais. Queríamos propor-lhe o desafio de mencionar três discos que não estão no filme e você diria qual a probabilidade de estarem entre os discos prediletos de Clara:
O “Rumours”, dos Fleetwood Mac…
Acho que estaria nessa prateleira.
O “Private Dancer”, da Tina Turner…
Não estaria.
E o “Sign o’ the Times”, do Prince.
Estaria. Sonia também gosta de Prince. Eu amo Prince, vi três vezes na minha vida ao vivo, e “Sign o’ the Times” estaria na prateleira dela, junto com muita coisa brasileira.
 
A próxima questão é sobre preconceito. Duas cenas. A primeira mostra alguns jovens com ar de bandido que se chegam a um grupo de pessoas que estão a fazer exercícios vocais deitadas na praia. A outra é quando dois ex-contratados da construtora abordam Clara que se prepara para entrar no prédio. Nestas situações pretendeu criar no espetador uma tensão que pode ter a ver com o preconceito em relação àquelas pessoas?
Se observar a articulação de planos no exercício na praia, eu não estou sugerindo nada, apenas mostrando que está chegando um grupo de garotos. Na segunda vez, o filme está num outro momento, onde há um mistério, há alguma coisa no ar, e sim, a ideia de dois homens andarem na direção de uma mulher que está de costas, é muito clara: trata-se, possivelmente, de um ataque. Mas também gostaria que ficasse muito claro que eles estão-se aproximando dela por admiração. Mas, muita gente no Brasil reage com o preconceito natural da sociedade, de achar que aqueles meninos na terapia do riso vão fazer alguma coisa. Na verdade eles só estão querendo provocar com a presença deles, porque aquela terapia é uma coisa ainda de classe média branca.
 
Outro aspeto do filme é o de você ter uma forma espontânea de mostrar cenas de sexo. São inesperadas, fugazes, não existe romantismo. Não são explícitas, mas são fortemente sugestivas. Que importância têm para si esses momentos?
Sexo faz parte do comportamento humano. Faz parte da sociedade, das histórias, mas estranhamente o cinema sente-se desconfortável com o sexo. O que é uma questão de mercado. Tento trazer um pouco mais de presença natural do sexo nos filmes. A tia Lúcia, por exemplo, tem lembranças sexuais que não são submetidas a classificação etária. Ela é livre para lembrar o que ela quiser, assim como todos nós. Essa era a ideia de uma certa força e da crueza daqueles flashbacks. Uma lembrança pura, bruta, de um momento carnal. Não me quero ver numa situação de estar obedecendo a regulamentos. E existem regras de comportamento para filmar sexo. 
 
Existem diálogos no filme que estão mais subjugados à narrativa e outros que parecem improvisados. Qual a margem de improviso que você deixa existir?
Dou total liberdade de se improvisar em cima do texto. O que aconteceu n’O Som ao Redor [anterior longa-metragem do realizador, de 2012] e neste foi atores dos dois filmes acharem que estavam improvisando de mais, que não estava a funcionar, e que precisavam voltar para o roteiro. A Sonia já gostava muito do roteiro e queria falar o roteiro. Para mim o que for verdadeiro, o que for interessante, o que soar forte, fica no filme. Mas não tenho nenhuma exigência de que o roteiro seja respeitado palavra a palavra.
 
A frase “Mostra que tu és intenso” [proferida por Clara para o sobrinho, a quem recomenda que dê a ouvir músicas de Maria Bethânia à namorada] é sua ou de Sonia Braga?
É minha. Vem de todo o folclore em torno de Maria Bethânia… O amor como algo intenso.

  • ''AQUARIUS GANHOU UMA PROPORÇÃO DE
  • DISCUSSÃO CULTURAL E POLÍTICA QUE
  • LHE DEU MUITA VISIBILIDADE E FEZ NÚMEROS
  • QUE NÃO SÃO NORMAIS PARA UM FILME AUTORAL''

Algo que é bastante intenso é o trabalho com a câmara. Movimenta-se bastante. Existe uma certa volúpia, seja nas panorâmicas, nos zooms que vão espreitar para ver melhor ou se recolhem num determinado espaço. Você prepara bastante a planificação ou reage instintivamente no momento de filmar?
Os dois. Tem muita coisa que já está no roteiro. Por exemplo, quando os construtores chegam ao edifício e há um plano de cima e a gente vê eles entrando, e a câmara entra e passa por Clara que está dormindo, e continua pelo chão como se fosse uma câmara de raio-x e surge o poster de Barry Lyndon [filme de Stanley Kubrick, de 1975] e termina na porta e ouve-se “plim-plom!”… tudo isso estava no roteiro. Mas tem outras situações em que você chega na locação [olha ao redor, em silêncio, como se estivesse a observar atentamente no local das filmagens] e aí aparece uma boa ideia. Porque não só dá prazer de executar como faz sentido para o filme.
 
Quais são as suas principais fontes de inspiração para fazer cinema?
Vem muito de experiência de vida, vem de filmes do passado. Por exemplo, quando há uma sequência complexa, como a que mostra o que acontece fora do apartamento à noite, me lembro sempre de Hitchcock. É muito difícil responder a essa pergunta… Mas, agora, que estou escrevendo o próximo filme, você fica sensível a muita coisa. Você entra numa livraria e, de repente, olha um livro e compra esse livro… Na época do Aquarius eu fui com O Som ao Redor a Harvard, para apresentar o filme nessa universidade de Boston. Quando fui numa livraria encontro um livro chamado The Future of Nostalgia, de Svetlana Boym, uma russa a viver nos Estados Unidos. Um amigo meu, José Luiz Passos, escritor, já me havia falado desse livro: um ensaio sobre ser russo após a queda do comunismo, quando houve uma diáspora de russos por todo o mundo, mas especialmente nos Estados Unidos, e de como a presença da União Soviética na cabeça dessas pessoas continuava, quase como um membro que tinha sido amputado e se continua a sentir. Nada nesse livro tinha a ver com Aquarius, mas ao mesmo tempo tinha tudo a ver com Aquarius! Isso aconteceu também na época que eu estava a escrever O Som ao Redor. Numa livraria de Amsterdão encontrei um livro chamado Defensible Space [Crime Prevention Through Urban Design, de Oscar Newman], que é uma análise sobre como as cidades americanas foram-se fechando. Isso é um livro dos anos [19]60, publicado em 71. E é exatamente o meu tema em O Som ao Redor. Os espaços privados foram-se protegendo do espaço público. É fantástico esse momento em que você está muito sensível pensando no roteiro e vêm elementos externos que te dão mais segurança sobre o que você está fazendo.
   
O seu desejo é de continuar a filmar no Recife?
O próximo filme é a 300 km do Recife. Primeira experiência no sertão. É um filme que se passa daqui a alguns anos. Não é um filme futurista, mas passa-se num futuro próximo.
 
Que consequências teve o protesto que ocorreu em Cannes na estreia e na recetividade do filme no Brasil?
Francamente, penso que Aquarius ganhou uma proporção de discussão cultural e política que lhe deu muita visibilidade e fez números que não são normais para um filme autoral de duas horas e meia, com uma personagem feminina de 65 anos. Fez quase 400 mil espectadores no Brasil, um número estranho para esse tipo de filme. Mais a imprensa maciça, a repercussão internacional gigante… A direita tentou organizar um boicote logo depois do protesto em Cannes, e o #boicoteaquarius foi dando uma energia muito grande, foi fazendo o filme crescer. Estreou em 100 salas, e ao todo eram 167 que queriam o filme.
 
E Sonia Braga continua a ser uma grande estrela no Brasil.
Sim, sim. Ela é um mito, e o isolamento dela da cultura brasileira ainda a fez maior. Ela não mora no Brasil, mora em Nova Iorque.
 
 [por Ricardo Gross | fotografias de Francisco Levita/CML-ACL]

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