Entrevista a Mão Morta

Entrevista a Mão Morta

Nos 25 anos de 'Mutantes S.21'

  • © João Brites
     © João Brites

Em 1992, os Mão Morta lançavam Mutantes S.21, um dos seus álbuns mais icónicos e que os deu a conhecer a um público mais vasto. 25 anos depois, a banda de Adolfo Luxúria Canibal celebra a data redonda com um concerto comemorativo na Culturgest.

Mutantes S.21 faz 25 anos. O que representa este disco para os Mão Morta?
Adolfo Luxúria Canibal: Este disco é um marco especial por vários e diferentes motivos. Desde logo porque foi o nosso primeiro disco cujo resultado final correspondeu exatamente ao que tínhamos idealizado. Depois, porque foi com este disco que conhecemos o José Fortes – na sua gravação e mistura – e o Nuno Tudela – na realização do videoclip de Budapeste –, companheiros de aventura por longos anos. Depois também, porque foi o primeiro disco em que assumimos mais descaradamente uma visão conceptual do álbum como um todo coerente. Depois ainda porque correspondeu, simultaneamente, ao nosso primeiro disco no novo formato CD e ao supostamente último disco em vinil, pretexto para uma despedida condigna com uma edição especial contendo um livreto em banda-desenhada a ilustrar os temas do álbum e a aproveitar as potencialidades gráficas do formato. Finalmente porque, com o êxito televisivo e radiofónico de Budapeste, selou a primeira fase mais underground dos Mão Morta e abriu as portas a um público mais vasto, potenciando a nossa sobrevivência enquanto banda.

Pela primeira vez, todos os temas do álbum serão tocados em concerto. Teremos um espetáculo nostálgico ou será uma viagem ao passado com uma nova roupagem?
ALC: Os temas de Mutantes S.21 fazem parte, na sua quase integralidade, do reportório ao vivo dos Mão Morta e têm sido regularmente tocados, sofrendo a natural evolução e sedimentação que o processo de repetição acarreta, sendo tocados portanto com estes “novos” arranjos que foram sendo agregados. Quanto aos outros três temas do álbum nunca antes tocados ao vivo, sofreram também, obviamente, uma adaptação na sua transposição do estúdio para o palco – não são assim, nenhum dos temas, qualquer viagem puramente nostálgica ao passado. Acresce que o álbum não é tocado de fio a pavio, antes intercalado com outros temas do repertório dos Mão Morta, uns antigos outros mais recentes, que conceptualmente se integram nos ambientes urbanos de Mutantes S.21, o que acaba por afastar, de todo, qualquer espírito nostálgico do espetáculo. Finalmente, num piscar de olho às bandas-desenhadas do livreto da edição especial original de Mutantes S.21, convidamos 15 ilustradores portugueses para ilustrarem cada um dos temas apresentados no espetáculo, sendo as suas ilustrações manipuladas ao vivo pelo artista digital João Martinho Moura com um programa criado expressamente para o efeito, num espetáculo tecnológico impossível de fazer ou mesmo imaginar em 1992…

Como surgiu essa ideia?
ALC: A ideia surgiu, exatamente, porque queríamos fugir a qualquer espírito nostálgico. Para nós, tocar apenas um disco – por muito importante ou marcante que tenha sido – para celebrar o seu aniversário, sem mais, não fazia qualquer sentido. Soava um bocado a atitude de reformado a lembrar “os velhos tempos”. Para pegarmos no velhinho Mutantes S.21 e celebrar-lhe os 25 anos de edição – como nos foi proposto – só fazia sentido se pudéssemos aventurar-nos em algo novo, algo que nunca tivesse sido feito, nem por nós nem por ninguém. Assim, as músicas do disco seriam apenas pretexto para um novo espetáculo e não “o” espetáculo. Depois, aproveitando o facto do vinil, contrariamente à sua morte anunciada, estar a ressurgir em força e relembrando que na edição original do Mutantes S.21 já tínhamos festejado o formato e as suas potencialidades gráficas, decidimos avançar por essa vertente visual na componente exploratória do espetáculo. Foi assim que decidimos convidar artistas plásticos para ilustrar os temas escolhidos e o João Martinho Moura para trabalhar digitalmente essas ilustrações ao vivo.

Em 1992, altura em que este disco saiu, o vinil dava o seu lugar aos cds. Como olham para o ressurgimento dos discos em vinil?
ALC: O ressurgimento é bombástico em termos percentuais, mas considerando o seu ponto de partida próximo do zero ainda não podemos falar de um formato sustentável, até porque as vendas de discos, todos os formatos incluídos, continuam globalmente em curva descendente. Mas só o facto da morte anunciada do vinil se ter revelado um prognóstico errado e do hype mediático que o seu ressurgimento suscitou ter levado as editores a apostarem novamente nas edições em vinil, quer de discos novos quer de discos de catálogo, é para nós maravilhoso. Gostamos de vinis, de discos grandes, do ritual de os pôr a tocar, de lhes sentir o cheiro, de lhes tocar…

Já disseram que gostam demasiado da música para fazerem dela profissão. Se dependessem financeiramente dela, os Mão Morta seriam um grupo completamente diferente do que é?
ALC: Os ses são sempre uma incógnita, mas cremos sinceramente que sim. O simples facto de dependermos financeiramente, para sobrevivermos fisicamente, do sucesso da nossa música, da sua venda, do seu acolhimento público, de ir ao encontro do gosto do mercado, iria coartar a nossa liberdade criativa, mesmo que apenas inconscientemente, para tentarmos que o nosso trabalho fosse bem recepcionado e nos permitisse pagar a casa, o carro, o dia-a-dia… O gozo de experimentarmos apenas porque nos apetecesse, sem preocupações de qualquer ordem, perdia-se – e com isso perdia-se a essência dos Mão Morta.

Em 32 anos de música há certamente momentos inesquecíveis, como a atuação em camisa de forças ou o famoso concerto do Rock Rendez-Vous em que o Adolfo se cortou intencionalmente. Há algum episódio que seja marcante?
ALC: Ui, há demasiado episódios e faits-divers inesquecíveis, dava para encher um serão de histórias, mas o que verdadeiramente importa é a música que os Mão Morta fazem e a sua potência avassaladora. Quando isso acontece, quando sentimos que fomos imparáveis, que criamos uma massa sonora tentacular que envolveu a sala, o público, toda a gente, e os transportou para fora do mundo e do tempo, então sim, ficamos satisfeitos, é disso que gostamos de falar, é isso que nos marca. E acontece muitas vezes…

Depois da digressão Mutantes S.21 o que se segue para os Mão Morta? Para quando o lançamento de um novo disco de originais?
ALC: Bem, temos disco novo em preparação. Inicialmente estava agendada a sua edição para o final deste ano, mas o ano acabou por ficar tão preenchido com concertos, com três alinhamentos e digressões a entrecruzarem-se (25 anos de Mutantes S.21, repertório base Mão Morta e colaboração com o Remix Ensemble), que se tornou impossível dedicarmo-nos à sua composição – ficou assim adiado para 2018. É a nossa tarefa mais imediata, que poderá ser conciliada ou não com um outro projeto que estamos a maturar, mas que ainda é segredo…

[por Filipa Santos]

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