Entrevista a Moonspell

Entrevista a Moonspell

'1755' é o novo álbum da banda

O fascínio pela História de Portugal, mais concretamente pelo Terramoto de 1755, levou os Moonspell a dedicarem um álbum inteiro ao evento que viria a mudar Lisboa para sempre. O disco, 1755, sai dia 3 de novembro e é apresentado no Lisboa ao Vivo, dias 30 e 31 deste mês. Será este um ponto de viragem na história da banda de referência do metal português?
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Como surgiu a ideia de criar um álbum sobre o Terramoto de 1755?
Fernando Ribeiro: Quando dei o Terramoto de 1755 na escola, achei logo que era muito mais do que um desastre natural, foi algo que teve bastante impacto na vida dos portugueses da época. Na altura fiz um trabalho, calhou-me a mim ser o Marquês de Pombal. Essa experiência escolar foi muito importante, foi um assunto que sempre me fascinou. Este ano, a nossa editora (Alma Mater) desafiou-nos a fazer um DVD (que está gravado e vai sair para o ano que vem), e pediram-nos para fazermos um EP. Apresentei o conceito e todos fomos unânimes em dizer que isto merecia um álbum com vida própria, uma coisa importante. Apesar de ser um álbum conceptual, histórico, tem muito a ver com a natureza dos Moonspell. Os músicos devem ser assim, entusiasmar-se pelas ideias musicais, conceptuais. Tínhamos um conceito interessante, muito pouco explorado, é um bocadinho um vazio que tentámos preencher.

Este é o vosso primeiro trabalho em português. Foi um desafio?
FR: Enquanto autor das letras uso um pequeno truque. Este álbum foi pensado em português, é sobre um evento nacional e eu queria usar expressões que não ficariam bem em inglês. Quando pensamos em português e traduzimos não funciona. Se pensarmos nas coisas no idioma que as vai servir é mais interessante. Assumi um personagem bastante aflito, que fala com os vivos, com os mortos, com Deus, com o Diabo… Este disco é um princípio, acho que podem surgir aqui uns novos Moonspell dedicados à História de Portugal, que é longa e que tem aspetos menos luminosos, mais dramáticos, mas que também são momentos de progresso, como aconteceu em Lisboa. O renascimento da cidade, tudo o que se fez, não ter deixado a Igreja monopolizar a tragédia, de se ter enterrado os mortos e tratado dos vivos, que não é só uma frase poética e simbólica, foi mesmo o que aconteceu.

Ricardo: Também gosto de pensar na atualidade da mensagem. Estamos a chegar a uma clivagem na forma como as sociedades funcionam, como as políticas são feitas, precisamos de algum corte epistemológico. O português facilitou-nos muito, porque em termos de sentimento temos uma interpretação das letras mais profunda, percebemos melhor os trocadilhos, que é algo extremamente estimulante. Musicalmente, o português tem um cariz rítmico através das sílabas, que é algo que conseguimos controlar melhor. A nossa língua consegue ser bela, mas consegue ser bruta também. O dramatismo e brutalidade de um evento desta natureza casam muito bem com a língua portuguesa.

De certa forma, o sofrimento e agonia relacionados com o Terramoto têm tudo a ver com o género de música que fazem. Concordam?
FR: As pessoas mencionam isso, mas o nosso estilo de música pauta-se pela ambiguidade. Não considero que seja um disco só sobre a morte ou um desastre natural. Há uma parte muito importante das letras que fala da atitude, do renascimento, da fibra, da Inquisição que queimava os hegeres… Toda esta revolução nasceu de uma mortandade que não foi bem calculada porque na altura era difícil, mas que conduziu a uma reação. Em Portugal é coisa que não vemos acontecer muitas vezes. Musicalmente teria que ser um disco pesado porque estamos a falar de um terramoto. Também quisemos criar uma atmosfera sacro-profana com a utilização dos coros e da parte percussiva, porque Lisboa no final do séc. XVIII era um bocadinho assim. Acho que é um dos nossos melhores álbuns no sentido de veincular uma mensagem e o uso do português foi muito importante. Parece que tudo está bastante compacto e que não há desvios do que o álbum quer dizer. É uma viagem ao dia 1 de novembro de 1755, dividida entre momentos de muita tensão e alguns momentos mais suaves, que eram aqueles em que a terra não tremia e as pessoas pensavam que já tinha acabado o pesadelo.

Ao ouvir o álbum é impossível não tentar visualizar o que se passou. Também era essa a vossa ideia, criar uma espécie de banda sonora?
FR: Essa era toda a ideia. Tentamos sempre fazer isso nos nossos discos, é algo essencial na nossa música. É uma oportunidade para transportarmos as pessoas para um acontecimento histórico. Quisemos apostar na experiência que o ouvinte tem. Posso ouvir música como entretenimento, mas aquela que me fica é a que me transporta para algum lado, que me faz aprender alguma coisa nova. Quem quiser ouvir este disco tem que ir procurar. Criámos aqui uma pequena armadilha: não dá para ouvir este disco sem uma contextualização.

Um dos temas conta com a participação do Paulo Bragança. Como foi trabalhar com um músico de um universo tão diferente do vosso?
FR: Tínhamos uma música, In Tremor Dei, e comentei com a banda que ali ficava bem a voz do Paulo Bragança. O problema é que ninguém sabia dele, estava incontactável, o que também contribuiu para esta aura e para o desafio que era tê-lo a cantar. Para resumir: ele escreveu-nos, fomos tocar a Dublin, onde ele esteve vários anos, ele não chegou a ir ao nosso concerto mas lá conseguimos estabelecer contacto e ele teve todo o gosto em participar. Teceu-nos os maiores elogios, conhecia bem o nosso trabalho. Com a participação do Paulo, queríamos tudo aquilo que hoje em dia o fado dá cada vez menos: melancolia, dor, aquele sofrimento na voz que é pungente e ao mesmo tempo angélico. Era um registo que tinha tudo a ver. O sucesso mede-se por muitas coisas, mas acho que foi um grande sucesso para nós termos o Paulo Bragança a cantar no nosso disco.  
 

  • "Tem de ser um espetáculo teatral sem deixar
  • de ser um concerto de Rock’n’Roll."
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São uma das bandas portuguesas mais internacionais. O facto de este disco ser cantado em português pode ser uma barreira?
Mike: Muitos dos nossos fãs já estão habituados ao português, uma das nossas músicais mais conhecidas é o Alma Mater. Também há muitos emigrantes nos nossos concertos, que ficam muito orgulhosos quando podem cantar na sua língua. É um grande orgulho e sei que os fãs vão ficar entusiasmados com este álbum.

FR: Temos tido muito boas reações de pessoas lá fora que já ouviram o álbum e a língua não tem sido um problema, pelo contrário, até funciona como chamariz.

Ricardo: Também temos alguma preocupação em utilizar palavras que sejam, de alguma forma, internacionais. Claro que a questão da língua me preocupa, mas estou mais curioso do que preocupado.

O que estão a preparar para os concertos de dias 30 e 31 de outubro?
FR: Quando penso no álbum vem-me logo à cabeça a palavra ‘teatro’. Tem de ser um espetáculo teatral sem deixar de ser um concerto de Rock’n’Roll. Tem que passar esse dramatismo, por isso optámos por ir para uma sala mais pequena e intimista. Estamos a pensar numa solução cénica para isso. Depois de levarmos este disco em tourneé, queremos tocá-lo novamente em Lisboa, aí já com orquestra e com coro, no Terreiro do Paço, na zona do impacto. Era um grande desafio para nós, um grande teste para ver quem é que aparecia e quem é que ainda tem aquele medo e superstição acerca dos terramotos em Lisboa.

Já é tradição vossa atuar no Halloween. Têm uma ligação especial a esta data?
FR: É uma data simbólica, de celebração do medo, de mudança de estação, tem todas essas raízes pagãs. Hoje em dia é um feriado popular e comercial. No contexto de uma banda rock e metal é uma noite perfeita para se tocar.

Ricardo: E é também a data de aniversário do terramoto, dia 1 de novembro, dia de Todos-os-Santos.

Têm acompanhado o que se faz no heavy-metal em Portugal?
FR: Sempre tivémos uma relação de amor/ódio com o heavy-metal português, mas é um estilo que queremos que cresça, e conseguimos ter um percurso que nos permitiu libertar alguns preconceitos que algumas bandas ainda têm. Têm aparecido bandas muito curiosas e que se têm destacado: os Rasgo, os Cruz de Ferro, os Sinistro (que tocaram connosco no Reverence Valada e que estão a dar-se muito bem internacionalmente) e os Process of Guilt, na mesma onda. Temos concertos, temos festivais, mas, para ser muito sincero, acho que ainda nos falta um pouco de atitude e de respeito. Nesse sentido, acho que os Moonspell estão a abrir algumas portas. Queremos que os fãs de heavy-metal português ouçam mais metal português de qualidade. Acho que estamos destinados, quando a banda terminar ou tivermos mais tempo, a ser os representantes, os editores, os distribuidores do heavy-metal português.

Ricardo: Aqui há dez anos começaram a aparecer uma série de bandas, quer no metal quer noutros genéros, com bons músicos e boa atitude em palco, mas cujas músicas são muito parecidas com o que se faz lá fora. Agora começam a aparecer bandas que têm personalidade e que transportam o ser português para o heavy-metal. Estão a aparecer bandas que artisticamente têm mais pertinência, não são cópias do que se faz lá fora.

[por Filipa Santos | fotografias de Humberto Mouco/CML-ACL]

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