Entrevista a Ricardo Neves-Neves

Entrevista a Ricardo Neves-Neves

A propósito de 'Encontrar o Sol'

  • O autor e encenador decidiu sair da "zona de conforto"...
     O autor e encenador decidiu sair da "zona de conforto"...
  • ... e dirigir uma peça do norte-americano Edward Albee
     ... e dirigir uma peça do norte-americano Edward Albee

Basta ouvir o nome de Ricardo Neves-Neves para, de imediato, o ligarmos à autoria de algumas das peças mais originais e divertidas que surgiram no teatro português nos últimos anos. Musicalidade, inverosimilhança, absurdo ou “ridículo” (adjetivo que, reconhece, lhe é particularmente caro) caracterizam textos como O Regresso de Natasha, Mary Poppins - a mulher que salvou o mundo ou A Batalha de Não Sei Quê. Porém, a partir de 17 de fevereiro, vamos encontrar Neves-Neves, no Teatro São Luiz, a dirigir Encontrar o Sol, uma peça de Edward Albee, autor popularizado por Quem tem medo de Virginia Woolf?
 
Este texto data da década de 1980 e é praticamente desconhecido do público português. O que é que te interessou na peça?
Pelo que pesquisámos no Teatro do Eléctrico [companhia que Neves-Neves fundou em 2008] não há, de facto, registo algum de ter sido representada em Portugal. Mas o que me interessou não foi isso… Encontrar o Sol é uma das várias peças de Albee que decorre na praia, mas é a menos complexa e a de registo dramático menos intenso. Sendo uma peça curta, achei particularmente interessante o engenho com que o autor a constrói.
 
Podes descortinar esse “engenho”?
O facto de o cenário ser a praia, local onde vamos para não fazer absolutamente nada – embora estando comprovada a forma como se pode tornar uma experiência violenta –, tem uma relação direta com esse engenho que Albee cria. Ao longo de uma hora parece não se passar nada em torno das oito personagens para além dos seus pequenos dramas domésticos, até que, nos minutos finais, tudo acontece. E isso remete-nos a pensar o que virá a seguir, como se estivéssemos a erigir uma torre com peças de dominó que, ao fim de um tempo, começa a inclinar sem que alguma vez venhamos a saber se cai. 
 
Estamos, então, perante acontecimentos que quebram essa letargia dos veraneantes…
Sem nunca sabermos que impactos terão. Há uma morte, uma tentativa de suicídio, um adolescente que desaparece… mas o que se instala é a dúvida. Em suma, diria que é uma peça com ação e drama a traço leve, muito pontuada pelo humor, como se fosse um quadro impressionista onde muito se esconde.
 
Que afinidades podemos encontrar com o teu teatro enquanto autor, mas também enquanto encenador de textos de outros dramaturgos, como Martin Crimp e Copi, que dirigiste recentemente?
Espero não estar a embicar para o sítio do costume, mas reconheço neste Albee, por ter cenas muito curtas, uma musicalidade que remete para breves refrões que se sobrepõem, à semelhança desses autores que trabalhei e, com as devidas distâncias, dos meus próprios textos. Por outro lado, em termos visuais, é uma composição coreografada que me permite estabelecer ritmos e gerar uma certa polifonia que muito me agrada. Depois, há um certo humor negro que me leva a achar que o Albee estava especialmente viperino na altura em que escreveu a peça. E a esse humor, eu chamo um chuchu [risos]. Apesar disso, é um texto distante de tudo o que tenho feito e, dia sim dia não, arrependo-me de o estar a fazer…
 
Porquê?
Porque está a correr muito bem, independentemente de me sentir fora da zona de conforto e tudo parecer novo, nomeadamente na maneira como estou a dirigir e a conversar com os atores. Esse arrependimento passa por estar a parecer fácil, e isso assusta-me. Por outro lado, inquieta-me ainda não perceber porque é que não sinto o mesmo a ler a peça e a vê-la nos ensaios. Logo, esse parece ser, para já, o maior desafio a superar até à estreia.
 

  • "Há um certo humor negro que me leva a crer
  • que Albee estava especialmente viperino
  • na altura em que escreveu a peça."
  • RICARDO NEVES-NEVES

Para quem está familiarizado com a obra de Albee, Encontrar o Sol comporta características não muito comuns à obra do autor…
Sim, porque não são só as cenas curtas ou a falta daquelas personagens de carregado dramatismo. Daquilo que li e vi do Albee, e assumo que pode haver quem não concorde com esta minha visão, parece-me que a peça não é só realismo. Há aqui uma certa loucura, um enorme absurdo a pautar uma dose de realismo forte. Por vezes, lembra-me [Harold] Pinter. E, se há algo que pretendo trabalhar, mas com muita subtileza, é precisamente aquilo que no texto considero "absurdo", na maneira como eu o entendo.
 
Houve quem considerasse Albee um autor muito burguês, muito centrado em personagens fechadas em torres de marfim, enclausurados no seu próprio tédio…
Não há dúvida que as famílias que protagonizam a peça pertencem a uma elite, têm dinheiro, têm status… Mas não acho que Encontrar o Sol seja um texto desprovido de crítica, e muito menos considero uma peça de um burguês sobre burgueses para burgueses. Confesso que não me interessa muito fazer um exercício crítico desse tipo, porque entendo não ser esse o meu papel.
 
E poderá considerar-se uma peça atual?
Não me preocupa fazer paralelos temporais. Interessa-me, por exemplo, em termos de escrita sublinhar que esta peça está 30 anos à frente do tempo: pela estrutura, pelas cenas curtas e pelas suas dinâmicas. Tem graça que, quando falo sobre isto, pareço estar a ser superficial mas, na verdade, não tenho essa preocupação.
 
Um dos epítetos com que Albee foi conotado, sempre rejeitando, foi o de “autor gay”. Faz algum sentido?
Não creio. A temática está presente na obra, fez parte da vida dele e, importa lembrar que, escrever sobre isso há 30 anos não era, de todo, como escrever hoje, quando há centenas e centenas de dramaturgos a abordar a homossexualidade, e com uma estética gay ou queer. Nesta peça, o tema surge numa primeira camada, mas não é essa a temática pelo que, para nós, no trabalho de mesa e nos ensaios a encaramos como meras relações entre pessoas.
 
Depois de Albee, vais fazer Karl Valentin no Teatro da Trindade. Para quando o regresso aos originais?
Na segunda metade do ano tenciono ter prontos três textos: um, para a infância, que irá estrear na Culturgest; um outro, que será inspirado num texto de Agatha Christie, coproduzido com a Casa Conveniente, encenado pela Mónica Garnel e com estreia marcada para a Sala Estúdio do São Luiz; por fim, uma versão longa de O Solene Resgate ou A Reconquista de Olivença onde pretendo ter, ao vivo, cem pessoas a cantar e a recitar e uma orquestra clássica – um enorme desafio que, ao que tudo indica, poderá ser, em termos de produção, viável.

[por Frederico Bernardino | fotografias de Humberto Mouco - CML/ACL]

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Teatro › Espetáculos
17 a 25 fev/17
Maiores 14 anos
Rua António Maria Cardoso, 38
1200-027 Lisboa

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