Entrevista a Rita Redshoes

Entrevista a Rita Redshoes

'Her' é o seu mais recente trabalho

Os sapatos vermelhos de Rita voltam a fazer magia. Com uma carreira de sucesso na música e um livro na bagagem, a cantora fala-nos do mais recente projeto, Her, onde canta, pela primeira vez, três temas em português. Será num ambiente especial que irá apresentar o novo disco. O concerto acontece no Tivoli, dia 23 deste mês.

Neste disco, trabalhaste com músicos muito conceituados que já tinham gravado com os REM, Depeche Mode, Pet Shob Boys ou Tindersticks. Isso intimidou-te?
Quando soube quem eram os músicos que iam gravar comigo fiquei um bocado assustada. Tinha algum receio que, por serem de uma geração mais velha e terem outra experiência, fossem paternalistas em relação à minha música. Mas não foi isso que aconteceu, encontrei pessoas muito disponíveis e preocupadas em respeitar as minhas ideias. Às tantas, deixei de olhar para as pessoas tendo em conta o seu currículo. Isso diluiu-se logo nos primeiros minutos.

O título do álbum, Her, remete imediatamente para o universo feminino. Enquanto artista mulher, sentes que ainda vivemos num mundo de homens?
No universo da música, a maior parte das pessoas com quem me tenho cruzado, sejam músicos ou técnicos, são homens. Toco desde os 14 anos e só comecei a sentir essa diferenciação bastante mais tarde. Senti isso de forma negativa nalgumas situações, o que foi frustrante porque nunca tinha sentido isso antes. Nunca senti da parte do meu pai ou do meu irmão (com quem trabalhei muitas vezes) essa diferenciação por ser menina. A exigência e as expectativas eram iguais. Para mim foi uma surpresa, quando cheguei ao mundo profissional e me deparei com isso. Odeio que me tratem de forma diferente por ser mulher, ou que me passem um atestado de ignorância.

Este álbum tem três canções em português. Foi uma decisão difícil?
Não diria que foi difícil, mas sim um desafio. Já há alguns anos que tinha vontade de gravar canções em português. Aliás, já tinha sentido essa vontade no disco anterior, mas não me tinham surgido as canções que faziam sentido. Curiosamente, para este disco a primeira canção que me apareceu foi em português, Vestido (em co-autoria com o Pedro da Silva Martins). A temática tinha tudo a ver com as outras letras e pensei: “porque não fazer isto agora?”.

Life is Huge (primeiro single de Her) marca a estreia do cineasta Marco Martins na realização de videoclipes. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com ele?
Já tinha colaborado com o Marco antes. Ele desafiou-me a mim e ao Paulo Furtado para musicarmos um vídeo que tinha gravado em Moçambique, de uma ONG (The Big Hand), com quem agora colaboro. Nessa altura criou-se uma ligação bonita, fiquei logo a gostar do Marco enquanto ser humano. Quando fiz este disco, pensei logo que seria a pessoa certa para me fazer um videoclip. Sentia que precisava de uma visão de alguém em quem confiasse por completo. Mandei-lhe um sms, ele estava em Veneza. Disse-me que tinha acabado de ver o documentário sobre o Nick Cave (o meu produtor também produziu vários álbuns do Nick Cave), e ainda por cima tinha sido pai de uma menina há pouco tempo e estava muito dentro do universo feminino. Disse-me logo que sim, que queria fazer o meu vídeo. No fundo, aquelas imagens espelham muito bem todo o conceito do disco.

Ainda no universo das canções em português, colaboraste com os GNR em Dançar Sós. Como correu essa experiência?
O convite para essa canção surgiu na sequência de um convite que me tinham feito um ano antes para cantar com eles nos coliseus. Uma das músicas que escolhi para cantar nesses concertos foi precisamente o Dançar Sós. Tudo encaixou bem logo no primeiro ensaio, houve uma grande empatia. Desde pequenina que ouvia GNR, por isso para mim foi uma grande excitação [risos]. Passados uns meses, eles queriam lançar mais um single do Caixa Negra e convidaram-me para gravar a canção. Fiquei muito contente. 

Deste dois concertos para crianças no São Luiz e pasticipaste no Festival Play (festival de cinema para crianças), onde musicaste ao vivo o filme Balão Vermelho (1956). O universo das crianças fascina-te?
Acho que na génese das minhas músicas há algo de muito infantil. Para mim a linguagem infantil é muito simples. Quando falo com crianças não sinto nenhuma barreira. São o público mais genuíno que existe. De todas as minhas experiências a tocar ao vivo, foi só com crianças que tive uma invasão de palco. Choram, dizem que se querem ir embora, ou no fim vêm dar-me abraços, que é algo que não acontece no mundo dos adultos. Sempre que me aparecem projetos ligados ao universo das crianças eu aceito logo porque dá-me muito prazer. O retorno, seja bom ou mau, é sempre algo de muito genuíno e a arte vive disso.

Há dois anos estreaste-te na escrita, com Sonhos de uma Rapariga quase Normal. Como correu essa experiência?
Já tinha o hábito de escrever os meus sonhos num caderno. Um dia, em conversa com o Manuel Foseca (Guerra e Paz), senti-me com alguma lata para lhe pedir uma opinião sobre o que eu escrevia. Duas semanas depois ligou-me e disse que tínhamos que fazer alguma coisa acerca dos sonhos. Nunca tinha sonhado em publicar o que quer que fosse, queria apenas uma opinião mais crítica. Temos muita tendência para engavetar as pessoas: se é músico, é apenas músico. Às vezes o preconceito até vem de quem é da área. Sou completamente contra isso. Acho que a criatividade pode surgir em várias formas. Sempre que tenho oportunidade de fazer algo que me dê gozo, não vou dizer que não. Não está em causa – até porque não é essa a minha pretensão – ser escritora. Foi um desafio que me diverti muito a fazer.

A compra do livro dava acesso ao EP Dreaming: a Soundtrack for your Sleep. O sono é um elemento que te fascina?
Sem dúvida. Sonhamos todas as noites, embora muitas vezes não nos lembremos. Eu lembro-me sempre, e aponto tudo. Para mim é um mundo muito simbólico. Há quem diga que os sonhos não têm utilidade nenhuma. Eu acho que qualquer função orgânica que tenhamos tem de ter uma finalidade. Ainda não se percebeu qual a função dos sonhos, mas alguma há-de ter. Ao longo da minha vida, tive questões de luto, coisas que me custavam ultrapassar, e tinha sonhos tão fortes e tão simbólicos que me ajudaram a perceber coisas que acordada não conseguia. Para mim é um mundo fascinante. Leio muito acerca disso, acho que é uma função quase vital para o ser humano.

Dia 23 de fevereiro, apresentas este disco no Tivoli, num ambiente cinematográfico. Podes levantar a ponta do véu sobre este concerto?
Todo o disco foi baseado nesse propósito, nessa linguagem cinematográfica. Tem cordas do início ao fim, o que dá logo uma sonoridade muito específica. A formação é de piano e guitarra, um quarteto de cordas, baixo e bateria. Tem sido muito curioso e muito interessante para mim trazer para este universo as músicas dos outros discos, dando-lhes uma nova roupagem. Não é exatamente um concerto de entertenimento, não é isso que eu faço. É importante esta ideia que acho que às vezes se perde, que é o prazer de ouvir música pela música. Não é um espetáculo de artifícios, é um espetáculo onde a luz tem esse lado cinematográfico, há ambientes muito específicos, quase como fotografias. No fundo, quero dar ao público, tendo ele essa disponibilidade, o prazer de ouvir música.

[por Filipa Santos | fotografias de Francisco Levita - CML/ACL]

Relacionado

Rita Redshoes

Her

Música › Espetáculos
23 fev/17
Avenida da Liberdade, 182-188
1250-146 Lisboa

Formulário de procura

OP'17