Entrevista a Sean Riley & The Slowriders

Entrevista a Sean Riley & The Slowriders

'Farewell' ao vivo

  • © Francisco Levita
     © Francisco Levita
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     © Francisco Levita

Afonso Rodrigues e Filipe Costa são metade dos Sean Riley & The Slowriders. A dias de encerrarem a tour de celebração de dez anos da banda com data dupla (15 e 16 de dezembro) na Galeria Zé dos Bois, encontrámo-nos com os dois músicos no Café Literário Chiado para falar sobre o primeiro disco, Farewell (2007), sobre uma década de música e sobre o futuro. Com a celebração veio uma reedição do disco, que se encontrava esgotado, bem como o lançamento de uma edição em vinil. A tournée que agora termina e que andou por todo o país encerra com chave de ouro num espaço muito especial para a banda. O concerto de dia 15 encontra-se esgotado.
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Celebram uma década de banda, com quatro álbuns na bagagem. Se pudessem voltar trás, mudariam alguma coisa neste disco (Farewell) em particular?
Afonso Rodrigues: Podemos ver isto de duas perspetivas: se fizéssemos o disco hoje em dia, provavelmente sim, porque somos outras pessoas e estamos noutras circunstâncias. Agora olhando para trás, não vejo nenhuma necessidade de mudar nada. Acho que foi feito da forma correta e está em perfeita harmonia. Tanto mais que, quando decidimos fazer esta tournée, mudámos muito pouco os arranjos das canções. Estamos a tocar as músicas o mais próximo e fiel possível ao original e a abordagem aos instrumentos também, apesar de na altura sermos um trio e agora sermos um quarteto. Acho que isso é um espelho claro de que não há muita coisa que quiséssemos mudar.

Os números redondos são sempre uma boa altura para fazer um balanço?
Filipe Costa: Sim, o ponto de partida foi precisamente sabermos que o disco ia fazer dez anos. Temos um carinho muito grande por este disco, marca uma época e o início de uma história que é muito importante para nós. Tivémos vontade de celebrar essa data e esse disco. Surgiram logo ideias muito objetivas: percebemos que o disco estava esgotado e que poderia ser interessante reeditá-lo, voltar a torná-lo disponível, e conversámos com a Valentim de Carvalho (editora do disco) que achou a ideia ótima logo à partida. Depois percebemos que na altura não tínhamos feito uma edição em vinil, que é algo muito importante para nós, quer na música que fazemos, quer na que ouvimos, o que também foi muito bem acolhido pela editora. Depois, claro que tínhamos que levar este disco para a estrada para assinalar a festa e a data. Inicialmente pensámos em duas ou três datas em espaços que foram importantes para nós, mas começaram a aparecer outras propostas e pessoas interessadas em que fossemos às suas cidades tocar e as duas ou três datas multiplicaram-se por mais umas quantas…

Não deixa de ser curioso que o vosso primeiro álbum se chame Farewell. Houve algum motivo para isso?
AR: Acho que foi uma decisão inconsciente. Tinha perdido o meu pai uns anos antes e já não tenho bem ideia de qual a justificação que dei a mim mesmo para esse título na altura, mas agora a esta distância percebo que foi um adeus. Penso que essa foi a razão pela qual o nosso primeiro disco, que se devia chamar “Olá”, se chama “Adeus”.

Os mais desatentos acham que o vosso projeto é americano ou inglês, e ficam muito espantados quando descobrem que a banda é portuguesa. Acham que isso está relacionado com esta mania tão portuguesa de só valorizarmos o que vem de fora?
AR: Acho que felizmente há cada vez menos esse estigma… Houve durante muito tempo, e estamos a falar de um disco que saiu há dez anos e nessa altura esse estigma estava muito presente. Na altura, se ouvias um projeto com qualidade assumias imediatamente que era estrangeiro. Houve alguns casos de bandas portuguesas que cantavam em inglês muito 'aportuguesado', tanto que tornava imediata essa identificação da portugalidade das bandas. Acho que foi um estigma que se foi construindo um pouco em função disso. Felizmente, não só as bandas portuguesas que cantam em inglês hoje em dia têm um nível bastante interessante, como também cada vez mais há coisas feitas com qualidade.

Gravar temas em português está fora dos vossos planos? É algo que não cabe no universo de Sean Riley & The Slowriders?
AR: Dentro do universo da banda acho que não. Eventualmente podemos fazer música cantada em português, é um desafio que eu já analisei muitas vezes e até já trabalhei nele algumas vezes ao longo dos anos, e um dia gostava de fazer, mas dificilmente será dentro do universo de Sean Riley & The Slowriders. Se a banda tivesse que abordar alguma coisa em português, mais facilmente seria em português do Brasil [risos].

E em relação a colaborações, nunca tiveram vontade de ter alguém a tocar/cantar com vocês num disco?
FC: Já aconteceu em concertos, gostamos de convidar pessoas que sejam próximas de nós, e que tenham algum tipo de identificação com a nossa música. Em discos já tivémos algumas colaborações, não de ninguém a cantar, mas violinistas ou guitarristas. A cantar isso nunca se colocou, também não sei dizer muito bem porquê.

AR: Na altura do segundo disco houve algumas conversas acerca disso, mas as colaborações que ambicionávamos estavam um bocadinho fora de alcance. Na altura, em Portugal não havia muita gente com quem tivesse interesse em trabalhar, ou pelo menos não naquele universo. Não sei, nunca fez muito sentido. Mas como o Filipe dizia, tivémos várias colaborações ao vivo, Erica Buettner, Mazgani… Eventualmente, no futuro, é algo que ainda podemos vir a fazer. Hoje em dia, no panorama nacional, há mais pessoas com quem me identifico e com quem facilmente faria uma coisa do género.

Para comemorar os 10 de anos de Farewell, será lançada uma edição-estreia em vinil. Como olham para o regresso do vinil? São consumidores de vinil?
FC: Sim. Pessoalmente sempre gostei do objeto em si e sempre foi importante para nós, sempre que lançávamos um disco, lançá-lo também em vinil, mesmo alguns singles. Na música que ouço e que compro é um tipo de objeto que gosto de ter. É algo importante para mim, e indissociável de boa música.

AR: O CD está em vias de extinção, vai desaparecer em breve. As pessoas hoje em dia consomem música em formato digital e para nós, que sempre fomos comprando vinis, não houve grande alteração. Há muita gente que se calhar comprava vinil, depois passou a comprar CD, e agora só ouve música em formato digital, e quando quer o formato físico acaba por recorrer ao vinil. É um formato mais icónico, as capas são maiores, as edições são mais cuidadas, nuca vai cair em desuso. É um pouco como a imprensa impressa, que está a desaparecer, sendo substituída pelas versões digitais. O vinil é um pouco como os livros. Nunca vão desaparecer porque não há kindle no mundo que substituta a experiência de ler um livro. O vinil é aquele formato que vai existir para sempre porque é o formato onde a música se consagrou na sua forma mais bela.

Esta tour, que agora termina em Lisboa, pretende ser também uma homenagem (ao companheiro desaparecido o ano passado, Bruno Simões)?
AR: É uma coincidência fazermos esta tournée nesta altura, após o que aconteceu. O evento que sofremos podia ter sido daqui a um ano, ou ter sido há três anos. Nesse aspeto é um bocadinho coincidência. Não posso dizer que não estamos a fazer isto perfeitamente conscientes do significado das palavras e das datas. O Bruno gravou o Farewell connosco, e isso é algo que nos dá muita vontade de partir para esta tournée de celebração, porque de alguma forma estamos a celebrar as coisas boas que fizemos com ele.

Dias 15 e 16 de dezembro, regressam à ZDB. Que relação têm com esta sala?
FC: Foi uma das salas por onde a tour do Farewell passou quando saiu. Demos um concerto em 2008, salvo erro, e foi um dos primeiros sítios em Lisboa onde o disco foi apresentado ao vivo. É um espaço que, enquanto consumidores de música, nos é muito familiar e que respeitamos muito. Tem tido um papel muito válido e muito importante na vida cultural de Lisboa a resistir a modas, tendências e pressões de todos os tipos. Quando pensámos em Lisboa foi o primeiro sítio que nos ocorreu. Claro que há outros sítios especiais em Lisboa, todos eles com a sua história, mas a ZDB é o sítio que nos fazia mais sentido escolher para encerrar esta tour, por ter uma vibe muito particular e também uma dimensão muito particular, o que torna a experiência ainda mais próxima ao nível da partilha entre o que acontece no palco e quem está a assistir. Para já, vão ser o dobro das pessoas que estávamos à espera e não podíamos deixar de fazer a segunda data porque a primeira esgotou a mais de um mês de distância.

Têm outros projetos musicais, para além de não viverem todos na mesma cidade. Como se consegue conciliar tudo?
AR: Com esforço e dedicação. Embora as distâncias hoje sejam cada vez mais curtas, o dia só tem 24 horas. A nossa vida foi tomando outras direções, temos famílias, filhos... Por tudo isto às vezes é um bocadinho complicado, mas acho que é o clássico caso de 'correr por gosto não cansa' (cansa de facto), mas não custa. Na prática só o fazemos porque nos dá muito prazer e por isso corremos atrás desse prazer. Mas sim, exige muito esforço da nossa parte.

O que é que o futuro vos reserva? 
FC: Por agora estamos 100% focados nesta tour e nesta festa de celebração. A curto prazo, há coisas que vão acontecer para o ano, e que passam por continuar a tour do quarto disco (Sean Riley & The Slowriders), que saiu há um ano e que acabou por ser interrompida para que nos focássemos nesta tour dos dez anos. Há datas que já estão marcadas para o próximo ano e esse disco tem ainda um caminho para fazer. Para além disso, não há nada que nos passe pela cabeça enquanto objetivo ou estratégia. Vamos deixar que as coisas aconteçam como sempre fizémos.

[por Filipa Santos | fotografias de Joana Linda]

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