Entrevista a Yuri da Cunha

Entrevista a Yuri da Cunha

No dia 28 de julho, o cantor angolano Yuri da Cunha apresenta-se no palco do Teatro Tivoli BBVA. Dois anos depois de ter esgotado o Coliseu dois dias seguidos, o músico revisita os seus maiores sucessos num espetáculo mais intimista.
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O teu pai fazia parte do grupo Os Kwanzas, imagino que tenha sido uma das tuas referências musicais. Em que altura percebeste que querias seguir as pisadas dele?
Foi, sem dúvida. Não me lembro de muita coisa, era muito pequeno, tenho algumas memórias de determinados concertos, de me chamarem para cantar no palco. Não me lembro exatamente de tomar essa decisão, acho que sempre quis seguir esse caminho, nunca tive outra opção.

As tuas referências musicais são angolanas. É verdade que o teu pai não te deixava ouvir música internacional?
Ele não gostava, é verdade. O meu pai queria que eu tivesse as minhas raízes, que ganhasse uma identidade musical da nossa terra.

Em 1997 vieste morar para Lisboa. Como foi a tua adaptação?
No início foi complicado porque não tinha casa cá, não conhecia ninguém… Mas depois de conhecer as pessoas, de adaptar-me, tudo foi mais fácil, até porque culturalmente há uma grande proximidade. Angola tem mais a ver com Portugal do que com a África do Sul.

Ficou-te desses tempos alguma referência musical portuguesa?
O Rui Veloso.

Ao longo dos teus 20 anos de carreira recebeste inúmeros prémios. Que valor tem isso para ti?
Acaba por ser a cereja no topo do bolo. É sempre bom receber um prémio, mas não é o mais importante para mim. O verdadeiro prémio é que as pessoas se sintam felizes a ouvir a minha música, tudo o resto é um complemento.

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  • "A música angolana tem uma identidade,
  • uma matriz que não tem sido respeitada.
  • Não tem sido tocada nem promovida
  • como se esperaria."
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Em 2009/10 fizeste uma participação na tour do Eros Ramazotti. Como foi essa experiência?
Foi das maiores experiências em termos de concertos. Aprendi muita coisa nova, como a ter um comportamento mais profissional. Toda essa aprendizagem levei comigo para Angola e passei-a a outros músicos, e também a levo comigo para a estrada. Acho que existem poucos verdadeiros profissionais da música. Não falo do profissionalismo que se obtém com um diploma, mas sim de fazer bem as coisas. Acho que há poucos profissionais assim, mas os poucos que existem têm feito bem as coisas por forma a dar continuidade à música angolana.

Como olhas para a música angolana que se faz hoje em dia, está de boa saúde?
A música angolana não, a música feita por angolanos sim. A música angolana tem uma identidade, uma matriz que não tem sido respeitada. Não tem sido tocada nem promovida como se esperaria. Houve um tempo em que a música angolana era muito boa, num passado recente, agora há um estilo que está a crescer muito, que as pessoas chamam de kizomba, mas que na verdade é zouk.

Achas que é uma moda?
Pode ser algo que veio para ficar, agora o importante é como as pessoas vão trabalhar daqui para a frente. Tem que se começar a fazer um upgrade do que já se fez para a música crescer, no sentido melódico e até percurssivo. Há uma série de coisas que se podem melhorar. Acredito que os mais novos do que eu têm muito bom gosto e vão fazer coisas boas.

Que música tens ouvido?
Tenho ouvido muito Bruno Mars, The Weekend… Em criança, embora o meu pai não gostasse que eu ouvisse, era louco pelo Michael Jackson. Tanto o Bruno Mars como o The Weekend vão beber muito ao Michael Jackson, é uma referência incontornável. Talvez seja por isso que sejam neste momento uma referência para mim.

Sempre disseste que não te metias em política. Porquê?
Digo sempre que a vida das pessoas mexe com a política, todos os dias. A minha política é social, ir de encontro às coisas importantes. Qualquer pessoa quer ter luz, água, televisão, essas coisas básicas. Quem não tem vai reclamar, nisso sou um cidadão igual aos outros. Agora, a política no seu lado mais profundo é algo que não sei fazer, prefiro só assistir. Tudo o que posso fazer socialmente, ajudar o próximo ou arranjar soluções para algum problema, eu faço. Agora política pura e dura não é comigo.

Há dois anos esgotaste o Coliseu dois dias seguidos. Ficaste surpreendido ou isso trouxe-te mais responsabilidade?
Acho que me dá mais responsabilidade. Fiz o primeiro Coliseu antes dessas febres todas musicais, quando não se acreditava nada, e duas semanas antes da data já tinha a sala esgotada. Abrimos uma segunda data e pensei que era capaz de encher outro Coliseu. Já tinha feito o Meo Arena com mais de 10 mil pessoas. Podia fazer um Coliseu com 4 mil pessoas por dia e assim foi. Mesmo sem grandes novidades para apresentar, foi bom saber que as pessoas queriam ouvir-me. Foi um sonho realizado.

Este mês dás um concerto no Tivoli. O que podes adiantar sobre este concerto?
A minha vontade é fazer um grande concerto. A primeira vez que entrei no Tivoli foi num espetáculo do Don Kikas e adorei a sala, só achei que era pequena. Mas é tão linda aquela sala, dá para fazer um espetáculo mais intimista e é esse ambiente que pretendo. Estou muito ansioso por fazer este concerto. Estou habituado a espaços maiores, mas com esta sala posso estar mais diretamente ligado às pessoas e dar-lhes aquilo que esperam e mais alguma coisa. Há a intenção de ter alguns convidados especiais, mas ainda não posso revelar nada.

Planos para um futuro próximo?
Neste exato momento estou em estúdio a gravar um novo projeto. Também vou estar em estúdio a gravar com o Agir, estamos a tentar encontrar uma sonoridade que identifique os dois.

Como se conjuga uma carreira musical com sete filhos?
Vivo com quatro, os outros estão com as mães. Sempre que posso faço tudo para estar com eles. Não sei se profissionalmente algum seguirá os meus passos, mas acho que todos têm uma queda para a arte. Acima de tudo, quero que se foquem naquilo que querem fazer das suas vidas. Se por acaso a música estiver no caminho deles, então que seja.

[por Filipa Santos; fotografias de Francisco Levita]

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