Lisboa no Estado Novo

Lisboa no Estado Novo

Itinerários de Lisboa

  • Igreja de São João de Deus (Praça de Londres)
     Igreja de São João de Deus (Praça de Londres)
  • Interior da Igreja de São João de Deus (Praça de Londres)
     Interior da Igreja de São João de Deus (Praça de Londres)
  • Exemplo de prédio "rabo de bacalhau" (Praça de Londres-Avenida Manuel da Maia)
     Exemplo de prédio "rabo de bacalhau" (Praça de Londres-Avenida Manuel da Maia)
  • Atual Escola D. Filipa de Lencastre
     Atual Escola D. Filipa de Lencastre

Corria o ano de 1933 quando é instaurado em Portugal o Estado Novo, chefiado por António Oliveira Salazar. Até 1974, altura em que este regime foi destituído, Lisboa foi alvo de alterações significativas, sobretudo no que às Obras Públicas diz respeito. Pela mão do ministro Duarte Pacheco, zonas como a Praça de Londres e Avenidas Novas viram edifícios notáveis ali serem erigidos.

Nesta altura, em que devido à industrialização se começa a assistir a uma falta de casas, a expansão da cidade é uma inevitabilidade. Duarte Pacheco, na altura já presidente da Câmara Municipal de Lisboa, chama o arquiteto Étienne de Gröer que, a partir de 1938 se fixou na capital, para desenvolver aquele que viria a ser denominado como Plano Geral de Urbanização e Expansão de Lisboa, e que propunha a expansão da cidade para Norte.

Com o Plano de Gröer, paróquias como a de São João de Deus começaram a crescer o que levou a que, outrora uma vacaria de João do Outeiro, ali fosse erguida a atual Igreja de São João de Deus, ponto de encontro deste itinerário pautado pela arquitetura. Dali é possível observar, de um lado, o coruchéu, desenhado por Cassiano Branco, do outro, o prédio com a solução tipo “rabo de bacalhau”. Conhecido por Português Suave, este modelo arquitectónico marcou o Estado Novo, essencialmente durante as décadas de 1940 e 1950.

Local privilegiado para incutir os valores defendidos pelo regime – Deus, Pátria, Família – era na escola, cujos manuais escolares, livros únicos para o então Ensino Primário, criteriosamente selecionados pelo Ministério da Educação Nacional, que se transmitiam exemplos desses valores, como a glorificação da obra do Estado Novo e do seu líder, Salazar, ou o papel subalterno da mulher, limitada à função de esposa e mãe, entre tantos outros. Passagem então “obrigatória” pelo antigo Liceu D. Filipa de Lencastre, que em 1938 era o quarto liceu feminino do país e o segundo da capital, cujas salas têm a particularidade de ter um nome de uma escritora, historiadora…

Prosseguindo o percurso, oportunidade para, ainda que a alguma distância, apreciar o projeto de Pardal Monteiro e do escultor Leopoldo de Almeida, erigido em homenagem a António José de Almeida, sexto presidente da República Portuguesa.  De composição simples, é constituído pela sua figura, de pé, esculpida em bronze, sobressaindo do monumento a figura da República, em pedra. É junto dele que, no dia 5 de Outubro, se costuma prestar tributo aos heróis da Implantação da República.

Ali perto, passagem pela Avenida Barbosa du Bocage onde, a 4 de julho de 1937, quando se dirigia para a capela de um amigo onde assistia regularmente à missa, Salazar foi alvo de um atentado. Uma bomba colocada num coletor em frente à casa explodia na mesma altura em que o carro estacionava, lançando terras e pedras pelos ares. O fato escuro do chefe do governo, como descreve o Diário de Notícias do dia seguinte, “ (…) estava coberto de poeira, mas no rosto sereno nem um músculo se movera em contração de espanto ou temor”.

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  • Da Avenida da República à antiga Feira Popular
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Novo ponto de paragem, ainda na mesma rua, para falar no Automóvel Club de Portugal, instituição de utilidade pública, fundada em 1903, na altura designado por Real Automóvel Club de Portugal, que em 1934 criou a primeira escola de condução do país. Pautado até aqui pela questão da Educação no Estado Novo, a partir desta altura aborda-se a questão da Sociedade da altura.

A convite de Salazar, 35 anos após a sua partida para o exílio, a rainha Dona Amélia, cuja vida e obra também pode ficar a conhecer num dos nossos itinerários, regressa a Portugal, onde é acolhida entusiasticamente. Estávamos em 1945 e Lisboa “veste-se” a preceito para ver a rainha passar. Já em 1957, a Avenida da República vai engalanar-se para aquela que chegou a ser considerada de “a visita do século”. Cinco anos depois de ter sido coroada, a rainha Isabel II de Inglaterra visita Portugal. O ditador aproveitou a visita para aliviar a pressão internacional, especialmente nas Nações Unidas, onde a política colonial portuguesa era posta em causa cada vez com mais frequência. Estas visitas são recordadas com fotos de época, que podem ser consultadas no Arquivo Municipal de Lisboa.

Este último acontecimento constituiu-se como a primeira grande cobertura noticiosa da recém-criada RTP. Criada em 1935, a Emissora Nacional coincidiu com a afirmação do Estado Novo, definindo, em larga medida, a sua estrutura de funcionamento e o tipo de programação. Os seus três estúdios de gravação e a sede foram instalados na Rua do Quelhas, com o objetivo de estar perto do Parlamento. Já em 1956, no espaço da atual Fundação Calouste Gulbenkian, onde termina este itinerário e outrora se localizava a Feira Popular da Colónia Balnear O Século, a RTP fez as suas primeiras emissões experimentais.

Salazar viria a morrer em julho de 1970, quatro anos antes do fim do regime ditatorial. A sua vida e obras, que marcaram indelevelmente a arquitetura e o quotidiano da cidade de então, podem ser conhecidas ainda em maior detalhe em Lisboa no Estado Novo, itinerário guiado que se realiza nos dias 11, 17 e 21 de novembro, e nos meses seguintes em datas a anunciar.

[texto de Sara Simões | fotografias de Francisco Levita]
 

  • Marcação prévia e informações:
  • T.218 170 742 | lisboa.cultural@cm-lisboa.pt
  • Preço:
  • 3,69€ (bilhete simples) e 6,15€ (bilhete duplo) 

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