O Al Berto "solar" de Vicente Alves do Ó

O Al Berto "solar" de Vicente Alves do Ó

Novo filme do realizador em estreia

Depois de Florbela Espanca, o realizador Vicente Alves do Ó debruça-se sobre o poeta Al Berto mas, simultaneamente, oferece um olhar sobre o passado da sua própria família. Al Berto estreia nos cinemas a 5 de outubro.  

Em comum, o Alentejo e os poetas. Depois de Florbela (biopic sobre a poeta nascida em Vila Viçosa), Vicente Alves do Ó regressa aos filmes com Al Berto. O realizador, que, tal como o poeta, nasceu em Sines, confidencia ter decidido fazer o filme por achar que "o Al Berto estava cada vez mais esquecido. Como amigo dele senti que precisava de o dar a conhecer. Percebi que há muita gente, principalmente as gerações mais novas, que o desconhece. Espero que ao verem o filme tenham vontade de saber mais sobre ele e sobre a sua obra."

Por outro lado, este é um trabalho muito pessoal, uma vez que Alves do Ó cresceu ao lado de muitas das personagens do filme. "O Al Berto era amigo do meu irmão mais velho, o Francisco. Tinham a mesma idade. O meu irmão João, com quem Al Berto teve uma relação, era sete anos mais novo. Quando o Al Berto regressa de Bruxelas, depois do 25 de Abril, cruzam-se. Nasce então a paixão que é retratada no filme. A relação durou cerca de três anos e terminou mal. Os dois não resolveram as questões que os afastaram e nunca mais se falaram. Quando o meu irmão João morreu fiquei com o espólio dele. Tinha muita informação para o filme, até de mais, dava para umas cinco horas de filme."  

O autor de O Medo era também amigo do realizador e incentivou muito o seu trabalho, sobretudo a sua escrita. Segundo o realizador, "temos tendência a mitificar as pessoas que admiramos. Quem gosta de Al Berto e conhece a sua obra vê-o sem falhas, perfeito. No filme quis apresentar o outro Al Berto, solar, romântico, humano, o Rei da Festa". E, no final do filme, assiste-se a "um ritual de passagem: o Al Berto solar passa a Al Berto lunar, desiludido, melancólico”.  

Em Al Berto apresenta-se o retrato de uma geração que em 1974 conheceu, por fim, a liberdade. No Verão de 75, depois de 10 anos a viver em Bruxelas, Al Berto regressa a Portugal, instala-se na casa de família com o intuito de apresentar a Sines o mundo que viu lá fora. Porém, a sua terra natal não está preparada para receber os ventos de mudança. "A liberdade tinha chegado e tudo parecia possível. Aquele grupo de amigos sentia que tinha muito tempo para alcançar os seus sonhos, mas o tempo é finito. Poucos seguiram o caminho que pretendiam", conclui. 

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  • "No filme quis apresentar o outro Al Berto:
  • solar, romântico, humano, o Rei da Festa"
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De um vasto elenco jovem, destaque para Ricardo Teixeira no papel de Al Berto. O realizador procurou os atores durante os dois anos em que escrevia o guião e preparava o argumento. "Queria atores com formação, vi muita coisa, fui a muitas locais e encontrei-os no teatro. Achava que o ator que interpretasse o protagonista não tinha de ser igual, mas tinha que ter alguma característica muito idêntica, como a voz, o corpo e a cor de cabelo. Quando vi o Ricardo Teixeira achei-o muito parecido com o Al Berto, a fisionomia era semelhante. Fizemos o casting e correu muito bem. Acabou por ser perfeito para o papel."

Antes das filmagens o realizador experimentou fazer uma coisa que nunca tinha feito antes, uma espécie de "residência artística". Foi com os atores para uma casa isolada perto de Sines. "Vivemos como os personagens do filme todos juntos. Trabalhávamos no guião e na improvisação. Íamos às compras, frequentámos os sítios que as personagens no filme também frequentam. O resultado foi muito positivo, foi muito bom para o trabalho final."

Alves do Ó já tem um novo projeto na cabeça. Outro poeta? "Pensei fazer uma trilogia de poetas, mas depois apaixonei-me por um pintor: Amadeo de Souza-Cardoso. Simboliza tudo o que temos de melhor em Portugal. O Amadeo é colossal, e demontrou-nos que a arte não tem que ser depressiva. Muitas vezes há essa ideia de que os melhores trabalhos de um artista nascem da tristeza e dos maus momentos, ele é o oposto disso. Para Amadeo a arte é alegria. É o meu herói. A personalidade dele é um grande exemplo. Vou fazer, de certeza, um filme sobre esse homem genial."

[texto de Ana Figueiredo]

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