O comércio a contar histórias

O comércio a contar histórias

'Lojas com História' desvendam outra Lisboa

  • Farmácia Normal
     Farmácia Normal
  • Farmácia Morão
     Farmácia Morão
  • Chapelaria Azevedo Rua
     Chapelaria Azevedo Rua
  • Hospital das Bonecas
     Hospital das Bonecas
  • Camisaria Pitta
     Camisaria Pitta
  • Casa Macário
     Casa Macário
  • Luvaria Ulisses
     Luvaria Ulisses
  • Sapataria do Carmo
     Sapataria do Carmo
  • Retrousaria Bijou
     Retrousaria Bijou

Conhecer uma cidade é também descobrir a sua história, os seus hábitos, as suas tradições. Conhecer Lisboa pelas suas lojas é uma forma de, através da arquitetura, decoração ou dos produtos que vendem, saber notícias dos tempos da Monarquia, dos primeiros anos da República, de dias de grande carência ou de riqueza. É essa viagem que nos sugere a exposição Lojas com História, que abriu ao público dia 7 de setembro na Rua da Conceição, 134.

Numa iniciativa do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, esta exposição pretende mostrar que o esplendor de uma cidade que não se vê apenas nos seus monumentos e paisagens, mas também nas pequenas marcas do seu comércio. A mostra inclui textos, fotografias e espólio específico da atividade comercial de cada loja. Fomos visitar a exposição, e selecionámos nove objetos, todos eles  com proveniências e propósitos diferentes, para lhe dar um cheirinho do que pode visitar até ao dia 25 de novembro. A entrada é livre.

Farmácia Normal
Rua da Prata, 218

Abriu portas em 1890 como Farmácia Costa, mas só em 1905 se passou a chamar Farmácia Normal. Em 1908, os seus proprietários abriram dois laboratórios, um dedicado às análises clínicas, e outro para produzir produtos assépticos e fabricar pensos, medicamentos tópicos e soros. Os tempos mudaram, o que levou a Farmácia Normal a mudar também, embora continue a manter os seus tetos altos e abobados, os grandes armários de madeira e o balcão em mármore cor-de-rosa. Como herança dos tempos antigos fazem parte livros com fórmulas e receitas manuscritas, cadernos de apontamentos, uma série de frascos e outros utensílios. Alguns fazem parte da decoração, para deleite dos nostálgicos mais atentos.

Farmácia Morão Herdeiros
Largo da Graça, 63
Corria o ano de 1896 quando José Augusto Morão decidiu abrir, em pleno Largo da Graça, a Farmácia Morão Herdeiros. O espaço sofreu obras de restauro em 1992, mas mantém a traça de outros tempos, tal como o mobiliário do séc. XIX, os tetos em estuque trabalhado e a coluna hexagonal em madeira. Hoje é um espaço moderno, mas mantém peças antigas de cerâmica expostas, ligadas à história da farmacêutica. Um desses objetos é um escarrador, que fez parte da história social de uma época (séc. XIX e primeira metade do séc. XX) e que servia para recolher a expetoração. Tornou-se um objeto obrigatório em locais públicos, por forma a tentar erradicar o péssimo hábito de cuspir para o chão.

Chapelaria Azevedo Rua
Praça D. Pedro IV, 73

O que têm em comum Vasco Santana, Mário Soares, Fernando Pessoa ou D. Duarte de Bragança? Foram todos clientes da Chapelaria Azevedo Rua. A mítica loja abriu portas em 1886 quando o seu proprietário, Manuel Aquino de Azevedo Rua, teve de deixar o Douro depois de uma filoxera lhe destruir as vinhas, e assim tentar a sua sorte em Lisboa. A loja instalou-se no Rossio, na altura conhecida como Praça dos Chapeleiros, e viria a ser frequentada pela fina-flor da capital, numa altura em que não era bem-visto sair à rua com a cabeça destapada. O negócio mantém-se, e aqui vendem-se todo o tipo de chapéus (podendo ser feitos à medida), bengalas e até chapéus de chuva.

Hospital das Bonecas
Praça da Figueira, 7

Em 1830, Carlota da Silva Luz revolucionava a vida de muita criança infeliz ao abrir, na Praça da Figueira, o mítico Hospital das Bonecas. Como naquela altura, ainda hoje ali a magia acontece, com o ateliê de consertos e restauros a tratar dos pacientes, que podem ser bonecas, peluches ou outro tipo de brinquedos. Há ainda uma vertente de confeção de roupa, trajes regionais e de carnaval, a loja propriamente dita, onde se vendem vários tipos de bonecas, casas, porcelanas e brinquedos tradicionais, e uma exposição permanente de brinquedos e bonecas antigas, numa estimativa de cerca de 3500, tendo em conta as doações quase diárias de novas bonecas.

Camisaria Pitta
Rua Augusta, 195/197

Para as gerações de hoje é quase inconcebível que em tempos antigos a roupa fosse feita à medida, com o pormenor e atenção que só um alfaiate ou uma costureira podem dar. Foi a pensar nesse nível de detalhe que A. M. Pitta fundou, em 1887, o seu negócio na Rua de São Julião, que havia de passar, em 1903, para a Rua Augusta. A Camisaria Pitta tornou-se fornecedora da Casa Real e também de muitos presidentes da República. Ainda hoje esta alfaiataria guarda moldes de fatos e de camisas dos seus clientes. A loja tinha tão boa reputação, que no filme o Leão da Estrela o ator António Silva faz o seguinte comentário sobre a indumentária de outro personagem: “São camisas de qualidade, são Pitta.”

Casa Macário
Rua Augusta, 272

Instalada na movimentada Rua Augusta desde o longínquo ano de 1913, a Casa Macário é uma mercearia fina que vende chás, cafés, aguardentes e outras bebidas alcoólicas, bem como chocolates e outras guloseimas, iguarias várias e produtos regionais. Os lotes de café Augusta (São Tomé, Colômbia e Camarões) e Macário (Colômbia e Brasil) são o seu ex-libris. Em 1970 a loja foi comprada pela família Torres, tendo passado a vender também whiskies, vinhos de mesa e vinho do Porto. A movimentada loja atrai não só pela variedade e qualidade dos produtos, mas também pelo ar antigo, presente na montra em cantaria e ferro ou nos letreiros em vidro.

Sapataria do Carmo
Largo do Carmo, 26

No Largo do Carmo mantém-se, desde 1904, umas das mais antigas e requintadas sapatarias de Lisboa. A loja nasceu pelas mãos de Francisco de Oliveira Abrantes, avô de Regino Paulo da Cruz, proprietário até 2012, ano em que foi comprada por quatro empresários. Embora tenha mudado de mãos, a Sapataria do Carmo manteve o nível de requinte, apostando sempre na venda de sapatos de pele de gama alta, feitos em território nacional e à mão. Ainda hoje mantém relações comerciais com os fornecedores de antigamente, preservando a imagem e a história da carismática sapataria de sofás vermelhos e aveludados.

Luvaria Ulisses
Rua do Carmo, 87-A

Nos anos 20, quando a Luvaria Ulisses abriu, o protocolo ditava que as luvas eram um acessório chique, próprio de damas e cavalheiros que se prezassem. Não admira, por isso, que os clientes habituais da Ulisses fossem parte da elite política, cultural e artística da cidade. O tempo mudou, mas tudo parece inalterado quando entramos na loja. A decoração é a mesma, com móveis de inspiração Império e a fachada neoclássica, e até o ritual é o mesmo de há um século atrás: a luva é aberta por uma pinça de madeira e amaciada com pó de talco, para que o cliente a possa experimentar. Foi fundada por Joaquim Rodrigues Simões em 1925, à data vereador da Câmara Municipal de Lisboa.

Retrosaria Bijou
Rua da Conceição, 91

Na Rua da Conceição, mais conhecida como rua das retrosarias, destaca-se a Bijou, com a sua vistosa fachada em azul, que mistura Arte Nova e Rococó. Abriu portas em 1915 e ainda mantém o mobiliário, o teto e a fachada, classificados como Património de Interesse Municipal. Foi comprada nos anos 20 pela família d’Almeida, que ainda se mantém no comando. Atualmente, mantém-se na carismática arte de vender lãs, botões, linhas, agulhas, fechos, fivelas, emblemas e outros materiais do fascinante mundo da retrosaria. Continua a ostentar a famosa caixa registadora antiga com o mostrador que diz: “O freguez verá no mostrador a importancia da sua compra”.

[Texto de Filipa Santos]

Relacionado

lojas com história

Artes › Exposições › Outras
7 set a 25 nov/17
Baixa
1100-060 Lisboa

Formulário de procura

OP'17