Pulp Fiction para o século XXI

Pulp Fiction para o século XXI

‘A Estupidez’ no Teatro da Politécnica

  • Rita Cabaço, Guilherme Gomes e David Esteves
     Rita Cabaço, Guilherme Gomes e David Esteves
  • António Simão e Rita Cabaço
     António Simão e Rita Cabaço
  • Andreia Bento, Rita Cabaço, David Esteves e Guilherme Gomes
     Andreia Bento, Rita Cabaço, David Esteves e Guilherme Gomes

Cinco atores, 24 personagens e uma mão cheia de quartos de hotel nos arrabaldes de Las Vegas. Os Artistas Unidos regressam ao teatro do argentino Rafael Spregelburd, um par de anos depois de A Modéstia, com um espetáculo vertiginoso dirigido por João Pedro Mamede.
 
É o próprio Rafael Spregelburd que apresenta A Estupidez, peça central (a quarta) da sua Heptalogia de Hieronymus Bosch, como sendo “a explosão sem sentido mas articulada de um motor em plena combustão.” Estruturada “num formato de road movie, mas inconfortavelmente teatral e esteticamente circular”, a peça, passada entre quartos de motel nos arrabaldes sujos e decadentes da luminosa Las Vegas, “é insaciável, grosseira, barroca.” E rápida, vertiginosa, caótica… Em suma, trata-se de um texto que, nas palavras do encenador João Pedro Mamede, “prevê algo de catastrófico”.
 
Efetivamente, e como sublinha Mamede, é “uma peça-catástrofe para um tempo estúpido”. Não se trata de um acaso o autor argentino ter colocado a ação nos arredores de Las Vegas. São 24 personagens que se movem em palco à velocidade da bola da sorte e do azar numa roleta de casino. Engenhosa maneira de fazer lembrar Tarantino (sobretudo Pulp Fiction) e, acreditamos, Raymond Carver, de onde parecem saídos toda esta panóplia de vigaristas, polícias, apostadores ou mafiosos.
 
Marius von Mayenburg, autor e encenador na Schaubühne, acentua essa velocidade de casino referindo que “Spregelburd faz virtuosos malabarismos com os géneros mais diversos”. A peça “leva as personagens a correr entre o melodrama clássico, passando pelo teatro de entretenimento e até ao road movie, e enquanto Tchekhov e Tarantino observam atónitos a graça e elegância estrambólica com que cinco atores alternam ente (…) personagens distintas com a rapidez de um raio”.
 
Mas, o que move estas personagens nesta vertigem oscilante entre caos e ordem a caminho da catástrofe? João Pedro Mamede refere ser “o dinheiro”. O vil metal, a que quase nenhum personagem em A Estupidez passa incólume (e é intelectualmente explorado até à estupidez), alimenta uma economia de casino personificada, também, nos cinco atores (Andreia Bento, António Simão, David Esteves, Guilherme Gomes e Rita Cabaço) durante a representação destas 24 criaturas. “Afinal, as necessidades da narrativa exploram os próprios atores até ao limite”, sublinha o encenador.
 
A Estupidez estreia a 11 de janeiro no Teatro da Politécnica, e permanece em cena até 25 de fevereiro.

[por Frederico Bernardino | fotografias de de Humberto Mouco - CML/ACL (texto) e Jorge Gonçalves (header)]

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A estupidez

Teatro › Espetáculos
11 jan a 25 fev/17
Rua da Escola Politécnica, 56

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