Quando ela quis uma metralhadora

Quando ela quis uma metralhadora

‘Vanessa vai à luta’ no Teatro da Trindade

Mais de duas décadas passadas sobre a escrita de Vanessa vai à luta, o divertido texto de Luísa Costa Gomes está de regresso ao palco, numa encenação de António Pires. A autora bem o pode considerar uma “peça de museu”, mas num mundo em que tudo parece ter mudado, ainda há matérias que… nem por isso. Sobretudo quando, ao invés de bebés chorões, barbies ou vassouras de brincar, a pequena Vanessa só ambiciona mesmo ter uma metralhadora igual à do irmão.
 
Sons icónicos das décadas de 80 e 90 do século XX, introduzidos em riffs bem musculados, começam a propagar-se pela sala do Teatro da Trindade ainda antes do abrir da cortina. Vanessa, uma menina de sete anos, com muita, mas mesmo muita personalidade, fã de Dragon Ball e sucedâneos, não se rende ao que a família e a sociedade lhe reservam. E, por isso, vai à luta.
 
“Mas afinal porque é que não posso ter uma metralhadora de brincar igual à do meu irmão?”, pergunta-se. Mandam as convenções que tal não seja o brinquedo mais indicado para meninas. Mais a mais, existem tantas bonecas, acessórios de moda e baldes com esfregona nas prateleiras das lojas de brinquedos que até parece mal andar a brincar com uma metralhadora, um brinquedo que, de tão viril, só pode mesmo ser destinado a rapazes.
 

  • “O teatro é o reino do faz de conta
  • quem melhor do que
  • os mais novos para o perceber”
  • ANTÓNIO PIRES

 
Vanessa vai à luta parece, num primeiro impacto, estar datado (talvez porque, aqui, os bens ainda se transacionam em escudos e são, hoje, raras as mães que não trabalham fora de casa) mas, “no essencial, há muita coisa atual, sobretudo o tema do condicionamento das escolhas pelo género”, refere o encenador António Pires. “Concluímos que não nos interessava atualizar o texto, até porque o considero uma fabulosa peça de teatro de comédia que, nas suas múltiplas camadas promove a opinião, a reflexão e o debate entre as gerações sobre um problema que se mantém: porque é que cada um de nós, independentemente do género, não pode ser aquilo que quiser”.
 
Luísa Costa Gomes vai ainda mais longe. “Reescrevê-la, atualizá-la, significaria escrever uma peça nova porque, de facto, o mundo mudou muito nestes últimos 20 anos”. Porém, “a questão metafísica do género, do ser que somos, a ideia do acaso que no momento da conceção nos torna homens ou mulheres, essa, continua eternamente intrigante”.
 
E quando os jovens rapazes e raparigas de hoje tomarem contacto com este mundo de Vanessa, como vão reagir? António Pires assume que, sempre que encena um texto para crianças e jovens, não pensa muito nisso. Afinal, “o teatro é o reino do faz de conta e quem melhor do que eles para o perceber”. Por isso mesmo, Vanessa vai à luta não é, de todo, uma peça naturalista. E é, precisamente, por negar esse conceito de teatro com tanta veemência como o da protagonista estar presa ao rótulo da “maria-rapaz”, que, acredita, este é um espetáculo capaz de ser tão eficaz na promoção do “sentido crítico dos mais novos".
 
Interpretado por Carolina Campanela, João Veloso, Cátia Nunes, Hugo Mestre Amaro e Julie Sergeant (que tem uma participação especial deliciosa no papel de uma Fada Madrinha chamada Marina), Vanessa vai à luta tem estreia marcada para 19 de janeiro. A partir de 11 de fevereiro, e até 1 de abril, a peça volta a estar em cena no Teatro da Trindade, sempre aos sábados, com sessão às 16 horas.
 
[por Frederico Bernardino | fotografias de Humberto Mouco]

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