Christiane Jatahy

Artista na Cidade 2018

Christiane Jatahy

De maio a novembro, a autora, encenadora e cineasta carioca Christiane Jatahy é a Artista na Cidade, programa bienal que, nesta quarta edição, recebe uma das mais destacadas criadoras da atualidade. Autora de uma obra considerada muitas vezes radical, e até mesmo subversiva dos padrões mais clássicos da criação em teatro e cinema, Christiane afirmou-se nos palcos da Europa, tendo sido mesmo a primeira artista brasileira a dirigir a Comédie-Française, com La Règle du Jeu, a partir de Jean Renoir. Entre Paris, onde desenvolve residência artística no Odèon, e Lisboa, onde a mais recente fase da sua obra será mostrada, Christiane falou à Agenda Cultural de Lisboa.

Os seus trabalhos estão longe de obedecer a uma categorização simplista tendo em conta que promovem um diálogo entre áreas de criação distintas. Apesar disso, ainda se considera uma autora de teatro?

Sim. Ainda que tenha projetos que se limitem ao cinema, a maior parte dos meus trabalhos assentam em linhas de fronteira, mas dão-se no espaço teatral. Portanto, estão enquadrados no contexto da performance e na relação direta com o espectador. É interessante você usar a palavra “autora” [de teatro] porque nestas linhas de passagem, nesta deslocação de um território para o outro, há algo mais do que uma “diretora” [de teatro]. A ideia de autoria, no meu teatro, passa por escrever num espaço invisível (como numa parede que não existe) que sempre ganha forma na tridimensionalidade dos atores.

 

E a sua metodologia de trabalho, mesmo em cinema, parte do teatro?

O teatro é o lugar de onde parto, mas também é onde sempre volto. Um projeto de cinema tem particularidades, mas existe sempre uma perspetiva performativa que passa, sobretudo, pelo modo como eu me conecto com o tempo do espectador.

 

Na sua obra, o que é que o teatro empresta ao cinema, e vice-versa?

Existe um contágio permanente entre teatro e cinema. Profissionalmente, a minha formação é Teatro, apesar de ter estudado jornalismo, filosofia e cinema. Na maior parte dos meus trabalhos para teatro sempre reconheci o cinema como dispositivo e procedimento, não necessariamente através da projeção, mas como poderia usar os meios do cinema para dispor a cena para o espectador. Logo, esse contágio sempre existiu, independentemente, de eu estar a fazer um filme em cena como acontece nos trabalhos mais recentes. A minha experiência cinematográfica também carrega a memória do que eu havia feito no teatro. Por exemplo, A Falta Que nos Move [a exibir no Cinema São Jorge, a 20 e 21 de novembro] é um projeto que nasce no teatro e transforma-se num filme; no Temps d’ Images apresentarei um conjunto de filmes que nasceram como documentários e são base para vários desdobramentos, como serem exibidos numa sala expositiva (o que também muda a relação do espetador com a imagem); e Utopia.doc [documentário que estará em exibição no Cinema Ideal, também em novembro] partiu do trabalho de pesquisa para o espetáculo/filme E se Elas Fossem para Moscou? Portanto, no meu trabalho, o contágio é permanente, tanto na criação de linhas de tensão entre teatro e cinema, como juntando-os num só.

 

A Floresta que Anda

 

Isto não quer dizer que a Christiane chegou a um momento e achou que o teatro já não era suficiente…

Não, não (risos)… Aquilo que sempre me interessou foi atualizar a relação entre a cena e o espectador, ao mesmo tempo que eu mesma ia repensando os meus procedimentos criativos. E isso, pode dar-se num ou noutro território, ou até mesmo somá-los.

 

A aclamação internacional trouxe o seu trabalho para os grandes palcos da Europa – lembro, recentemente, ter dirigido a Comédie Française, tornando-se a primeira brasileira a fazê-lo; ou a estreia mundial de Itaca [em junho, no Teatro São Luiz] no Odèon. Apesar de ter já muitos anos de trabalho, sente-se hoje uma criadora que todos disputam?

Há duas respostas possíveis a uma obra artística: ou somos muito jovens e ganhamos visibilidade com um trabalho, ou trazemos já uma obra mais extensa, com um processo de amadurecimento consolidado. No meu caso, aconteceu a segunda. Até 2011 tinha apresentado alguns trabalhos na Europa (como aqui, no Festival de Almada, em Berlim, em Viena, em Barcelona…), mas é a partir dai que começa a ser constante a minha presença na Europa. Curiosamente, sinto não ter sido descoberta, mas ter conseguido dialogar com outros públicos, de diferentes lugares, culturas e línguas. Como tenho dito, a relação com o espectador é fundamental no meu trabalho e nada é mais desafiante para um artista que poder expandir o diálogo, numa possibilidade de troca entre aquele que mostra e aquele que assiste. Sinto que as minhas criações cresceram com essa aceitação. E isso aconteceu também quando dirigi artistas de outras culturas e linguagens, embora mantendo a essência do meu trabalho.

 

Estando agora na Europa, a viver em França, como é que tem convivido com a distância do seu Brasil, sobretudo num tempo de tanta conturbação politica e social?

Existe a distância física, é verdade, mas ao mesmo tempo uma conexão profunda. É um momento sombrio e terrível aquele que se vive no Brasil. Estamos a dar demasiados passos para trás e adivinha-se o perigo de uma ditadura. Aliás, é necessário uma resposta mundial a esta tenebrosa urgência do fascismo…

 

E as suas criações poderão contribuir nessa resposta?

O meu teatro e o meu cinema é sempre sobre o momento presente, mesmo quando trabalho os clássicos.

 

Precisamente, os clássicos. A sua obra tem sido adjetivada de “experimental”, “radical” ou “subversiva”. Porém, os clássicos estão muito presentes, não só em peças mais recentes como Júlia (Strindberg), E Se Elas Fossem para Moscou? (Tchekhov) ou Ítaca (Homero), como em alguns trabalhos mais antigos…

Durante algum tempo, trabalhei textos da minha autoria que partiam de material documental para se transformar em ficção, mantendo vincada a questão da memória e a sua relação histórica [Conjugado, que passou no Festival de Almada em 2006, é um exemplo]. Sendo também alguém que escreve, sou antes de mais uma leitora voraz. Por isso, tenho uma fortíssima relação com os clássicos. Ao contrário do que sucede com os meus textos, ao trabalhar os clássicos não apelo à memória de um conjunto preciso de pessoas (como as que me rodeiam ou as que entrevisto para transformar em matéria dramática), mas sim à memória coletiva, uma memória que está presente em cada um de nós – isso acontece com Tchekhov ou com Homero – e que é facilmente identificável. Os clássicos tratam uma história que atravessa a História, e na qual coloco um alvo e procuro perceber como posso abordar o agora. São textos que continuam a iluminar os dias de hoje… Não acontece com todos e em todas as alturas, claro está, mas sucede com alguns deles, como no Ítaca, que eu trabalhei a partir de A Odisseia e proponho uma leitura bem atual sobre o ser estrangeiro, o ser refugiado, o ser migrante.

 

Ítaca – Nossa Odisseia I


Portanto, nada pode parecer mais contemporâneo do que um clássico…

A reapropriação de uma obra do passado para o presente é um voltar à própria obra. Por exemplo, quando Strindberg escreveu Menina Júlia, ele estava a pensar o seu tempo. Mas, no Júlia, ao pensá-lo nos dias de hoje, ao reapropriar-me dele, ao manter muitas vezes o texto, ao ser-lhe tão fiel, estou a tratar o clássico não como uma peça de museu, mas sim como matéria viva. Por isso, um clássico é sempre contemporâneo.

O que significa para si ser a Artista na Cidade, aqui em Lisboa, neste ano de 2018?

Para mim, enquanto artista brasileira, sobretudo no contexto atual do Brasil, é muito importante. Apesar de uma história que nos separou, temos em comum a mesma língua e, no caso do teatro, poder apresentar o meu repertório sem intermediação de legendagem é muito mais do que uma facilidade – no meu caso, é essencial porque o teatro é sobre a comunicação direta e sobre a relação com o público. Também politicamente é fundamental que a minha história seja mostrada aqui, até porque o artista é o lugar de onde vem e dos movimentos onde se insere, e por isso, ao apresentar o meu trabalho mostro também o Brasil de hoje. Por último, esta oportunidade de dar a conhecer esta parte da minha obra é muito interessante porque cada um dos meus trabalhos parte da interrogação do anterior. E, a programação da Artista na Cidade permite, em maio e junho, apresentar os espetáculos cronologicamente, e nos meses seguintes ver aqueles que estão mais conectados com o audiovisual.

 

Para concluir, gostaria de saber se já pensou em “reapropriar” algum texto da literatura portuguesa, relembrando que, há uns anos, a Christiane levou à cena Memorial do Convento de José Saramago.

O Saramago já era um clássico! Mas o meu primeiro afeto da literatura portuguesa foi Fernando Pessoa. Confesso que, de repente, não penso em nenhum autor, apesar de reconhecer muito interessante o movimento da dança e do teatro em Portugal, e de toda a afinidade que tenho pelo Tiago Rodrigues, artista muito profícuo e que muito me agrada na forma como escreve. Acho que não respondi à sua pergunta [risos], mas quem sabe se numa futura entrevista eu possa avançar algo mais.

 

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