Os livros de julho

Os livros de julho

Em julho começam as férias grandes e temos mais tempo para dedicar à leitura. Nas sugestões da Agenda Cultural de Lisboa surgem dois romances: a mais recente obra do polémico Michel Houellebecq e As Pessoas Felizes, numa homenagem à grande escritora Agustina Bessa-Luís, desaparecida no passado dia 3 de junho. A poesia está representada com um marco histórico na edição em Portugal: a Antologia de Poesia Erótica e Satírica de Natália Correia, publicada com as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas. Uma biografia de referência de Maomé, o profeta do Islão, uma selecção de contos de Herman Hesse, Prémio Nobel de Literatura (1946), e, para ler à sombra nos meses de verão, o guia Jardins de Lisboa, completam o rol de propostas. Para deliciar pais e filhos, recomendamos o imperdível Greve, escrito e ilustrado por Catarina Sobral. Boas férias e boas leituras.

Michel Houellebecq

Serotonina

Habituámo-nos a procurar nos romances de Houellebecq sinais premonitórios ou sintomas de algo que se poderá manifestar através de um acontecimento traumático, e relativamente a Serotonina não tardou a aproximação justificada ao movimento dos coletes amarelos em França. No entanto, o aspeto mais radical do livro é outro e anuncia-se na página 48: “Os números eram impressionantes: por ano, mais de doze mil pessoas em França escolhem desaparecer, abandonar a família e refazer as suas vidas, às vezes do outro lado do mundo, às vezes sem mudarem de cidade.” É o que fará o protagonista deste livro: abandonar tudo, o trabalho, o apartamento, a atual companheira, e viver uma outra vida, não deixando nunca de ser quem é. Florent-Claude Labrouste deambulará pela França e pelas memórias das mulheres da sua vida, numa sucessão de encontros onde impera a frustração e o desespero. É uma personagem que busca uma réstia de humanidade e que testa a cada momento a sua capacidade de se desumanizar. A marca do pessimismo houellebecquiano volta a ser muito forte, mas perante tudo o que testemunham as suas personagens, podemo-nos perguntar se não será ele o último dos humanistas.

Alfaguara

 

 

Maxime Rodinson

Maomé

Fundamentado a oportunidade de mais uma biografia de Maomé, o profeta do Islão, o autor esclarece que não apresenta nenhum facto novo. Procura, com base nos factos já conhecidos, refletir sobre as constantes das ideologias e dos movimentos de base ideológica e na forma com se manifestam nos acontecimentos que relata. Seguindo atentamente as controvérsias atuais sobre a explicação de uma vida pela história pessoal do herói na sua juventude e pelo seu micromeio, reconcilia-as com o ponto de vista marxista sobre a causalidade social das biografias individuais. E conclui: “Em suma, procurei ser ao mesmo tempo narrativo e explicativo”. A edição desta obra de referência permite ao leitor português, herdeiro de um forte contributo árabe na sua história, conhecer melhor esta civilização que volta a marcar os destinos do mundo, ultrapassando as crescentes perplexidades que ela desperta, alimentada de ideias simplistas ou demasiado genéricas. O rigor e a erudição do historiador aliam-se à formação do sociólogo e do orientalista, num texto que “narra e explica” exemplarmente.

Caminho

 

  

Herman Hesse

As mais Belas Histórias

Hermann Hesse (1877/1962), prosador e poeta alemão, um dos mais importantes do século XX, cedo revelou a vocação literária que o faria abandonar os estudos de teologia e a carreira religiosa. Laureado com o Prémio Nobel de Literatura em 1946, deixou uma obra em que, sob influência da psicanálise e das religiões orientais, procura uma solução espiritual para os problemas e contradições da natureza e da cultura humanas. O Lobo das Estepes, Narciso e Goldmundo, O Jogo das Contas de Vidro, Peter Camenzind ou Sidarta são títulos de alguns dos seus principais e mais famosos romances. Certos críticos consideram, no entanto, que os seus contos atingem uma beleza e uma perfeição raramente igualada nas suas obras de maior fôlego. A presente seleção apresenta treze contos de diferentes temáticas, mas todos reportados a experiências pessoais vividas por protagonistas de quem nos sentimos próximos por nada possuírem de heróico, revelando um amplo espectro dos paradigmas do comportamento humano.

Dom Quixote

 

 

Natália Correia

Antologia de Poesia Erótica e Satírica

De Martim Soares (1241?) a Dórdio Guimarães (1938- 1997), esta célebre antologia, com selecção, prefácio e notas de Natália Correia, reúne oito séculos de poesia portuguesa erótica e satírica. Depois vários livros seus terem sido apreendidos pela Censura do Estado Novo, a autora aceitou o convite do visionário editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, para organizar esta Antologia. Publicada em dezembro de 1965, prometia “a poesia maldita dos nossos poetas”, “as cantigas medievais em linguagem actualizada”, “dezenas de inéditos” e “a revelação do erotismo de Fernando Pessoa”. O escândalo foi enorme e a obra apreendida pela PIDE, com vários dos intervenientes julgados e condenados em Tribunal Plenário, num processo que se arrastou durante anos. Republicada pela primeira vez com as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas, incluindo novos textos introdutórios e reproduções de documentos que contextualizam este marco histórico na edição em Portugal, fundamental para todos os que acreditam no poder transgressor e subversivo da poesia.

Ponto de Fuga

 

 

Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes

Nascida em 1922, desde cedo ficou patente a vocação literária de Agustina. A “Sibila”, de 1954, constitui um enorme sucesso e revela a sua mestria na arte do romance através da criação de “atmosferas onde se vão tecendo e emaranhando redes de factos semiperturbados por memórias ou pressentimentos que se adensam em personagens quase sempre estranhas, seja por antigos vícios de temperamento, seja por um irracionalismo quase predestinado das atitudes”. Recebeu em 2004 o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. Este romance tem por tema a família Torri, do Douro, que à semelhança de outras famílias burguesas do Porto, se sentia feliz nos anos cinquenta, mas que começa a perceber a ruina do seu país na década que precede a revolução do 25 de Abril. “É um romance que quase não tem enredo. Nem aquilo que se chama plot. Tem ambiente e tem história recordada. Não tem factos e até os sítios são poucos. Os locais de Agustina são as memórias, os sentimentos ou as consequências do real”, escreve António Barreto no prefácio à presente edição.

Relógio D´Água

 

 

Ivo Meco

Jardins de Lisboa

O livro Jardins de Lisboa é mais do que um guia, é um conjunto de histórias de espaços, plantas e pessoas. É um convite a explorar o espaço e a vegetação de seis dos emblemáticos jardins de Lisboa: o Jardim Botânico da Ajuda, o Parque Botânico do Monteiro-Mor, o jardim da Estrela (Jardim Guerra Junqueiro), o Jardim Botânico de Lisboa, O jardim Botânico Tropical e a Estufa Fria. Um percurso pelos seus caminhos numa narrativa pessoal entrelaçada com a história do espaço e a identidade das plantas que neles existem. Paralelamente, pode ser usado como um pequeno manual de botânica geral, explicando de forma simples a diversidade de estruturas e pequenas curiosidades que as plantas encerram, desafiando a explorações para descobrir as espécies e os exemplares descritos, com a ajuda de fotografias. Ao passear pelos Jardins de Lisboa, autênticos tesouros de botânica e história, pode observar a mais velha Araucaria heterophylla de Portugal, sentir o toque aveludado das folhas da Kalanchoe beharensis enquanto olha o Tejo ou conhecer o brilho metálico das folhas do Strobilanthes dyerianus escondidas no coração da cidade.

Arte Plural

 

Catarina Sobral

Greve

Um dia os pontos decidem fazer greve e o caos instala-se. Deixa de haver pontos finais, desaparecem os pontos de encontro, os pontos de vista e os pontos cirúrgicos. Ninguém se entende e torna-se impossível fazer o ponto da situação. A nova edição em formato pequeno do extraordinário livro de estreia da escritora e ilustradora Catarina Sobral, Prémio Internacional de Ilustração da Feira do Livro de Bolonha 2014, Prémio Ilustrarte 2016, Prémio SPA autores 2013, faculta o acesso dos jovens leitores e das suas famílias a uma obra de absoluta referência no universo da literatura infanto-juvenil. Trata-se de uma obra que funciona exemplarmente em dois níveis distintos: é divertida e estimulante para os leitores acima dos oito anos e exigente do ponto de vista conceptual e gráfico para os leitores adultos. Aborda os temas da linguagem e da comunicação com pleno dom da ironia: numa época em que abundam as mais sofisticadas tecnologias de comunicação tudo colapsa por causa de um simples sinal de pontuação. O texto, brilhante, com amplo recurso ao subtexto (e ao metatexto,) surge acompanhando de ilustrações à base de inspiradas colagens que remetem para as técnicas do cubismo ou de certa estética pop de Richard Hamilton, entre outras. Catarina sobral revela-se, com esta obra magnífica, uma autora completa. É um ponto de honra recomendá-la.

Orfeu Mini