Os livros de abril

Oito novas proposta de leitura

Os livros de abril

No romance A Trégua, do escritor uruguaio Mario Benedetti, um homem, entregue à rotina e à resignação, conhece uma jovem com metade da sua idade com quem vive uma paixão transgressora que lhe abre um horizonte “de plena liberdade”. No mês de abril, 51 anos depois da Revolução dos Cravos, propomos oito livros recém editados de vários géneros literários. Porque, para além do Amor, também a literatura é capaz de abrir horizontes de "plena liberdade"!

Camilo José Cela

A Família de Pascual Duarte

A publicação de A Família de Pascual Duarte, em 1942, deu origem ao termo “tremendismo”, tal o choque que causou. A denominação passou a definir um estilo de obras sangrentas, marcada pelo horror e crueldade, e protagonizadas por figuras animalizadas cuja personalidade se reduz ao patológico e anormal. Pascual é um homem assaltado por um sentimento de culpa edipiana e terror existencial, conflitos que resolve recorrendo à violência e matricídio. Esta criatura, “abandonada por Deus”, destinada a seguir “o caminho dos cardos e das urtigas”, para quem “o sangue é o adubo da vida”, narra a sua existência e o seu rol de crimes, numa longa e pormenorizada missiva, declarando: “A consciência só pesa quando se pratica uma injustiça: bater numa criança, matar uma pomba”. Quem é, afinal, Pascual Duarte? Um bárbaro sem remissão ou, como lhe chama o padre confessor, “um cordeiro manso encurralado e assustado com a vida”? Na sua violência e trágica fatalidade, a inesquecível personagem surge como uma impressionante premonição do destino da Espanha sob a Guerra Civil, com o seu meio milhão de mortos, e como espelho negro da subsequente repressão franquista. LAE Quetzal

António Laginha

Os Ballets Russes em Portugal

Serge Diaguilev referia-se à “aventura portuguesa” dos Ballets Russes como “o pior momento da sua vida de Empresário”.  De facto, a passagem da companhia que revolucionou a dança no século XX por Lisboa, em dezembro de 1917, saldou-se pelo “fracasso, pela inquietação e pelo desânimo”. O tempo não era para grandes divertimentos num país politicamente fragilizado e com um povo economicamente depauperado. A companhia e o seu diretor, foram surpreendidos pelo “golpe sidonista” que reduziu drasticamente o impacto das suas apresentações. Ainda assim, efetuaram onze representações na capital, nove no Coliseu dos Recreios, “sombrio e impessoal como um barracão de treino militar” segundo Léonide Massine, principal bailarino e coreografo da companhia; e duas no Teatro Nacional São Carlos, apressadamente reaberto ao público num precário estado de conservação. Acresce a esta desafortunada experiência o facto de, num país com uma mentalidade artística que não acompanhava a Europa civilizada, as arrojadas propostas estéticas dos Ballets Russes terem recebido críticas de “teor manifestamente desagradável”. Entre as exceções, encontrava-se o jovem Almada Negreiros que, nos meses seguintes, cria uma serie de propostas “baléticas” inspiradas no estilo da célebre companhia. A presente obra amplamente ilustrada, produto de uma profunda investigação, resgata uma história fascinante, até agora ausente de todos os livros dedicados à história dos Ballets Russes de Diaguilev, e analisa a repercussão na dança portuguesa da sua atribulada visita a Lisboa. LAE Centro de Dança de Oeiras c/ apoio da SPA

Charles Dickens

As Prescrições do Dr. Marigold

Raros foram os autores que condensaram toda uma época na sua obra. Charles Dickens (1812-1870) foi um deles: os seus livros oferecem o melhor retrato ficcionado da era da Revolução Industrial. Aos 12 anos viu o pai preso por dívidas e teve que abandonar a escola e trabalhar numa fábrica de graxa para sapatos como forma de sustentar a família. Este episódio foi determinante para lhe conferir a consciência social de que se revestem os seus escritos com os temas recorrentes do abuso infantil, pobreza, prostituição, desemprego e falta de condições laborais. Dickens escreveu aproximadamente 100 contos e novelas. O presente livro dá início a uma recolha em 6 volumes, a primeira edição a nível mundial a compilar de forma lógica a ficção curta de Dickens, incluindo as obras em colaboração editadas pelo autor. Este volume reúne as duas últimas novelas escritas por Dickens e duas sequências de contos redigidos em colaboração com Charles Allston Collins, Hesba Stretton, George Walter Thornbury, Caroline Leigh Gascoigne, Andrew Halliday, Hesba Stretton, ou a maior autora de literatura de viagens vitoriana, Amelia Edwards. LAE E-Primatur

Luísa Sobral

Nem Todas as Árvores Morrem de Pé

Depois da música e dos livros infantis Quando a Porta Fica Aberta e O Peso das Palavras, Luísa Sobral estreia-se na ficção. No prefácio, a cantautora revela “… ouço por amizade, mas guardo por profissão. (…) nada consegue ser mais inspirador do que a vida real.” E foi assim que nasceu este romance. Em maio de 2021, uma amiga partilhou com ela a notícia duma “história incrível”, em que só se sabia o fim. Luísa imaginou, e escreveu, o início dessa história. Nascida em 1964, após a construção do Muro de Berlim, M. tem uma mãe ausente e vê o pai como exemplo, até ao dia em que descobre que “por vezes o meu pai não era o meu pai.” “Cresci a confundir grandiosidade com grandeza. Afinal, eras só um homem alto.” Uma geração antes, Emmi tinha o sonho de ser bailarina, mas perde o pai na guerra e começa a trabalhar ainda jovem para ajudar a mãe. Em 1958, acaba a universidade e conhece Mischa, um homem de Berlim Leste, que trabalha para o governo, por quem se apaixona e que a leva e mudar-se para a Alemanha Oriental. Mas rapidamente percebe que o amor é cego. Ao longo de mais de 50 anos de história, acompanhamos a vida destas duas mulheres, mãe e filha, separadas por muito mais que um muro. SS Dom Quixote

Bohumil Hrabal

Todos os meus gatos

A primeira grande diferença entre este título de Hrabal e os muitos livros com gatos, que contribuem para o filão editorial, é que se trata de obra produzida por um grande escritor: literatura sem concessões a nada que não seja a verdade crua do relato e a exatidão do testemunho fortemente pessoal, obsessivo e até cruel. Outra grande diferença é que os gatos são aqui elemento quase acessório, cuja função é reforçar um traço da personalidade do autor em crise existencial, só interrompida por um acidente de automóvel que terá permitido a recuperação da estabilidade interior de que o livro resulta. Bohumil Hrabal partilhava com a natureza o cuidado com os gatos que lhe apareciam e se reproduziam na sua casa de campo em Kersko, para maior aflição da mulher que insistentemente perguntava o que iriam eles fazer com tantos felinos. Todos as semanas uma lotaria de sentimentos lhe assaltava o espírito, pois o casal Hrabal residia em Brno durante a semana, largando os gatos de Kersko à sua sorte, esperando o escritor o melhor e temendo o pior. Livro recomendado a apreciadores da grande literatura que consigam criar uma couraça que permita atravessar as páginas mais pungentes, difíceis de suportar. RG Zigurate

Mario Benedetti

A Trégua

Martim Santomé, “pessoa triste com vocação de alegre”, “rotineiro e indeciso”, tem 49 anos de idade, é viúvo, pai de três filhos adultos e trabalha “numa velha casa importadora de sobressalentes de automóveis”. A um ano da reforma, regista em diário, com sentido crítico e fina ironia, a sua existência resignada, dividida entre o trabalho (“no escritório não há amigos: há tipos que se vêem todos os dias, que embirram juntos ou separados”), a vida familiar com os filhos (marcada pela “barreira” do fosso de gerações), e a memória esvaída do seu casamento (“uma coisa boa, uma temporada alegre”). Resignação que espelha o cinzentismo e conservadorismo da Montevideu dos anos de 1950. Manifesta a sua apreensão com o “vazio” que se aproxima, embora por vezes exprima a “luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno, rico, a última oportunidade de me encontrar a mim próprio”. A chegada ao escritório de Laura Avellaneda, uma nova assistente, jovem e reservada, vai alterar as regras da sua vida, confrontando-o com sentimentos inesperados. Com ela vai viver uma paixão transgressora que lhe abre um horizonte “de plena liberdade”. LAE Cavalo de Ferro

Antonio Monegal

O Silêncio da Guerra

As guerras são universalmente percecionadas como ambientes ruidosos: explosões, disparos, rugido de motores, gritos…Porém, num aparente paradoxo, Antonio Monegal elege como preocupação central do seu mais recente ensaio a questão do silêncio: o silencio dos mortos, o silêncio daquilo que os meios de comunicação e os relatos oficiais omitem, escondem e censuram, e o silencio do “indizível, daquela parte da experiência da guerra que desafia a representação”. É, justamente, sobre a questão da guerra representada que este livro versa. A reflexão nele produzida gira em torno da forma como falamos da guerra, escrevemos sobre ela ou a vemos, ou seja, “como podemos adequar a linguagem a uma experiência que lhe escapa”. Antonio Monegal, professor catedrático de Literatura e Literatura Comparada na Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), distinguido, em Espanha, com o Prémio Nacional de Ensaio 2023, pela obra Com o Ar que Respiramos, analisa neste novo trabalho exemplos de várias artes – literatura, artes plásticas ou cinema – procurando “definir uma ética de representação da guerra capaz de fazer justiça ao indizível”. LAE Objectiva

Michela Marzano

Continuo à espera de que me peçam desculpa

“É inútil mudar-se de país quando tentamos fugir de nós próprios.” A história de Anna começa quando ela tem 11 anos e, durante uma aula, o professor de matemática lhe mete a mão no bolso das calças. Estamos em 1985. 32 anos mais tarde, em outubro de 2017, o movimento #MeToo começa a ganhar força e é nessa altura, enquanto dá aulas de mestrado em jornalismo, que os pensamentos de Anna se voltam a focar na questão do “consentimento”. A primeira vez que o marido lhe bateu não reagiu. Não se achava uma vítima e pensava que tudo o que lhe acontecia era por sua culpa. “Mas como é que as outras conseguem ser sempre respeitadas?” era uma das suas constantes inquietações. Nas aulas, recorria a casos reais – o de Harvey Weinstein, ex-produtor de filmes norte-americano condenado por crimes sexuais; o de Virginie Despendes, autora e realizadora francesa que, em Teoria King Kong, conta a história de quando foi violada por três rapazes; ou o do magnata Jeffrey Epstein, acusado de traficar e explorar raparigas – para levar os seus alunos a debater questões como abuso de poder, confiança, vulnerabilidade, igualdade de género e consentimento. Mas, Anna continuava a culpabilizar-se e à espera que lhe pedissem desculpa. SS ASA