“As crianças devem crescer com os livros”

Três perguntas a Luísa Ducla Soares

“As crianças devem crescer com os livros”

A 2 de abril celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil. Falámos com Luísa Ducla Soares, um dos expoentes da nossa literatura infantojuvenil que viu, recentemente, duas das suas obras reeditadas: Meninos de Todas as Cores (ASA) e Cada Macaco no Seu Galho (Livros Horizonte).

História da Papoila foi o seu primeiro conto infantil, em 1973. O que a levou a escrever para crianças?

Comecei, por volta dos 13 anos, por contar histórias oralmente ao meu irmão mais novo, miúdo endiabrado e imaginativo. Como ele não apreciava os livros tradicionais que havia lá por casa, resolvi inventar algo que tivesse a ver com os seus gostos, a sua irreverência, e apelasse ao sentido de humor. Para minha surpresa, gostou tanto das minhas incipientes narrativas que passou a exigir uma dessas histórias todos os dias. E fui contando, como uma “pseudo Sherazade”, episódios que se encaixavam uns nos outros, com as personagens preferidas dele. Uma dessas histórias-novelas chegou a prolongar-se por três anos. Esse meu irmão foi, não só minha primeira inspiração, mas o melhor crítico que tive até hoje. Não se inibia de alinhar ou refutar, de se manifestar com a total sinceridade que os adultos frequentemente mascaram. “Se eu me portar bem, contas-me outra amanhã, outra como esta?”. Alinhei logo porque assim escapava às maroteiras que ele engendrava e me divertia a inventar. Mas não passei a escrito os contarelos. Só rabiscava poemas…

O que há de diferente na forma de escrever para crianças?

Há quem se baseie em teorias ou as teça sobre a forma específica de escrever para os mais novos: temas inócuos, passagem de mensagens educativas, uso de linguagem específica, repetições, etc. Não tem sido o meu caso. Muito do que tenho escrito e veio a ser publicado para crianças não foi pensado para uma idade específica. Nem o fiz com intenção de publicar. Rabisquei o que na altura pensava, sentia, usando as palavras que saltavam para a minha lapiseira, para o meu computador. Se achasse que era adequado a crianças, procurava publicá-lo para elas. Claro que também tenho escrito especificamente para os mais novos, até acedendo a convites de editoras. Nesse caso ou quando dediquei textos a meus filhos, netos, a miúdos que me cativaram, procurei meter-me na pele deles, no seu pensamento, na sua sensibilidade, utilizando um vocabulário acessível. Embora, como Aquilino, eu ache que algumas palavras desconhecidas podem ter um encanto especial e funcionar como monumentos que se visitam com curiosidade na viagem que é a leitura. Quanto a temas… acho que, na realidade, todos os temas podem ser abordados com crianças, com ponderação e sensibilidade, mas eu não tenho interesse em falar de alguns, polémicos ou não. Hoje há uma crítica feroz e muitas vezes tacanha, a meu ver, em relação a alguns. Em nome de ideologias “politicamente corretas”, estão a ser mutiladas obras de notáveis escritores de literatura infantil como Roald Dahl. Há tabus a que certas editoras obrigam os autores a fugir. Mas por vezes são os livros aparentemente mais inócuos que ferem mais profundamente as crianças. Indesejável me parece infantilizar um texto como se as crianças fossem retardadas. Elas devem crescer com os livros. Também nunca gostei de escrever livros para adormecer, pois prefiro aqueles que são para acordar. Mas acredito que seja útil contar com a presença de uma figura tutelar a ler textos relaxantes que incitem a bons sonhos.

Concorda que um livro infantil não é apenas para ser lido por crianças?

Realmente concordo. Se for um livro interessante, bem escrito, fala ao adulto também e à infância que cada adulto guarda dentro de si e nunca se apaga, faz parte das suas raízes mais profundas. Muito tempo se menosprezou a literatura infantil, considerando-a uma parente pobre da literatura para adultos, menosprezando as crianças e achando que “para quem é, bacalhau basta”.