História da Papoila foi o seu primeiro conto infantil, em 1973. O que a levou a escrever para crianças?
Comecei, por volta dos 13 anos, por contar histórias oralmente ao meu irmão mais novo, miúdo endiabrado e imaginativo. Como ele não apreciava os livros tradicionais que havia lá por casa, resolvi inventar algo que tivesse a ver com os seus gostos, a sua irreverência, e apelasse ao sentido de humor. Para minha surpresa, gostou tanto das minhas incipientes narrativas que passou a exigir uma dessas histórias todos os dias. E fui contando, como uma “pseudo Sherazade”, episódios que se encaixavam uns nos outros, com as personagens preferidas dele. Uma dessas histórias-novelas chegou a prolongar-se por três anos. Esse meu irmão foi, não só minha primeira inspiração, mas o melhor crítico que tive até hoje. Não se inibia de alinhar ou refutar, de se manifestar com a total sinceridade que os adultos frequentemente mascaram. “Se eu me portar bem, contas-me outra amanhã, outra como esta?”. Alinhei logo porque assim escapava às maroteiras que ele engendrava e me divertia a inventar. Mas não passei a escrito os contarelos. Só rabiscava poemas…
O que há de diferente na forma de escrever para crianças?
Há quem se baseie em teorias ou as teça sobre a forma específica de escrever para os mais novos: temas inócuos, passagem de mensagens educativas, uso de linguagem específica, repetições, etc. Não tem sido o meu caso. Muito do que tenho escrito e veio a ser publicado para crianças não foi pensado para uma idade específica. Nem o fiz com intenção de publicar. Rabisquei o que na altura pensava, sentia, usando as palavras que saltavam para a minha lapiseira, para o meu computador. Se achasse que era adequado a crianças, procurava publicá-lo para elas. Claro que também tenho escrito especificamente para os mais novos, até acedendo a convites de editoras. Nesse caso ou quando dediquei textos a meus filhos, netos, a miúdos que me cativaram, procurei meter-me na pele deles, no seu pensamento, na sua sensibilidade, utilizando um vocabulário acessível. Embora, como Aquilino, eu ache que algumas palavras desconhecidas podem ter um encanto especial e funcionar como monumentos que se visitam com curiosidade na viagem que é a leitura. Quanto a temas… acho que, na realidade, todos os temas podem ser abordados com crianças, com ponderação e sensibilidade, mas eu não tenho interesse em falar de alguns, polémicos ou não. Hoje há uma crítica feroz e muitas vezes tacanha, a meu ver, em relação a alguns. Em nome de ideologias “politicamente corretas”, estão a ser mutiladas obras de notáveis escritores de literatura infantil como Roald Dahl. Há tabus a que certas editoras obrigam os autores a fugir. Mas por vezes são os livros aparentemente mais inócuos que ferem mais profundamente as crianças. Indesejável me parece infantilizar um texto como se as crianças fossem retardadas. Elas devem crescer com os livros. Também nunca gostei de escrever livros para adormecer, pois prefiro aqueles que são para acordar. Mas acredito que seja útil contar com a presença de uma figura tutelar a ler textos relaxantes que incitem a bons sonhos.
Concorda que um livro infantil não é apenas para ser lido por crianças?
Realmente concordo. Se for um livro interessante, bem escrito, fala ao adulto também e à infância que cada adulto guarda dentro de si e nunca se apaga, faz parte das suas raízes mais profundas. Muito tempo se menosprezou a literatura infantil, considerando-a uma parente pobre da literatura para adultos, menosprezando as crianças e achando que “para quem é, bacalhau basta”.
Camilo José Cela
A Família de Pascual Duarte
A publicação de A Família de Pascual Duarte, em 1942, deu origem ao termo “tremendismo”, tal o choque que causou. A denominação passou a definir um estilo de obras sangrentas, marcada pelo horror e crueldade, e protagonizadas por figuras animalizadas cuja personalidade se reduz ao patológico e anormal. Pascual é um homem assaltado por um sentimento de culpa edipiana e terror existencial, conflitos que resolve recorrendo à violência e matricídio. Esta criatura, “abandonada por Deus”, destinada a seguir “o caminho dos cardos e das urtigas”, para quem “o sangue é o adubo da vida”, narra a sua existência e o seu rol de crimes, numa longa e pormenorizada missiva, declarando: “A consciência só pesa quando se pratica uma injustiça: bater numa criança, matar uma pomba”. Quem é, afinal, Pascual Duarte? Um bárbaro sem remissão ou, como lhe chama o padre confessor, “um cordeiro manso encurralado e assustado com a vida”? Na sua violência e trágica fatalidade, a inesquecível personagem surge como uma impressionante premonição do destino da Espanha sob a Guerra Civil, com o seu meio milhão de mortos, e como espelho negro da subsequente repressão franquista. LAE Quetzal
António Laginha
Os Ballets Russes em Portugal
Serge Diaguilev referia-se à “aventura portuguesa” dos Ballets Russes como “o pior momento da sua vida de Empresário”. De facto, a passagem da companhia que revolucionou a dança no século XX por Lisboa, em dezembro de 1917, saldou-se pelo “fracasso, pela inquietação e pelo desânimo”. O tempo não era para grandes divertimentos num país politicamente fragilizado e com um povo economicamente depauperado. A companhia e o seu diretor, foram surpreendidos pelo “golpe sidonista” que reduziu drasticamente o impacto das suas apresentações. Ainda assim, efetuaram onze representações na capital, nove no Coliseu dos Recreios, “sombrio e impessoal como um barracão de treino militar” segundo Léonide Massine, principal bailarino e coreografo da companhia; e duas no Teatro Nacional São Carlos, apressadamente reaberto ao público num precário estado de conservação. Acresce a esta desafortunada experiência o facto de, num país com uma mentalidade artística que não acompanhava a Europa civilizada, as arrojadas propostas estéticas dos Ballets Russes terem recebido críticas de “teor manifestamente desagradável”. Entre as exceções, encontrava-se o jovem Almada Negreiros que, nos meses seguintes, cria uma serie de propostas “baléticas” inspiradas no estilo da célebre companhia. A presente obra amplamente ilustrada, produto de uma profunda investigação, resgata uma história fascinante, até agora ausente de todos os livros dedicados à história dos Ballets Russes de Diaguilev, e analisa a repercussão na dança portuguesa da sua atribulada visita a Lisboa. LAE Centro de Dança de Oeiras c/ apoio da SPA
Charles Dickens
As Prescrições do Dr. Marigold
Raros foram os autores que condensaram toda uma época na sua obra. Charles Dickens (1812-1870) foi um deles: os seus livros oferecem o melhor retrato ficcionado da era da Revolução Industrial. Aos 12 anos viu o pai preso por dívidas e teve que abandonar a escola e trabalhar numa fábrica de graxa para sapatos como forma de sustentar a família. Este episódio foi determinante para lhe conferir a consciência social de que se revestem os seus escritos com os temas recorrentes do abuso infantil, pobreza, prostituição, desemprego e falta de condições laborais. Dickens escreveu aproximadamente 100 contos e novelas. O presente livro dá início a uma recolha em 6 volumes, a primeira edição a nível mundial a compilar de forma lógica a ficção curta de Dickens, incluindo as obras em colaboração editadas pelo autor. Este volume reúne as duas últimas novelas escritas por Dickens e duas sequências de contos redigidos em colaboração com Charles Allston Collins, Hesba Stretton, George Walter Thornbury, Caroline Leigh Gascoigne, Andrew Halliday, Hesba Stretton, ou a maior autora de literatura de viagens vitoriana, Amelia Edwards. LAE E-Primatur
Luísa Sobral
Nem Todas as Árvores Morrem de Pé
Depois da música e dos livros infantis Quando a Porta Fica Aberta e O Peso das Palavras, Luísa Sobral estreia-se na ficção. No prefácio, a cantautora revela “… ouço por amizade, mas guardo por profissão. (…) nada consegue ser mais inspirador do que a vida real.” E foi assim que nasceu este romance. Em maio de 2021, uma amiga partilhou com ela a notícia duma “história incrível”, em que só se sabia o fim. Luísa imaginou, e escreveu, o início dessa história. Nascida em 1964, após a construção do Muro de Berlim, M. tem uma mãe ausente e vê o pai como exemplo, até ao dia em que descobre que “por vezes o meu pai não era o meu pai.” “Cresci a confundir grandiosidade com grandeza. Afinal, eras só um homem alto.” Uma geração antes, Emmi tinha o sonho de ser bailarina, mas perde o pai na guerra e começa a trabalhar ainda jovem para ajudar a mãe. Em 1958, acaba a universidade e conhece Mischa, um homem de Berlim Leste, que trabalha para o governo, por quem se apaixona e que a leva e mudar-se para a Alemanha Oriental. Mas rapidamente percebe que o amor é cego. Ao longo de mais de 50 anos de história, acompanhamos a vida destas duas mulheres, mãe e filha, separadas por muito mais que um muro. SS Dom Quixote
Bohumil Hrabal
Todos os meus gatos
A primeira grande diferença entre este título de Hrabal e os muitos livros com gatos, que contribuem para o filão editorial, é que se trata de obra produzida por um grande escritor: literatura sem concessões a nada que não seja a verdade crua do relato e a exatidão do testemunho fortemente pessoal, obsessivo e até cruel. Outra grande diferença é que os gatos são aqui elemento quase acessório, cuja função é reforçar um traço da personalidade do autor em crise existencial, só interrompida por um acidente de automóvel que terá permitido a recuperação da estabilidade interior de que o livro resulta. Bohumil Hrabal partilhava com a natureza o cuidado com os gatos que lhe apareciam e se reproduziam na sua casa de campo em Kersko, para maior aflição da mulher que insistentemente perguntava o que iriam eles fazer com tantos felinos. Todos as semanas uma lotaria de sentimentos lhe assaltava o espírito, pois o casal Hrabal residia em Brno durante a semana, largando os gatos de Kersko à sua sorte, esperando o escritor o melhor e temendo o pior. Livro recomendado a apreciadores da grande literatura que consigam criar uma couraça que permita atravessar as páginas mais pungentes, difíceis de suportar. RG Zigurate
Mario Benedetti
A Trégua
Martim Santomé, “pessoa triste com vocação de alegre”, “rotineiro e indeciso”, tem 49 anos de idade, é viúvo, pai de três filhos adultos e trabalha “numa velha casa importadora de sobressalentes de automóveis”. A um ano da reforma, regista em diário, com sentido crítico e fina ironia, a sua existência resignada, dividida entre o trabalho (“no escritório não há amigos: há tipos que se vêem todos os dias, que embirram juntos ou separados”), a vida familiar com os filhos (marcada pela “barreira” do fosso de gerações), e a memória esvaída do seu casamento (“uma coisa boa, uma temporada alegre”). Resignação que espelha o cinzentismo e conservadorismo da Montevideu dos anos de 1950. Manifesta a sua apreensão com o “vazio” que se aproxima, embora por vezes exprima a “luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno, rico, a última oportunidade de me encontrar a mim próprio”. A chegada ao escritório de Laura Avellaneda, uma nova assistente, jovem e reservada, vai alterar as regras da sua vida, confrontando-o com sentimentos inesperados. Com ela vai viver uma paixão transgressora que lhe abre um horizonte “de plena liberdade”. LAE Cavalo de Ferro
Antonio Monegal
O Silêncio da Guerra
As guerras são universalmente percecionadas como ambientes ruidosos: explosões, disparos, rugido de motores, gritos…Porém, num aparente paradoxo, Antonio Monegal elege como preocupação central do seu mais recente ensaio a questão do silêncio: o silencio dos mortos, o silêncio daquilo que os meios de comunicação e os relatos oficiais omitem, escondem e censuram, e o silencio do “indizível, daquela parte da experiência da guerra que desafia a representação”. É, justamente, sobre a questão da guerra representada que este livro versa. A reflexão nele produzida gira em torno da forma como falamos da guerra, escrevemos sobre ela ou a vemos, ou seja, “como podemos adequar a linguagem a uma experiência que lhe escapa”. Antonio Monegal, professor catedrático de Literatura e Literatura Comparada na Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), distinguido, em Espanha, com o Prémio Nacional de Ensaio 2023, pela obra Com o Ar que Respiramos, analisa neste novo trabalho exemplos de várias artes – literatura, artes plásticas ou cinema – procurando “definir uma ética de representação da guerra capaz de fazer justiça ao indizível”. LAE Objectiva
Michela Marzano
Continuo à espera de que me peçam desculpa
“É inútil mudar-se de país quando tentamos fugir de nós próprios.” A história de Anna começa quando ela tem 11 anos e, durante uma aula, o professor de matemática lhe mete a mão no bolso das calças. Estamos em 1985. 32 anos mais tarde, em outubro de 2017, o movimento #MeToo começa a ganhar força e é nessa altura, enquanto dá aulas de mestrado em jornalismo, que os pensamentos de Anna se voltam a focar na questão do “consentimento”. A primeira vez que o marido lhe bateu não reagiu. Não se achava uma vítima e pensava que tudo o que lhe acontecia era por sua culpa. “Mas como é que as outras conseguem ser sempre respeitadas?” era uma das suas constantes inquietações. Nas aulas, recorria a casos reais – o de Harvey Weinstein, ex-produtor de filmes norte-americano condenado por crimes sexuais; o de Virginie Despendes, autora e realizadora francesa que, em Teoria King Kong, conta a história de quando foi violada por três rapazes; ou o do magnata Jeffrey Epstein, acusado de traficar e explorar raparigas – para levar os seus alunos a debater questões como abuso de poder, confiança, vulnerabilidade, igualdade de género e consentimento. Mas, Anna continuava a culpabilizar-se e à espera que lhe pedissem desculpa. SS ASA
Entre 10 e 12 de abril, o palco principal da Culturgest dá a ver o modo como Gaya de Medeiros e colaboradores olham para o tempo presente, marcado por ansiedades geradas por conflitos que nos ultrapassam, por cenários de guerra tão distantes mas tão próximos, pela possibilidade de reconstruir lugares coletivos e íntimos ameaçados de extinção. A ideia de Cafezinho é refletir sobre o tempo e a finitude, e fazê-lo de olhos nos olhos – com os nossos e com os do mundo.
Dentro da cabeça
de 5 a 13 de abril
em cena no LU.CA – Teatro Luís de Camões
A primeira escolha da nossa convidada vai para o novo espetáculo de alguém que conhece bem: Márcia Lança. “Achei muito curioso, porque a Márcia mistura vários tipos de linguagem, e também é mãe. Traz sempre um pouco da realidade de ser mãe quando trabalhamos juntas. Imagino que tenha feito um estudo muito próximo das suas crianças para entender como alcançar, com a dança e com a performance, outras crianças e outras famílias.” Ainda sobre Márcia Lança, Gaya acrescenta que se trata de uma pessoa “muito inteligente e perspicaz na forma como coloca o discurso dela, por se tratar de uma artista mais híbrida.”
Auto das Anfitriãs
Até 13 de abril
em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros (Jardins do Bombarda)
A segunda sugestão de Gaya recai na “adaptação de uma adaptação de uma adaptação, um mito, sobre o qual Camões também escreveu”. Do elenco desta peça fazem parte duas artistas com quem Gaya já colaborou: Cire Ndiaye, “uma artista muito disruptiva”, e Tita Maravilha, “outra artista trans que admiro imenso, com uma trajetória muito peculiar”. Espetáculo produzido pelo Teatro Nacional D. Maria II, Auto das Anfitriãs tem texto e encenação de Inês Vaz e Pedro Baptista, e insere-se nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões.
Úlulu
de 3 a 5 de abril
Teatro do Bairro Alto
Raquel Lima, poeta, artista transdisciplinar e investigadora de estudos pós-coloniais, cujas pesquisas têm por foco “memória intergeracional, movimentos afro diaspóricos e práticas contemporâneas de escape, abstração e cura”, responde pela direção artística e criação da terceira proposta de Gaya. Úlulu, o nome para placenta em forro, a língua são-tomense, perspetiva, segundo a coreógrafa e bailarina, “uma abordagem pouco convencional, que gera um olhar e uma possibilidade de resignificar essas temáticas, que aponta para algum tipo de solução ou esperança”.
O realizador e argumentista Edgar Ferreira começou por trabalhar para o departamento de marketing da Fundação Calouste Gulbenkian. Inicialmente foi-lhe proposto fazer um filme que desse a conhecer o propósito da Fundação. Foi este o ponto de partida para uma colaboração que dura há alguns anos e que, em 2023, deu origem ao documentário A Soma das Partes. O filme, estreado no aniversário dos 60 anos da Orquestra Gulbenkian, contava a história do agrupamento que tem um enorme relevo no panorama musical português.
Coro, o novo trabalho do realizador, chega aos cinemas dois anos depois dessa primeira longa-metragem, também com o intuito de celebrar as seis décadas do Coro Gulbenkian, dois anos mais novo que a orquestra. Para Ferreira “é um privilégio poder trabalhar com música. Há muitos mecanismos que consigo ver nos músicos ou nos coralistas, naquilo que é o trabalho artístico deles, que identifico com o meu. Temos as mesmas preocupações, procuramos alcançar um resultado artístico e isso implica todo um esforço.”

Em Coro conhecemos os rostos e as vidas, daqueles que formam o Coro Gulbenkian, daqueles que dão voz a um dos mais conceituados grupos do género, que conta com inúmeros concertos, discos e distinções. Surpreendentemente, muitas das pessoas que o integram têm outras profissões como principal ocupação, são professores, médicos, advogados, engenheiros, mas reúnem-se várias noites por semana para ensaiar e cantar a uma só voz.
Segundo o realizador, essa particularidade era essencial explorar, “perceber como é que um coro com esta reputação e com este reconhecimento internacional é formado por pessoas que têm outras ocupações e não estão a tempo inteiro dedicadas a isto. É algo extraordinário e incomum. Há muitos coros cujos coralistas têm outras ocupações, mas há poucos com reputação internacional em que os membros no final de um dia de trabalho se dedicam a um ensaio de mais de duas horas, em prol desta obsessão artística que é a produção de música em conjunto.”
As histórias pessoais de todos os que participam no documentário são fascinantes e a dedicação e a sensibilidade que transmitem são inspiradoras. A soprano Verónica Milagres é diretora da Rádio Miúdos e membro do Grupo Musical PortuGoesas, de origem indiana, encontra uma grande riqueza na diversidade do coro. O mesmo pensa o tenor e enfermeiro, Rui Miranda. A contralto Carmo Pereira Coutinho, é advogada e desde que integrou o coro a gestão do tempo é um desafio diário. Um desafio também sentido pela soprano Filipa Passos, ginecologista e obstetra. No fim, ambas concordam que o esforço compensa. Para José Bruto da Costa, baixo e musicólogo, e para Marisa Figueira, soprano e professora de música, há uma magia e um amor à música que são quase inexplicáveis.
Outras histórias, outras pessoas ficaram de fora, era impossível incluir o testemunho de todos os elementos do coro. Edgar Ferreira confessa-nos que “se começasse a fazer o filme agora, porventura poderiam ser outras pessoas a figurar no documentário. Há muitas histórias que ficaram por contar. Poderia ser outro filme, mas o que acaba por acontecer é que estas pessoas que participam são representativas das outras. O seu perfil surge em representação de um grupo mais vasto, e isso também é bonito. Tivemos a oportunidade de mostrar o filme ao coro e muitos deles afirmaram que os colegas tinham dito exatamente aquilo que também sentiam, ou pensavam. No fim, perceber que os que ficaram de fora, se reviam no testemunho daqueles que dão a cara fez todo sentido.”
O Coro Gulbenkian teve a sua primeira apresentação pública a 27 de maio de 1964. Entre 1969 e 2020, o maestro suíço Michel Corboz, figura marcante para o grupo, foi o Maestro Titular. Com ele interpretam, muitas vezes em estreia absoluta, obras contemporâneas de compositores portugueses e estrangeiros, nomeadamente as sinfonias corais de Gustav Mahler, que exigem uma grande capacidade instrumental e coral. Compositores como Fernando Lopes Graça, Croner de Vasconcelos ou Joly Braga Santos, entre outros, integram também o repertório vocal. A partir de 2024 Martina Batic passa a ser a maestra titular, Inês Tavares Lopes, maestra adjunta, e Jorge Matta, consultor artístico.
O filme não pretende, no entanto, ser um retrato histórico, mas sim um retrato íntimo, de pessoas únicas que formam um todo e onde inevitavelmente também se refere o passado. Para o realizador, “ainda que o documentário não tenha essa retrospetiva cronológica, há momentos históricos e havia necessidade de os abordar. Defini que a visão seria sempre uma visão interior, teria sempre de partir dos coralistas. Tudo o que sabemos sobre música, sobre maestros, sobre o trabalho que fazem, são os coralistas que nos contam em discurso direto, na primeira pessoa”. E, perante o filme, o público perceberá que “a melhor forma de retratar o coro, era precisamente através da diversidade, porque nenhum deles nos diz o que o coro é, mas, todos juntos, dão-nos uma visão daquilo que o coro pode ser.”
Se motivos não faltam em Lisboa para celebrar o Dia Mundial do Teatro, a 27 de março, este ano impõe-se uma razão maior: abre ao público uma nova sala de teatro em Lisboa por iniciativa da cooperativa cultural Largo Residências, que ocupa atualmente parte do antigo hospital psiquiátrico Miguel Bombarda com um centro cultural e comunitário nomeado Jardins do Bombarda. O parceiro residente para a programação deste ano é o Teatro Nacional D. Maria II que, enquanto o edifício do Rossio é reabilitado, vai mantendo a sua atividade noutras salas desta e doutras cidades do país.
A abrir a sala que leva o nome do bailarino Valentim de Barros, um espetáculo inédito assinado por Inês Vaz e Pedro Baptista, a partir de uma das três peças de teatro atribuídas a Luís Vaz de Camões, Auto Chamado dos Enfatriões. Em bom rigor, explicam os criadores, este Auto das Anfitriãs é, tal como a peça de Camões, “uma derivação” do clássico Anfitrião, do comediógrafo latino Plauto, que por sua vez partia do episódio mitológico de Júpiter se passar por Anfitrião para usufruir de uma noite com a mulher deste, Alcmena.
“Ao reescrevermos a peça procurámos mudar alguns eixos da história que tanto Plauto como Camões contaram, repensando a Alcmena e a Bromia [a criada de Alcmena], as personagens femininas”, aqui interpretadas por Cire Ndiaye e pela própria Inês Vaz, respetivamente. Embora aqui sejam sempre personagens profundamente afirmativas, tal como no episódio mitológico, ambas acabam por ser vítimas do poder patriarcal, perpetrado tanto por deuses como por homens. Por isso mesmo, sublinha Inês Vaz, “alterámos o final da história, de modo a fazer justiça a Alcmena”, e consequentemente, dizemos nós, a todas as mulheres. Mas, para saber como poderão Alcmena e Bromia levar a melhor sobre Anfitrião/Jupiter (José Neves) e Sósia/ Mercúrio (João Grosso), só mesmo entrando na “festa”…
Entre Lena d’Água e o TikTok, há Camões
O espetáculo nasceu de um desafio de Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, por ocasião dos 500 anos do nascimento do poeta maior da língua portuguesa. “A peça de Camões foi-nos dada como objeto de trabalho”, explica Pedro Baptista, acrescentando que nunca foi intenção adaptar literalmente o Auto Chamado dos Enfatriões.
“Começámos, precisamente, por subverter o título”, recorda ao lembrar que, agora, o protagonismo está nas “anfitriãs”. Ao mesmo tempo, foram também a Plauto “para perceber como o próprio Camões tinha derivado daquela que foi a primeira tragicomédia do teatro ocidental” e imaginar como é que o poeta “pensaria hoje o nosso país”.
“Ao trazer a peça para os dias de hoje, acabámos por fazer uma mescla temporal, onde referentes aos quinhentos nos trazem uma certa ideia de Portugal e nos levam a questionar vários símbolos de uma ideia de portugalidade aos olhos do presente”, explica. Camões é assim convocado a vir à “festa”: não só estão lá dois sonetos do poeta, como há um tal de Luís Vaz a corresponder-se com a mística Bromia através de mensagens no telemóvel (entre as mais belas das palavras que evocam o amor, um ou outro emoji marcam presença). Como diz Inês Vaz, em palco “Camões é um personagem ausente, mas interveniente”.
Com a pop de Lena d’Água a abrir “a festa” (“porque nós somos um bocadinho gente da farra”, confessa divertida Inês Vaz) e canções originais d’As Docinhas e Tita Maravilha a darem som ao ritmo TikTok em que se desenrola a ação, Auto das Anfitriãs varia entre o entretenimento popular e a erudição, usando o humor para questionar assuntos sérios, como o amor e a sedução, o abuso e o consentimento, a guerra e as desigualdades.
Não esquecer que este é um espetáculo apresentado no âmbito do programa Próxima Cena, indo viajar pelo país ao encontro de novos públicos em Beja, Celorico da Beira, Fafe, Gouveia, Lagoa, Miranda do Corvo, Mirandela, Paredes de Coura, Pombal, Santarém, Sines e Vale de Cambra, destacando nestes concelhos uma série de récitas para o público escolar do 3.º Ciclo e Ensino Secundário. Razão pela qual, assume Inês Vaz, “procurámos responder com uma festa àquela ideia de que os jovens de hoje só quererem coisas rápidas. Diz-se que não há tempo para pensar muito sobre o estado do mundo, mas porque não tentar mudar isso através do teatro que é e sempre foi um lugar de questionamento?”
Auto das Anfitriãs fica em cena, em Lisboa, até 13 de abril, estando agendadas récitas para escolas a 2 e 3 de abril, mediante marcação. De 28 a 30 de março, o espetáculo tem entrada livre, sujeita a levantamento prévio de bilhetes na bilheteira do Teatro Nacional D. Maria II nos Jardins do Bombarda.
Partilha, risco, tolerância e empatia – são estas as quatro palavras escolhidas por Luís Vieira e Rute Ribeiro para definir os 25 anos de FIMFA Lx – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. “Temos desejos, sonhos, ideias e projetos, vontade e coragem, mas estes não parecem ser tempos para sonhadores. O mundo mudou. Precisamos de construir novos horizontes, recuperar a confiança, abrir a imaginação e deixarmo-nos levar pela beleza, pela poesia e pelo extraordinário. Celebrar o poder das artes da marioneta e de todos estes artistas que continuam a usar o seu poder para desafiar, inspirar e ligar-nos, sem fronteiras ou cores. Esta edição celebra uma aventura artística e presta homenagem a todos os que partilham a sua criatividade, as suas preocupações, o seu engenho, o seu humor e as suas emoções connosco e com o público”, escrevem sobre a 25.ª edição do FIMFA, que acontece de 8 de maio a 1 de junho.
Durante 25 dias, são mais de duas dezenas os espetáculos apresentados pelo festival, em várias salas de Lisboa. Como sublinha Rute Ribeiro, esta edição traz propostas bem diferentes e várias criações de mulheres. É o caso do espetáculo de abertura, no Teatro São Luiz: Uma Casa de Bonecas, inspirado na peça de Henrik Ibsen, encenado por Yngvild Aspeli, de quem já vimos Moby Dick, na edição de 2021, hoje considerada uma das principais figuras mundiais das artes da marioneta. Uma peça com marionetas de tamanho humano, com as quais contracena, e que traz a Lisboa com a sua companhia Plexus Polaire.
Outra adaptação de um clássico é A Sagração da Primavera, dos italianos Dewey Dell, que sobe ao palco do Teatro Variedades, em coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II. “Um coletivo que há muito tempo queríamos trazer ao festival”, aponta Rute Ribeiro, falando destes criadores (três deles, filhos do dramaturgo e encenador Romeo Castellucci) que põem em cena a obra de Stravinsky com figurinos inspirados em insetos.

Também em destaque, Epidermis Circus: The Weirdest Puppet Show You’ve Ever Seen, da companhia canadiana SNAFU – Society of Unexpected Spectacles, que “mistura teatro de objetos e projeção ao vivo, explorando o corpo humano de forma surreal e provocadora”. Entre os artistas portugueses, haverá espetáculos d’ A Tarumba (Luís Vieira e Rute Ribeiro apresentam Dramas Curtos em Miniatura), do Teatro de Marionetas do Porto, da companhia Limite Zero, de Sonoscopia & Teatro do Ferro e de Ricardo Ávila com o Vumteatro. Ao todo, são 13 os países no FIMFA, que mostram marionetas e formas animadas tão diferentes como robots aspiradores, facas voadoras, ovos e galinhas (afinal, quem nasceu primeiro?) ou marionetas microscópicas.
Em palco, as artes performativas unem-se à pintura, ao vídeo, à ciência e à literatura. Quase parece não haver limites. Como afirmam Rute Ribeiro e Luís Vieira, “criadores de várias latitudes, e sem medo de arriscar, partilham a sua visão do mundo, despertam emoções e questões, através de propostas artísticas multiformes e invulgares. Os artistas convidados jogam com os sentimentos, o que liga as pessoas, a sua relação com os sítios e os objetos. Observam o mundo. Mostram outras formas de ver e apreender o que está ao nosso redor”.
25 anos depois, o FIMFA continua a abrir horizontes em Lisboa. “Ainda estamos aqui!”, garantem os seus diretores artísticos. E nós, com eles. É estudar a programação e preencher a agenda de maio.
No Teatro Variedades está-se em contagem decrescente para a estreia da muito aguardada versão portuguesa de Rent. O famoso musical de Jonathan Larsson sobe ao palco da renovada sala de espetáculos do Parque Mayer a partir de 26 de março, numa grande produção da MTL – Musical Theater Lisbon, estrutura fundada por Martim Galamba, Rúben Madureira e Sissi Martins, que aqui encena e interpreta a personagem de Mimi Márquez. Nome incontornável do teatro musical português, Sissi fez formação em Nova Iorque, onde teve como tutores Evan Pappas, Ray Virta, Regina Omalley e Wendy Sharp. Ao longo da sua já vasta carreira, a atriz natural de Vila Nova de Gaia trabalhou com encenadores como Filipe La Féria, Ricardo Neves-Neves ou António Pires, destacando-se, recentemente, a sua interpretação de Laura Alves em Laura – O Musical.
Celebrar o Dia Mundial do Teatro
27 de março
Vários locais
Para esta quinta-feira, dia em que se celebra o Teatro e os artistas que o fazem, Sissi sugere “uma visita ao Museu do Teatro e da Dança”. Ali, está patente a exposição Aplauso – 40 anos a celebrar o espetáculo, que revisita quatro décadas da história do museu evidenciando a sua contribuição para a preservação da memória cultural do país, através do legado de grandes figuras, dos espetáculos mais marcantes e das transformações que moldaram o teatro, a dança e a música em Portugal, dos finais do século XIX até aos dias de hoje. “Depois, sugiro uma ida ao teatro. Haverá atividades por toda a cidade de Lisboa no âmbito desta comemoração”, e algumas delas de entrada gratuita, como é o caso do CCB ou do Teatro da Trindade.
Paris is Burning
Filme de Jennie Livingston
Disponível em streaming no You Tube e MUBI
O documentário de culto de Jennie Livingstone, premiado no Festival de Sundance em 1991, é assumido por Sissi como “uma das grandes inspirações para a criação de Rent”. Filmado em Nova Iorque ao longo de quase toda a década de 1980, Paris is burning é um retrato vibrante da cena drag e transgénero afro-americana e latina do Harlem, percorrendo os clubes de voguing e oferecendo um panorama sobre o modo como a comunidade LGBT+ se debateu com a epidemia de SIDA e com o racismo, a pobreza, a violência e a homofobia na América de Reagan.
A Verdade sobre o Caso Harry Quebert
Romance de Joël Dicker
Alfaguara
É um caso de sucesso, este do escritor suíço Joël Dicker, que se tornou um fenómeno mundial pelos seus thrillers envolventes e viciantes. “Comecei com A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”, diz-nos Sissi que, desde o romance que revelou Dicker nunca mais conseguiu parar de o ler.
The Marvelous Mrs. Maisel
Série criada por Amy Sherman-Palladino
Disponivel em streaming na Prime Video
A premiada série protagonizada por Rachel Brosnahan é, para a atriz Sissi Martins, “um relato honesto do que significa ser mulher, mãe e artista numa indústria como a nossa”. Situada na efervescente Nova Iorque das décadas de 1950 e 1960, a série gira em torno de Mirian “Midge” Maisel, uma judia nova-iorquina que, após o divórcio, abandona a sua versão de dona de casa e abraça uma carreira como comediante. Para além disto, The Marvelous Mrs. Maisel “tem uma essência musical que me faz vibrar!”, confessa.
Hamilton- An American Musical
Musical de Lin Manuel Miranda
Disponível em streaming no Spotify, Apple Music e outras
E, para terminar, como não poderia deixar de ser, Sissi convida-nos a eleger como banda sonora para esta semana um musical da Broadway (que não Rent, porque esse é para ver e ouvir ao vivo, e em português, no Parque Mayer). “Recomendo ouvir no carro várias vezes o álbum Hamilton- An American Musical até não se aguentar mais… e ter de comprar viagem para assistir a este musical.”
A Festa do Cinema Italiano atingiu a maioridade e, confirma-se, esta 18.ª edição é, muito provavelmente, a mais política de sempre. O mote surge logo na sessão de abertura, a 9 de abril no Cinema São Jorge, com a antestreia em Portugal de A Grande Ambição (Berlinguer – La grande ambizione). A vida de Enrico Berlinguer, fundador do eurocomunismo e histórico secretário-geral do Partido Comunista Italiano entre 1972 e 1984, ano da sua morte, é revisitada na mais recente obra do realizador Andrea Segre.
Para o diretor artístico da Festa, Stefano Savio, “o belíssimo filme de Segre é uma homenagem a uma figura ímpar da política italiana, homem que procurou encontrar compromissos e consensos entre diferentes forças políticas em plena Guerra Fria”. Protagonizado por Elio Germano, o filme centra-se no período da década de 1970, compreendido entre a viagem a Sofia, em que Berlinguer sofre um atentado ainda hoje envolto em mistério, e o discurso na Festa dell‘Unità em Genova, em 1978, proferido na sequência do assassinato do líder da democracia-cristã Aldo Moro, e que, de certo modo, significou o fracasso da estratégia política do líder daquele que era, à época, o maior partido comunista da Europa ocidental.

Da década de 70 para os anos de 1980, o encerramento da edição lisboeta do festival – não esquecer que a Festa corre o país de lés a lés, e este ano passa por mais de duas dezenas de cidades do continente -, a 17 de abril também no Cinema São Jorge, faz-se, segundo Savio, com “um Boggie Nights à italiana” (referência ao filme de 1997 de Paul Thomas Anderson).
Estreado no último Festival de Roma, Diva Futura – Cicciolina e a Revolução do Desejo, da realizadora italo-americana Giulia Louise Steigerwalt, acompanha o quotidiano da agência de modelos de Gianni Schicchi, responsável pela fama de duas estrelas porno que, anos mais tarde, agitariam a política italiana: Ilona Staller, conhecida mundialmente como Cicciolina, fundadora do Partido do Amor e ex-mulher do artista norte-americano Jeff Koons; e Moana Pozzi, que no início da década de 1990 concorreu à presidência da câmara de Roma.
“Pereira sono io!“
Para assinalar o centenário de il divo Marcello Mastroianni (1924-1996), a Festa do Cinema Italiano preparou toda uma programação especial que inclui, além da exibição de filmes, duas exposições de fotografia sobre o percurso daquele que foi um dos atores mais famosos do cinema europeu.

A primeira, patente no Cinema São Jorge durante a Festa, intitula-se Marcello come here… Cent’anni e oltre cento volte Mastroianni [Marcello anda cá… cem anos e mais de cem vezes Mastroianni] e reúne mais de uma centena de imagens, todas em grande formato, do arquivo fotográfico da Cineteca Nazionale. A segunda chega como complemento à exibição do documentário de Anna Maria Tatò, Mi recordo, sì io mi recordo, “verdadeiro testamento artístico e espiritual” do ator, rodado em Portugal durante as filmagens da sua última longa-metragm: Viagem ao Princípio do Mundo, de Manoel de Oliveira. Através de um conjunto de fotografias de diversos arquivos nacionais e internacionais, revisita-se o percurso do ator em Portugal, país onde, além do filme de Oliveira, protagonizou, pouco tempo antes, Afirma Pereira, do realizador Roberto Faenza.
É precisamente para assinalar os 30 anos do filme de Faenza, adaptação da novela homónima de Antonio Tabucchi, que a Festa abre uma secção intitulada Pereira sono io!, onde se reflete sobre a ligação que Mastroianni estabeleceu com Portugal na derradeira fase da sua profícua carreira. A propósito do título deste espaço de programação, conta Stefano Savio que a exclamação “Pereira sono io!” terá sido proferida pelo ator ao próprio Tabucchi quando acabou de ler o livro e soube da intenção de o adaptar ao cinema.
Esta e outras histórias podem ser escutadas com maior pormenor a 16 de abril, contadas por Roberto Faenza. O realizador estará em Lisboa para acompanhar a projeção do filme e a estreia mundial do documentário Sostiene Pereira 30, de Augusto Pelliccia, que assinala o 30.º aniversário da sua estreia.

Mas não é tudo. O centenário de Mastroianni traz à Festa, em antestreia nacional, o novo filme de Christophe Honoré, Marcello Mio, com Chiara Mastroianni a protagonizar “uma comédia surreal onde a própria vive como se fosse o seu pai”; e o regresso ao grande ecrã de dois filmes emblemáticos do ator: 8 1/2, de Federico Fellini, e Una giornata particolare, de Ettore Scola (em exibição entre 11 e 14 de abril no Cinema Fernando Lopes).
Ainda sobre a memória dos anos fulgurantes do cinema italiano, o escritor e argumentista Francesco Piccolo, autor do livro La Bella Confusione, vai estar na Festa, a 12 de abril, “para contar episódios que se passaram em 1963 entre os sets de O Leopardo [de Luchino Visconti] e 8 1/2 de Fellini, com Claudia Cardinale a ser disputada por dois realizadores que não simpatizavam nem um pouco um com o outro”.
O “desconhecido” Pietrangeli e o foco
no cinema do cantão Ticino
No âmbito da Festa, começa já no dia 1 de abril, na Cinemateca Portuguesa, a retrospetiva Antonio Pietrangelie, esse desconhecido com a exibição de Il sole negli occhi. Segundo o subdiretor da instituição, Nuno Sena, “trata-se de um dos grandes mestres do cinema italiano, cuja filmografia merece ombrear com a de outros autores de relevo na Itália das décadas de 1950 e 60, mas cuja morte prematura terá, de certo modo, secundarizado”.
“Cineasta das mulheres”, por ter sido “alguém que filmou a condição feminina como poucos, desconstruindo simultaneamente os mitos associados à masculinidade”, esta retrospetiva é constituída pelas 13 longas-metragens que Pietrangelie dirigiu entre 1953 e 1968, ano da sua morte. Obras como Adua e le compagne, com a francesa Simone Signoret, Anuncio de Casamento, filme que deu a Sandra Milo a interpretação da sua vida, e Io la conoscevo bene, com a inesquecível Stefania Sandrelli, confirmam Pietrangelie como “um dos autores que melhor fez a transição entre o neorrealismo e a commedia all’italiana“.

Outro “desconhecido” com destaque nesta edição é o cinema suíço de língua italiana. Com a colaboração da Swiss Film, do Festival de Locarno e da Embaixada da Suiça, a Festa traz a Lisboa o aplaudido documentário sobre a imigração La prodigiosa trasformazione della classe operaia in stranieri, do realizador iraquiano Samir, e a desconcertante comédia Bon Schuur Ticino, de Peter Luisi, sobre uma revolta da população de Ticino contra a obrigatoriedade de falar francês. Na secção Il Corto, são exibidas um conjunto de curtas originárias deste cantão suíço.
Para além da secção Panorama, dedicada aos grandes sucessos do cinema italiano do ano passado, a Festa inclui, entre outros, uma secção competitiva, com primeiras e segundas obras; a secção Sombras, que este ano combina arquivo histórico e documental com videoarte em torno dos processos de descolonização português e italiano; e um conjunto imperdível de filmes-ópera, onde se destaca a arrebatadora visão de La Traviata, de Verdi, por Mario Martone.
Compositor, músico, performer e artista multidisciplinar, Fernando Mota confessa que sai pouco de casa. Não quer isso dizer que tenha uma vida cultural pouco intensa, já que há muito que se pode fazer sem pôr um pé na rua. Esta semana, no entanto, há de estar no Centro Cultural de Belém, onde estreia, no dia 18, o novo espetáculo, que depois levará em digressão pelo país. Antes da Chuva Sopra o Vento “cruza a dança contemporânea com informática musical, utilizando instrumentos experimentais e objetos sonoros criados a partir de árvores, rochas, água e outros materiais naturais”, descreve. “É sobre como os nossos corpos juntos formam um grande corpo. Sobre como os nossos seres vêm de outros seres, como somos parte de uma consciência coletiva interdependente. Um corpo comum.” Um espetáculo em que divide o palco com Carlota Fairfield Oliveira e José Grossinho, rodeados por uma plateia circular, que promove o encontro. A pouco mais de um mês de se apresentar no Japão, na Expo 2025 Osaka, deixa aqui algumas sugestões para aqueles que, como ele, são mais caseiros (e para todos os outros também).
MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa
20 a 30 março
Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Museu da Marioneta
É um dos festivais favoritos de Fernando Mota e começa já esta semana. “Ainda por cima organizado por um querido amigo homónimo, o Fernando Galrito”, sublinha o músico. “Já lá toquei, fui júri, vi filmes com bandas sonoras minhas”, conta. Todos os anos, é programa certo, em família, com os filhos – “ainda gatinhavam e já viam por lá filmes de animação do mundo inteiro”. Este ano, revela, há uma sessão especial, que não vai perder: “Vou ver pela primeira vez na grande tela, o filme O rapaz que apagava beijos, da Radostina Neykova e do Fernando Galrito, com música da minha autoria”.
No Other Land
de Basel Adra, Rachel Szor, Yuval Abraham e Hamdan Ballal
Cinema Ideal e em streaming na Filmin Portugal
Obrigatório ver, para Fernando Mota, é o filme No Other Land: “Um retrato cru e angustiante acerca da brutalidade e imoralidade da ocupação e limpeza étnica que os israelitas impõem às terras e populações palestinianas há mais de sete décadas, com o financiamento dos EUA e a indiferença da Europa”, descreve. “Apesar de ter acabado de vencer o Oscar de Melhor Documentário, não houve nenhum distribuidor norte-americano a exibi-lo até agora”, lembra. Por cá, é possível vê-lo em casa ou numa sala de cinema de Lisboa.
Do Claro ao Breu, de Sopa de Pedra
Lovers & Lollypops
Para banda sonora desta semana (ou das próximas), Fernando Mota sugere um disco do coletivo Sopa de Pedra. “Já tem uns dois ou três anos, mas continua a visitar frequentemente o meu carro, sobretudo em viagens mais longas fora das autoestradas. É de um dos meus grupos de música portuguesa favoritos, as Sopa de Pedra, coro feminino do qual fazem parte as minhas amigas Teresa e Inês Campos e Inês Melo. O primeiro disco já tinha arranjos e interpretações de um grande bom gosto e subtileza. Este viaja por territórios mais exploratórios e misteriosos. Sou fã.”
Torrões de Terra, de Manuel Zimbro
Assírio & Alvim
O livro está esgotado nas livrarias e na editora, mas pode ser encontrado nas Bibliotecas de Lisboa, começa por avisar Fernando Mota. “Sou um péssimo leitor e a maior parte dos livros que leio acabam por estar relacionados com os temas que estou a pesquisar para algum projeto de criação. Este é um deles. Um estranho livro de poesia e guaches, em formato de disco para, segundo o autor, ser guardado ao lado da música na casa de cada um. De um enigmático artista plástico e poeta, que colaborou com René Bertholo e Lourdes de Castro, tendo sido companheiro desta nos seus últimos anos de vida, as suas palavras têm exercido uma grande ressonância nas minhas explorações sonoras e visuais e na forma como observo e escuto o mundo.”
Metamorphosis, de Emanuele Coccia
Ainda sem edição portuguesa
Fernando Mota descobriu o filósofo Emanuele Coccia ao ler o seu livro A Vida das Plantas, editado por cá pela Documenta. “Tem sido um colaborador involuntário em praticamente todos os meus processos criativos. O facto de ter estudo botânica e depois disso filosofia dá-lhe um olhar totalmente novo acerca dos fenómenos naturais e acerca da perceção que temos sobre aquilo a que chamamos natureza, vida ou biologia”, nota o músico. “Este Metamorfoses chamou a minha atenção porque o tema da transformação e da memória tem estado muito presente na minha vida e no meu pensamento.”
“Picado de génio e das bexigas”, lê-se como legenda da caricatura de Camilo Castelo Branco no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro. O génio do escritor deu origem a uma obra torrencial com duas tendências essenciais: a novela satírica de costumes e a novela passional. As bexigas que lhe desfeavam o rosto não impediram uma acidentada vida sentimental que foi a mais importante fonte da novela camiliana. Após vários amores tumultuosos, apaixona-se por Ana Plácido (esposa do negociante Manuel Pinheiro Alves), que seduz e rapta. Capturados e presos na Cadeia da Relação do Porto, são julgados e absolvidos do crime de adultério. Depois de vários anos de vida em comum, Camilo casa finalmente com Ana Plácido em 1888. Atormentado pela morte do filho predileto e pela progressiva e crescente cegueira, suicida-se em 1890.
A 16 de março celebra-se o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Evocando o grande escritor, traçámos um breve retrato de seis dos seus personagens, escolhidos, entre tantos outros, do seu impressionante universo romanesco. Procurando, nesta tão difícil seleção, um justo equilíbrio entre livros mais e menos conhecidos do grande público, estes textos, acompanhados das respetivas ilustrações de Inês do Carmo, pretendem contribuir para suscitar o interesse na leitura da extraordinária obra do autor. Porque, como escreveu Camilo, com o seu humor característico, “a mocidade ou não lê nada, ou lê livros moderníssimos e detesta os clássicos, porque estes os ensinam a escrever corretamente.”
“A verdade na novela é a minha religião;
e aposto eu que muitas religiões
são menos verdadeiras que as minhas novelas.”
Mariana
“Ninguém o amará como eu: ninguém lhe adoçará as penas
tão desinteresseiramente como eu fiz.”
Amor de Perdição (1862)
Escrito na Cadeia da Relação do Porto, em 15 dias, Amor de Perdição é o mais célebre dos romances de Camilo. Obra que o filósofo Miguel de Unamuno considerava “a novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península e um dos poucos livros representativos da nossa comum alma ibérica”.
A intriga centra-se nos amores contrariados dos jovens Simão Botelho e de Teresa de Albuquerque, vítimas da rivalidade entre famílias fidalgas. O facto do título em tudo corresponder à situação do autor e da sua amante Ana Plácido, à época encarcerados pelo crime de adultério, não passou despercebido, estimulando a curiosidade dos leitores.
Num golpe de génio, Camilo introduz uma terceira personagem, Mariana, filha do ferrador João da Cruz, “formosa rapariga da aldeia”. Símbolo eloquente do amor-renúncia, Mariana é a amante silenciosa, abnegada e fiel. Camilo salienta a formusura da “gentil criatura”, dos seus “grandes olhos azuis” e do seu “sorriso triste” e qualifica-a de “nobre rapariga”, apesar da sua condição popular. Confidente apaixonada de Simão, serve generosamente de intermediária entre ele e Teresa, acompanha-o na prisão e sacrifica-se para o seguir no degredo. Após a morte de Simão no decurso da viagem, suicida-se abraçando o seu cadáver lançado ao mar, morrendo “sem ter ouvido ‘amor’ dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão”.
Silvestre da Silva
“Ao terceiro ano de casado,
Silvestre formava com o peito e abdómen um arco.”
Coração, Cabeça e Estômago (1862)
Silvestre da Silva, o herói de Coração, Cabeça e Estômago, motivado pela experiência acumulada ao longo da vida, decide dedicar os seus últimos anos exclusivamente aos prazeres da gastronomia, desiludido com as inconstâncias amorosas e com a futilidade do combate das ideias.
Camilo constrói a narrativa como uma pretensa autobiografia que descreve a vida do herói nas três fases que correspondem ao título da obra. Na primeira fase (Coração), relata os sete amores desafortunados do protagonista. Na segunda fase (Cabeça), dá conta dos seus infortúnios no meio intelectual e jornalístico. Por fim, na terceira fase (Estômago), descreve o seu retiro no campo, a sua estreia na carreira política, o seu casamento com uma morgada e a sua entrega aos prazeres da boa mesa.
O herói sintetiza a sua existência terrena num delicioso soneto de despedida: “(…) Cabeça e coração senti sem vida, / No estômago busquei uma alma nova (…) / E por muito comer eu desço à cova!” Apesar do tom jocoso, a obra narra a constante procura do protagonista de um sentido e propósito para a vida.
As suas contradições e perplexidades perante um mundo em transformação refletem, afinal, as do seu criador que, consciente do momento de transição literária em que vivia, adivinhava no esgotamento da fórmula romântica a possibilidade do surgimento de algo novo. Por isso, Abel Barros Baptista considera esta obra “uma experimentação pioneira na irrisão do sentimentalismo a partir de dentro. E também de fora, claro”.
Calisto Elói
“Não sou homem de salvas e rodeios;
digo as coisas à moda velha.”
A Queda de um Anjo (1865)
Divertidíssima sátira política sobre a vacuidade da oratória parlamentar e a indiferença governativa aos grandes problemas da maioria. O inesquecível protagonista, Calisto Elói de Silos Benevides de Barbuda, um fidalgo transmontano, austero e conservador, é uma encarnação paródica do país: eleito deputado, Calisto vem viver para Lisboa, onde se deixa corromper pelo luxo e pelo prazer que imperam na capital.
Na composição e definição do personagem, Camilo é minucioso na descrição dos detalhes do seu trajar arcaico e conservador (“o chapéu armado, calção de tafetá”, “gola e portinholas da casaca eram sérias demais e calças rematando em polainas abotoadas de madrepérola”). Aliás, a contaminação da personagem e os indícios da sua queda expressam-se exteriormente através da primeira visita a um alfaiate lisboeta. Esta transfiguração exterior representa, por um lado, a forma como as roupas refletem as normas sociais, a superficialidade da vida e a importância dada às aparências e, por outro, traduz a metamorfose moral e as alterações no discurso e comportamento do deputado (que transita da oposição miguelista para o partido liberal no governo).
A Queda de um Anjo retoma um dos temas constantes na novelística camiliana, o conflito entre a cidade o campo. É, segundo Alexandre Cabral, autor do Dicionário de Camilo Castelo Branco, um romance jocoso em que o escritor se diverte e “aproveita para dar uns bons sopapos nos peralvilhas da cidade”.
Rui Gomes de Azevedo
“O moço é que era
a pureza e estreme honra.”
O Senhor do Paço de Ninães (1867)
Romance histórico que tem como pano de fundo as lutas de D. António, Prior do Crato e a ação dos portugueses na Índia. Apesar da trama decorrer no Minho no século XVI (“Estamos no Minho, o leitor e eu”, assim se inicia a narrativa), algumas das personagens vão percorrer o mundo (Espanha, França, Inglaterra e Oriente) pela pena de um escritor que nunca saiu de Portugal, mas que evidencia assinalável conhecimento dos ambientes, costumes e comportamentos da época.
A obra tem por base um (inevitável?) amor contrariado. Rejeitado pelo pai da noiva, o jovem Rui Gomes de Azevedo deixa o Minho, vem para Lisboa, combate no norte de África em Alcácer Quibir e toma partido por D. António, Prior do Crato, na sucessão ao trono. Desiludido, parte para a Índia, onde assiste às rapacidades e atrocidades dos seus compatriotas. Rui surge na sua “inocência genuína” como personificação idealizada dos valores e costumes austeros dos antepassados (“da casta dos nossos avós”), postos em causa com o movimento da expansão e pelas novas gerações que os “trocaram pela glória da Índia”.
O herói assume uma perspetiva que lembra a do Velho do Restelo revelando o lado negro da expansão ultramarina: os vícios, a crueldade e a ganância do colonialismo português. Camões referiu-se à Goa portuguesa, por experiência própria, como “mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados”; Camilo, por intermédio do seu herói ficcional, reitera essa visão, escrevendo: “A honra aqui é planta que se mirra e fenece”.
Angélica Florinda
“Tanta razão tem o povo em me chamar
bruxa como santa.”
A Bruxa do Monte Córdova (1867)
Ambientada durante o período da guerra civil que ocorreu entre 1831 e 1834, e opôs liberais a absolutistas, a novela relata uma história de amor trágico que reflete a época conturbada que se vivia.
Angélica Florinda, “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida com Tomás de Aquino. Amores contrariados que acompanham e se entrelaçam com os eventos históricos da guerra civil. Depois da morte do amante, no campo de batalha, Angélica, entretanto mãe solteira, acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga. Refugiada num convento, guiada espiritualmente por Frei Silvestre, é acometida por culpas e fervores religiosos, responsabilizada pela morte de Tomás (por com ele se ter unido em pecado) e forçada a repudiar o filho ilegítimo. Angélica Florinda vive um processo longo e tormentoso de penitência até que, aos “quarenta e cinco anos, com parecenças de sessenta” se refugia numa choupana na serra, a um quarto de légua da aldeia de Caparães, onde granjeia fama de exorcista. A bruxa de Monte Córdova passa a atrair “não só homens, mulheres e crianças endemoinhadas, mas também o gado (…), para a todos estes irracionais curar de enfermidades excedentes do alcance das ciências médicas”.
Através do destino trágico da comovente Angélica, Camilo acusa o fanatismo religioso, a pregação fradesca e a intolerância política, da influência que exerceram na carnificina da guerra civil.
Ângela
“Aquilo é mulher finória e soberba.”
Os Brilhantes do Brasileiro (1869)
A narrativa questiona a fidelidade de uma mulher, posta em causa por vender alguns dos seus brilhantes sem dar conhecimento ao marido. A fidalga Ângela de Noronha de Antas vive um amor contrariado pelo plebeu Francisco José da Costa. Aos 20 anos de idade, forçada pelo pai em difícil situação económica, aceita com relutância casar com o brasileiro Hermenegildo Fialho, 26 anos mais velho. Porém, nunca esquece o seu primeiro e único amor. Descoberta a vender cinco brilhantes da pulseira, prenda de noivado, recusa-se com altiva dignidade a dar qualquer esclarecimento ao marido e abandona o lar conjugal sem nada, recusando até o dote que o noivo lhe fizera.
Diferente das protagonistas habituais de Camilo, a fascinante personagem de Ângela recusa submeter-se à autoridade patriarcal e às convenções socias e morais vigentes, agindo unicamente de acordo com a sua consciência e assumindo inteira responsabilidade dos seus atos. O escritor denuncia uma sociedade machista que submetia a mulher, ao longo da sua vida, à total obediência perante as figuras masculinas, primeiro o pai, depois o marido. “Você sabe bem que nós, os homens, não somos mulheres. Elas têm outra casta de obrigações. Se a mulher for igual ao marido, então não há honra nem vergonha neste mundo”, profere Hermenegildo.
Confirmando que há muito da biografia de Camilo nas suas ficções, Alexandre Cabral considera que “o autor, ao descrever Ângela, está a imprimir-lhe a altiva rebeldia de Ana Plácido”.
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