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Há cães e gatos à solta na Quinta Alegre
A ilustradora Joana Estrela expõe desenhos do novo livro “Ão ão!”
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Depois de Miau!, Joana Estrela volta à coleção mini micro da Planeta Tangerina com Ão ão!, título que acaba de chegar às livrarias. Até ao final de março, é possível espreitar alguns desenhos dos dois livros e conhecer um pouco do seu processo de criação numa exposição na Quinta Alegre.
Por estes dias, as bonitas pinturas murais das paredes e tetos da Quinta Alegre – Palácio do Marquês do Alegrete, em Santa Clara, convivem com desenhos bem diferentes. Até 28 de março, Joana Estrela mostra ilustrações do seu novo livro Ão ão! e também daquele que lhe antecedeu, Miau!. Bandas desenhadas silenciosas, em que as únicas palavras dão conta de sons do enredo, os títulos da coleção mini micro da Planeta Tangerina nasceram de um desafio feito à ilustradora para que criasse histórias sobre a relação entre as crianças e os seus animais de estimação.
Depois de Miau!, um livro azul e branco sobre os dois gatos de Joana, chega agora Ão ão!, a verde e branco, que acompanha a aventura de uma menina numa quinta, para onde vai com a família e os seus dois gatos (sim, exatamente esses) e onde encontra um cão com quem descobre a vida no campo. Para a desenhar, fez uma residência artística de um mês em França, num santuário de animais abandonados e resgatados. “Sou mesmo uma pessoa da cidade e nunca tinha estado assim numa quinta. Queria descobrir como era a vida lá, sem partir do princípio que sabia como ia ser”, diz.
Na L’Autre Ferme, um lugar “no meio do nada, onde não havia nada à volta”, Joana acabou por se aperceber de muitos dos pormenores que, com a sua graça habitual, transportou para as páginas de Ão ão!: o barulho dos sapatos a pisar as folhas secas, as tocas subterrâneas e as orelhas dos coelhos, as lambidelas das vacas, as cabeçadas e os espirros dos carneiros (“não sei se são todos assim, mas os carneiros de lá espirravam mesmo!”), as bicadas das galinhas, os voos das borboletas e das libelinhas, o prazer de conduzir um carrinho de mão pelo feno ou o de fazer xixi ao ar livre e, claro, a animação constante da cadela, que não a largou nunca e que gostava de correr atrás de uma bola, de mergulhar no lago e de perseguir esquilos.
“Trabalhei imenso, aquele sítio foi uma inspiração tremenda. Observava e desenhava as coisas que via. Aos poucos, fui tendo ideias e fui desenhando. O livro não ficou finalizado nesse mês, mas ficou quase todo planeado enquanto lá estive”, revela.
A esta narrativa juntou também o episódio em que um dos gatos se perdeu e foi encontrado, já de noite, no cimo de uma árvore ou aquilo que aprendeu sobre a necessidade de existirem, na quinta, trilhos que os animais selvagens possam atravessar, para não terem de seguir pelas estradas, correndo o risco de serem atropelados. Tal como já fizera antes, conta esta história quase só com desenhos – as únicas palavras que usa são as onomatopeias dos sons dos animais e de algumas das ações.
Para a Quinta Alegre, Joana trouxe três sequências de seis ilustrações de Ão ão! e Miau!, criadas para uma exposição que apresentou em Bruxelas. “São falsos originais, porque desenhei de forma digital. Tanto num livro como no outro, estava fora de casa e acabou por ser prático usar o ipad para desenhar. Então, decidi fazer uma espécie de originais falsos a partir dos livros. Mas quis que fossem obviamente falsos, porque ninguém vai pensar que fiz desenhos tão grandes para o livro… Ao mesmo tempo, são originais, que fiz”, explica. Na verdade, acabam ainda por ser uma oportunidade de ver o seu traço ampliado e até de descobrir detalhes que podem passar despercebidos nas páginas dos livros.
Num dos expositores desta mostra estão também alguns rascunhos iniciais, desenhados à mão em folhas A4, em que estudou as posições, os movimentos e a anatomia dos animais e das restantes personagens. Numa outra sala, é exibido um vídeo animado do programa em que Joana desenha as ilustrações digitais, lado a lado, com filmagens que fez na quinta – aí podemos conhecer muitos dos animais da L’Autre Ferme e, como não podia deixar de ser, a cadela Nana, que acabou por se impor nesta história como protagonista.
A exposição tem, ainda, uma zona onde os visitantes podem colorir um gato, porque eles não têm de ser sempre pretos ou brancos, mas “podem ter outras cores e padrões”; e onde se podem registar as onomatopeias que se conhecem em balões de fala de várias formas. Desde o “miau” do gato e o “ão ão” do cão, este livro dá-nos ideias para muitas outras: o “bang” de uma porta a bater, o “tac tac tac” de uma faca a cortar legumes ou o “crunch crunch crunch” de um coelho a comer – são esses alguns dos sons que se “ouvem” por estas páginas cheias de animais felizes. Agora, muitos deles andam à solta nesta outra quinta, que é alegre até de nome.