Ellie Ga e Karin Monteiro
Pedreiras/Quarries
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O que fazer com as pedras extraídas das pedreiras? Podem ser utilizadas para erguer monumentos maciços de poder e glória, como o que Salazar ergueu ao longo do rio Tejo para celebrar os conquistadores do Império Português. Ou podem ser dispostos horizontalmente em pequenos fragmentos a preto e branco para desenhar todo o tipo de formas e figuras.
Ellie Ga coloca esta oposição no centro do seu filme e escolhe claramente o seu lado: o dos trabalhadores das calçadas de Lisboa e do seu ofício em vias de desaparecimento. Pedreiras/Quarries forma um díptico com Gyres (exibido na ZDB em 2021), utiliza o mesmo método: o ecrã é como uma mesa de luz em três partes, as mãos e a voz da artista são as suas ferramentas para uma performance de pensamento coreografado.
O movimento das imagens que vêm, vão, deslizam, são justapostas ou sobrepostas, corresponde ao ritmo do seu discurso. Tudo é aplanado, confiado à navegação do pensamento, ou a uma simples enunciação de factos expressa numa voz monótona – tal como as mãos distribuem calmamente as imagens, ou Jorge, o artesão da calçada, organiza as pedras pretas e brancas.
Enquanto Gyres navega em alto mar, levado pelas correntes oceânicas, Pedreiras/Quarries centra-se nas mãos das pessoas e na utilização das pedras pelas pessoas ao longo dos tempos.
O seu trabalho liga a investigação científica impessoal e o drama pessoal, uma vez que a sua relação com o irmão paralisado é transformada no refrão do filme, como um ponto de partida ao qual a história regressa constantemente.
A mão do Homo sapiens esculpida pelas ferramentas, a mão deficiente do irmão, o garfo que cai das mãos gastas do calceteiro. O que está Ellie Ga a fazer? Está a criar uma contra-História: o espírito de resistência à glória do poder, da força e da conquista exprime-se no seu cuidado e ternura pela fraqueza, pelo erro e pelo descuido.
Baseado num texto de Cyril Neyrat
Segunda a sábado, das 18h às 22h
Ficha técnica:
Curadoria de Natxo Checa
3 €
Local: