O realizador e argumentista Edgar Ferreira começou por trabalhar para o departamento de marketing da Fundação Calouste Gulbenkian. Inicialmente foi-lhe proposto fazer um filme que desse a conhecer o propósito da Fundação. Foi este o ponto de partida para uma colaboração que dura há alguns anos e que, em 2023, deu origem ao documentário A Soma das Partes. O filme, estreado no aniversário dos 60 anos da Orquestra Gulbenkian, contava a história do agrupamento que tem um enorme relevo no panorama musical português.
Coro, o novo trabalho do realizador, chega aos cinemas dois anos depois dessa primeira longa-metragem, também com o intuito de celebrar as seis décadas do Coro Gulbenkian, dois anos mais novo que a orquestra. Para Ferreira “é um privilégio poder trabalhar com música. Há muitos mecanismos que consigo ver nos músicos ou nos coralistas, naquilo que é o trabalho artístico deles, que identifico com o meu. Temos as mesmas preocupações, procuramos alcançar um resultado artístico e isso implica todo um esforço.”

Em Coro conhecemos os rostos e as vidas, daqueles que formam o Coro Gulbenkian, daqueles que dão voz a um dos mais conceituados grupos do género, que conta com inúmeros concertos, discos e distinções. Surpreendentemente, muitas das pessoas que o integram têm outras profissões como principal ocupação, são professores, médicos, advogados, engenheiros, mas reúnem-se várias noites por semana para ensaiar e cantar a uma só voz.
Segundo o realizador, essa particularidade era essencial explorar, “perceber como é que um coro com esta reputação e com este reconhecimento internacional é formado por pessoas que têm outras ocupações e não estão a tempo inteiro dedicadas a isto. É algo extraordinário e incomum. Há muitos coros cujos coralistas têm outras ocupações, mas há poucos com reputação internacional em que os membros no final de um dia de trabalho se dedicam a um ensaio de mais de duas horas, em prol desta obsessão artística que é a produção de música em conjunto.”
As histórias pessoais de todos os que participam no documentário são fascinantes e a dedicação e a sensibilidade que transmitem são inspiradoras. A soprano Verónica Milagres é diretora da Rádio Miúdos e membro do Grupo Musical PortuGoesas, de origem indiana, encontra uma grande riqueza na diversidade do coro. O mesmo pensa o tenor e enfermeiro, Rui Miranda. A contralto Carmo Pereira Coutinho, é advogada e desde que integrou o coro a gestão do tempo é um desafio diário. Um desafio também sentido pela soprano Filipa Passos, ginecologista e obstetra. No fim, ambas concordam que o esforço compensa. Para José Bruto da Costa, baixo e musicólogo, e para Marisa Figueira, soprano e professora de música, há uma magia e um amor à música que são quase inexplicáveis.
Outras histórias, outras pessoas ficaram de fora, era impossível incluir o testemunho de todos os elementos do coro. Edgar Ferreira confessa-nos que “se começasse a fazer o filme agora, porventura poderiam ser outras pessoas a figurar no documentário. Há muitas histórias que ficaram por contar. Poderia ser outro filme, mas o que acaba por acontecer é que estas pessoas que participam são representativas das outras. O seu perfil surge em representação de um grupo mais vasto, e isso também é bonito. Tivemos a oportunidade de mostrar o filme ao coro e muitos deles afirmaram que os colegas tinham dito exatamente aquilo que também sentiam, ou pensavam. No fim, perceber que os que ficaram de fora, se reviam no testemunho daqueles que dão a cara fez todo sentido.”
O Coro Gulbenkian teve a sua primeira apresentação pública a 27 de maio de 1964. Entre 1969 e 2020, o maestro suíço Michel Corboz, figura marcante para o grupo, foi o Maestro Titular. Com ele interpretam, muitas vezes em estreia absoluta, obras contemporâneas de compositores portugueses e estrangeiros, nomeadamente as sinfonias corais de Gustav Mahler, que exigem uma grande capacidade instrumental e coral. Compositores como Fernando Lopes Graça, Croner de Vasconcelos ou Joly Braga Santos, entre outros, integram também o repertório vocal. A partir de 2024 Martina Batic passa a ser a maestra titular, Inês Tavares Lopes, maestra adjunta, e Jorge Matta, consultor artístico.
O filme não pretende, no entanto, ser um retrato histórico, mas sim um retrato íntimo, de pessoas únicas que formam um todo e onde inevitavelmente também se refere o passado. Para o realizador, “ainda que o documentário não tenha essa retrospetiva cronológica, há momentos históricos e havia necessidade de os abordar. Defini que a visão seria sempre uma visão interior, teria sempre de partir dos coralistas. Tudo o que sabemos sobre música, sobre maestros, sobre o trabalho que fazem, são os coralistas que nos contam em discurso direto, na primeira pessoa”. E, perante o filme, o público perceberá que “a melhor forma de retratar o coro, era precisamente através da diversidade, porque nenhum deles nos diz o que o coro é, mas, todos juntos, dão-nos uma visão daquilo que o coro pode ser.”
Se motivos não faltam em Lisboa para celebrar o Dia Mundial do Teatro, a 27 de março, este ano impõe-se uma razão maior: abre ao público uma nova sala de teatro em Lisboa por iniciativa da cooperativa cultural Largo Residências, que ocupa atualmente parte do antigo hospital psiquiátrico Miguel Bombarda com um centro cultural e comunitário nomeado Jardins do Bombarda. O parceiro residente para a programação deste ano é o Teatro Nacional D. Maria II que, enquanto o edifício do Rossio é reabilitado, vai mantendo a sua atividade noutras salas desta e doutras cidades do país.
A abrir a sala que leva o nome do bailarino Valentim de Barros, um espetáculo inédito assinado por Inês Vaz e Pedro Baptista, a partir de uma das três peças de teatro atribuídas a Luís Vaz de Camões, Auto Chamado dos Enfatriões. Em bom rigor, explicam os criadores, este Auto das Anfitriãs é, tal como a peça de Camões, “uma derivação” do clássico Anfitrião, do comediógrafo latino Plauto, que por sua vez partia do episódio mitológico de Júpiter se passar por Anfitrião para usufruir de uma noite com a mulher deste, Alcmena.
“Ao reescrevermos a peça procurámos mudar alguns eixos da história que tanto Plauto como Camões contaram, repensando a Alcmena e a Bromia [a criada de Alcmena], as personagens femininas”, aqui interpretadas por Cire Ndiaye e pela própria Inês Vaz, respetivamente. Embora aqui sejam sempre personagens profundamente afirmativas, tal como no episódio mitológico, ambas acabam por ser vítimas do poder patriarcal, perpetrado tanto por deuses como por homens. Por isso mesmo, sublinha Inês Vaz, “alterámos o final da história, de modo a fazer justiça a Alcmena”, e consequentemente, dizemos nós, a todas as mulheres. Mas, para saber como poderão Alcmena e Bromia levar a melhor sobre Anfitrião/Jupiter (José Neves) e Sósia/ Mercúrio (João Grosso), só mesmo entrando na “festa”…
Entre Lena d’Água e o TikTok, há Camões
O espetáculo nasceu de um desafio de Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, por ocasião dos 500 anos do nascimento do poeta maior da língua portuguesa. “A peça de Camões foi-nos dada como objeto de trabalho”, explica Pedro Baptista, acrescentando que nunca foi intenção adaptar literalmente o Auto Chamado dos Enfatriões.
“Começámos, precisamente, por subverter o título”, recorda ao lembrar que, agora, o protagonismo está nas “anfitriãs”. Ao mesmo tempo, foram também a Plauto “para perceber como o próprio Camões tinha derivado daquela que foi a primeira tragicomédia do teatro ocidental” e imaginar como é que o poeta “pensaria hoje o nosso país”.
“Ao trazer a peça para os dias de hoje, acabámos por fazer uma mescla temporal, onde referentes aos quinhentos nos trazem uma certa ideia de Portugal e nos levam a questionar vários símbolos de uma ideia de portugalidade aos olhos do presente”, explica. Camões é assim convocado a vir à “festa”: não só estão lá dois sonetos do poeta, como há um tal de Luís Vaz a corresponder-se com a mística Bromia através de mensagens no telemóvel (entre as mais belas das palavras que evocam o amor, um ou outro emoji marcam presença). Como diz Inês Vaz, em palco “Camões é um personagem ausente, mas interveniente”.
Com a pop de Lena d’Água a abrir “a festa” (“porque nós somos um bocadinho gente da farra”, confessa divertida Inês Vaz) e canções originais d’As Docinhas e Tita Maravilha a darem som ao ritmo TikTok em que se desenrola a ação, Auto das Anfitriãs varia entre o entretenimento popular e a erudição, usando o humor para questionar assuntos sérios, como o amor e a sedução, o abuso e o consentimento, a guerra e as desigualdades.
Não esquecer que este é um espetáculo apresentado no âmbito do programa Próxima Cena, indo viajar pelo país ao encontro de novos públicos em Beja, Celorico da Beira, Fafe, Gouveia, Lagoa, Miranda do Corvo, Mirandela, Paredes de Coura, Pombal, Santarém, Sines e Vale de Cambra, destacando nestes concelhos uma série de récitas para o público escolar do 3.º Ciclo e Ensino Secundário. Razão pela qual, assume Inês Vaz, “procurámos responder com uma festa àquela ideia de que os jovens de hoje só quererem coisas rápidas. Diz-se que não há tempo para pensar muito sobre o estado do mundo, mas porque não tentar mudar isso através do teatro que é e sempre foi um lugar de questionamento?”
Auto das Anfitriãs fica em cena, em Lisboa, até 13 de abril, estando agendadas récitas para escolas a 2 e 3 de abril, mediante marcação. De 28 a 30 de março, o espetáculo tem entrada livre, sujeita a levantamento prévio de bilhetes na bilheteira do Teatro Nacional D. Maria II nos Jardins do Bombarda.
Partilha, risco, tolerância e empatia – são estas as quatro palavras escolhidas por Luís Vieira e Rute Ribeiro para definir os 25 anos de FIMFA Lx – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. “Temos desejos, sonhos, ideias e projetos, vontade e coragem, mas estes não parecem ser tempos para sonhadores. O mundo mudou. Precisamos de construir novos horizontes, recuperar a confiança, abrir a imaginação e deixarmo-nos levar pela beleza, pela poesia e pelo extraordinário. Celebrar o poder das artes da marioneta e de todos estes artistas que continuam a usar o seu poder para desafiar, inspirar e ligar-nos, sem fronteiras ou cores. Esta edição celebra uma aventura artística e presta homenagem a todos os que partilham a sua criatividade, as suas preocupações, o seu engenho, o seu humor e as suas emoções connosco e com o público”, escrevem sobre a 25.ª edição do FIMFA, que acontece de 8 de maio a 1 de junho.
Durante 25 dias, são mais de duas dezenas os espetáculos apresentados pelo festival, em várias salas de Lisboa. Como sublinha Rute Ribeiro, esta edição traz propostas bem diferentes e várias criações de mulheres. É o caso do espetáculo de abertura, no Teatro São Luiz: Uma Casa de Bonecas, inspirado na peça de Henrik Ibsen, encenado por Yngvild Aspeli, de quem já vimos Moby Dick, na edição de 2021, hoje considerada uma das principais figuras mundiais das artes da marioneta. Uma peça com marionetas de tamanho humano, com as quais contracena, e que traz a Lisboa com a sua companhia Plexus Polaire.
Outra adaptação de um clássico é A Sagração da Primavera, dos italianos Dewey Dell, que sobe ao palco do Teatro Variedades, em coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II. “Um coletivo que há muito tempo queríamos trazer ao festival”, aponta Rute Ribeiro, falando destes criadores (três deles, filhos do dramaturgo e encenador Romeo Castellucci) que põem em cena a obra de Stravinsky com figurinos inspirados em insetos.

Também em destaque, Epidermis Circus: The Weirdest Puppet Show You’ve Ever Seen, da companhia canadiana SNAFU – Society of Unexpected Spectacles, que “mistura teatro de objetos e projeção ao vivo, explorando o corpo humano de forma surreal e provocadora”. Entre os artistas portugueses, haverá espetáculos d’ A Tarumba (Luís Vieira e Rute Ribeiro apresentam Dramas Curtos em Miniatura), do Teatro de Marionetas do Porto, da companhia Limite Zero, de Sonoscopia & Teatro do Ferro e de Ricardo Ávila com o Vumteatro. Ao todo, são 13 os países no FIMFA, que mostram marionetas e formas animadas tão diferentes como robots aspiradores, facas voadoras, ovos e galinhas (afinal, quem nasceu primeiro?) ou marionetas microscópicas.
Em palco, as artes performativas unem-se à pintura, ao vídeo, à ciência e à literatura. Quase parece não haver limites. Como afirmam Rute Ribeiro e Luís Vieira, “criadores de várias latitudes, e sem medo de arriscar, partilham a sua visão do mundo, despertam emoções e questões, através de propostas artísticas multiformes e invulgares. Os artistas convidados jogam com os sentimentos, o que liga as pessoas, a sua relação com os sítios e os objetos. Observam o mundo. Mostram outras formas de ver e apreender o que está ao nosso redor”.
25 anos depois, o FIMFA continua a abrir horizontes em Lisboa. “Ainda estamos aqui!”, garantem os seus diretores artísticos. E nós, com eles. É estudar a programação e preencher a agenda de maio.
No Teatro Variedades está-se em contagem decrescente para a estreia da muito aguardada versão portuguesa de Rent. O famoso musical de Jonathan Larsson sobe ao palco da renovada sala de espetáculos do Parque Mayer a partir de 26 de março, numa grande produção da MTL – Musical Theater Lisbon, estrutura fundada por Martim Galamba, Rúben Madureira e Sissi Martins, que aqui encena e interpreta a personagem de Mimi Márquez. Nome incontornável do teatro musical português, Sissi fez formação em Nova Iorque, onde teve como tutores Evan Pappas, Ray Virta, Regina Omalley e Wendy Sharp. Ao longo da sua já vasta carreira, a atriz natural de Vila Nova de Gaia trabalhou com encenadores como Filipe La Féria, Ricardo Neves-Neves ou António Pires, destacando-se, recentemente, a sua interpretação de Laura Alves em Laura – O Musical.
Celebrar o Dia Mundial do Teatro
27 de março
Vários locais
Para esta quinta-feira, dia em que se celebra o Teatro e os artistas que o fazem, Sissi sugere “uma visita ao Museu do Teatro e da Dança”. Ali, está patente a exposição Aplauso – 40 anos a celebrar o espetáculo, que revisita quatro décadas da história do museu evidenciando a sua contribuição para a preservação da memória cultural do país, através do legado de grandes figuras, dos espetáculos mais marcantes e das transformações que moldaram o teatro, a dança e a música em Portugal, dos finais do século XIX até aos dias de hoje. “Depois, sugiro uma ida ao teatro. Haverá atividades por toda a cidade de Lisboa no âmbito desta comemoração”, e algumas delas de entrada gratuita, como é o caso do CCB ou do Teatro da Trindade.
Paris is Burning
Filme de Jennie Livingston
Disponível em streaming no You Tube e MUBI
O documentário de culto de Jennie Livingstone, premiado no Festival de Sundance em 1991, é assumido por Sissi como “uma das grandes inspirações para a criação de Rent”. Filmado em Nova Iorque ao longo de quase toda a década de 1980, Paris is burning é um retrato vibrante da cena drag e transgénero afro-americana e latina do Harlem, percorrendo os clubes de voguing e oferecendo um panorama sobre o modo como a comunidade LGBT+ se debateu com a epidemia de SIDA e com o racismo, a pobreza, a violência e a homofobia na América de Reagan.
A Verdade sobre o Caso Harry Quebert
Romance de Joël Dicker
Alfaguara
É um caso de sucesso, este do escritor suíço Joël Dicker, que se tornou um fenómeno mundial pelos seus thrillers envolventes e viciantes. “Comecei com A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”, diz-nos Sissi que, desde o romance que revelou Dicker nunca mais conseguiu parar de o ler.
The Marvelous Mrs. Maisel
Série criada por Amy Sherman-Palladino
Disponivel em streaming na Prime Video
A premiada série protagonizada por Rachel Brosnahan é, para a atriz Sissi Martins, “um relato honesto do que significa ser mulher, mãe e artista numa indústria como a nossa”. Situada na efervescente Nova Iorque das décadas de 1950 e 1960, a série gira em torno de Mirian “Midge” Maisel, uma judia nova-iorquina que, após o divórcio, abandona a sua versão de dona de casa e abraça uma carreira como comediante. Para além disto, The Marvelous Mrs. Maisel “tem uma essência musical que me faz vibrar!”, confessa.
Hamilton- An American Musical
Musical de Lin Manuel Miranda
Disponível em streaming no Spotify, Apple Music e outras
E, para terminar, como não poderia deixar de ser, Sissi convida-nos a eleger como banda sonora para esta semana um musical da Broadway (que não Rent, porque esse é para ver e ouvir ao vivo, e em português, no Parque Mayer). “Recomendo ouvir no carro várias vezes o álbum Hamilton- An American Musical até não se aguentar mais… e ter de comprar viagem para assistir a este musical.”
A Festa do Cinema Italiano atingiu a maioridade e, confirma-se, esta 18.ª edição é, muito provavelmente, a mais política de sempre. O mote surge logo na sessão de abertura, a 9 de abril no Cinema São Jorge, com a antestreia em Portugal de A Grande Ambição (Berlinguer – La grande ambizione). A vida de Enrico Berlinguer, fundador do eurocomunismo e histórico secretário-geral do Partido Comunista Italiano entre 1972 e 1984, ano da sua morte, é revisitada na mais recente obra do realizador Andrea Segre.
Para o diretor artístico da Festa, Stefano Savio, “o belíssimo filme de Segre é uma homenagem a uma figura ímpar da política italiana, homem que procurou encontrar compromissos e consensos entre diferentes forças políticas em plena Guerra Fria”. Protagonizado por Elio Germano, o filme centra-se no período da década de 1970, compreendido entre a viagem a Sofia, em que Berlinguer sofre um atentado ainda hoje envolto em mistério, e o discurso na Festa dell‘Unità em Genova, em 1978, proferido na sequência do assassinato do líder da democracia-cristã Aldo Moro, e que, de certo modo, significou o fracasso da estratégia política do líder daquele que era, à época, o maior partido comunista da Europa ocidental.

Da década de 70 para os anos de 1980, o encerramento da edição lisboeta do festival – não esquecer que a Festa corre o país de lés a lés, e este ano passa por mais de duas dezenas de cidades do continente -, a 17 de abril também no Cinema São Jorge, faz-se, segundo Savio, com “um Boggie Nights à italiana” (referência ao filme de 1997 de Paul Thomas Anderson).
Estreado no último Festival de Roma, Diva Futura – Cicciolina e a Revolução do Desejo, da realizadora italo-americana Giulia Louise Steigerwalt, acompanha o quotidiano da agência de modelos de Gianni Schicchi, responsável pela fama de duas estrelas porno que, anos mais tarde, agitariam a política italiana: Ilona Staller, conhecida mundialmente como Cicciolina, fundadora do Partido do Amor e ex-mulher do artista norte-americano Jeff Koons; e Moana Pozzi, que no início da década de 1990 concorreu à presidência da câmara de Roma.
“Pereira sono io!“
Para assinalar o centenário de il divo Marcello Mastroianni (1924-1996), a Festa do Cinema Italiano preparou toda uma programação especial que inclui, além da exibição de filmes, duas exposições de fotografia sobre o percurso daquele que foi um dos atores mais famosos do cinema europeu.

A primeira, patente no Cinema São Jorge durante a Festa, intitula-se Marcello come here… Cent’anni e oltre cento volte Mastroianni [Marcello anda cá… cem anos e mais de cem vezes Mastroianni] e reúne mais de uma centena de imagens, todas em grande formato, do arquivo fotográfico da Cineteca Nazionale. A segunda chega como complemento à exibição do documentário de Anna Maria Tatò, Mi recordo, sì io mi recordo, “verdadeiro testamento artístico e espiritual” do ator, rodado em Portugal durante as filmagens da sua última longa-metragm: Viagem ao Princípio do Mundo, de Manoel de Oliveira. Através de um conjunto de fotografias de diversos arquivos nacionais e internacionais, revisita-se o percurso do ator em Portugal, país onde, além do filme de Oliveira, protagonizou, pouco tempo antes, Afirma Pereira, do realizador Roberto Faenza.
É precisamente para assinalar os 30 anos do filme de Faenza, adaptação da novela homónima de Antonio Tabucchi, que a Festa abre uma secção intitulada Pereira sono io!, onde se reflete sobre a ligação que Mastroianni estabeleceu com Portugal na derradeira fase da sua profícua carreira. A propósito do título deste espaço de programação, conta Stefano Savio que a exclamação “Pereira sono io!” terá sido proferida pelo ator ao próprio Tabucchi quando acabou de ler o livro e soube da intenção de o adaptar ao cinema.
Esta e outras histórias podem ser escutadas com maior pormenor a 16 de abril, contadas por Roberto Faenza. O realizador estará em Lisboa para acompanhar a projeção do filme e a estreia mundial do documentário Sostiene Pereira 30, de Augusto Pelliccia, que assinala o 30.º aniversário da sua estreia.

Mas não é tudo. O centenário de Mastroianni traz à Festa, em antestreia nacional, o novo filme de Christophe Honoré, Marcello Mio, com Chiara Mastroianni a protagonizar “uma comédia surreal onde a própria vive como se fosse o seu pai”; e o regresso ao grande ecrã de dois filmes emblemáticos do ator: 8 1/2, de Federico Fellini, e Una giornata particolare, de Ettore Scola (em exibição entre 11 e 14 de abril no Cinema Fernando Lopes).
Ainda sobre a memória dos anos fulgurantes do cinema italiano, o escritor e argumentista Francesco Piccolo, autor do livro La Bella Confusione, vai estar na Festa, a 12 de abril, “para contar episódios que se passaram em 1963 entre os sets de O Leopardo [de Luchino Visconti] e 8 1/2 de Fellini, com Claudia Cardinale a ser disputada por dois realizadores que não simpatizavam nem um pouco um com o outro”.
O “desconhecido” Pietrangeli e o foco
no cinema do cantão Ticino
No âmbito da Festa, começa já no dia 1 de abril, na Cinemateca Portuguesa, a retrospetiva Antonio Pietrangelie, esse desconhecido com a exibição de Il sole negli occhi. Segundo o subdiretor da instituição, Nuno Sena, “trata-se de um dos grandes mestres do cinema italiano, cuja filmografia merece ombrear com a de outros autores de relevo na Itália das décadas de 1950 e 60, mas cuja morte prematura terá, de certo modo, secundarizado”.
“Cineasta das mulheres”, por ter sido “alguém que filmou a condição feminina como poucos, desconstruindo simultaneamente os mitos associados à masculinidade”, esta retrospetiva é constituída pelas 13 longas-metragens que Pietrangelie dirigiu entre 1953 e 1968, ano da sua morte. Obras como Adua e le compagne, com a francesa Simone Signoret, Anuncio de Casamento, filme que deu a Sandra Milo a interpretação da sua vida, e Io la conoscevo bene, com a inesquecível Stefania Sandrelli, confirmam Pietrangelie como “um dos autores que melhor fez a transição entre o neorrealismo e a commedia all’italiana“.

Outro “desconhecido” com destaque nesta edição é o cinema suíço de língua italiana. Com a colaboração da Swiss Film, do Festival de Locarno e da Embaixada da Suíça, a Festa traz a Lisboa o aplaudido documentário sobre a imigração La prodigiosa trasformazione della classe operaia in stranieri, do realizador iraquiano Samir, e a desconcertante comédia Bon Schuur Ticino, de Peter Luisi, sobre uma revolta da população de Ticino contra a obrigatoriedade de falar francês. Na secção Il Corto, são exibidas um conjunto de curtas originárias deste cantão suíço.
Para além da secção Panorama, dedicada aos grandes sucessos do cinema italiano do ano passado, a Festa inclui, entre outros, uma secção competitiva, com primeiras e segundas obras; a secção Sombras, que este ano combina arquivo histórico e documental com videoarte em torno dos processos de descolonização português e italiano; e um conjunto imperdível de filmes-ópera, onde se destaca a arrebatadora visão de La Traviata, de Verdi, por Mario Martone.
Compositor, músico, performer e artista multidisciplinar, Fernando Mota confessa que sai pouco de casa. Não quer isso dizer que tenha uma vida cultural pouco intensa, já que há muito que se pode fazer sem pôr um pé na rua. Esta semana, no entanto, há de estar no Centro Cultural de Belém, onde estreia, no dia 18, o novo espetáculo, que depois levará em digressão pelo país. Antes da Chuva Sopra o Vento “cruza a dança contemporânea com informática musical, utilizando instrumentos experimentais e objetos sonoros criados a partir de árvores, rochas, água e outros materiais naturais”, descreve. “É sobre como os nossos corpos juntos formam um grande corpo. Sobre como os nossos seres vêm de outros seres, como somos parte de uma consciência coletiva interdependente. Um corpo comum.” Um espetáculo em que divide o palco com Carlota Fairfield Oliveira e José Grossinho, rodeados por uma plateia circular, que promove o encontro. A pouco mais de um mês de se apresentar no Japão, na Expo 2025 Osaka, deixa aqui algumas sugestões para aqueles que, como ele, são mais caseiros (e para todos os outros também).
MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa
20 a 30 março
Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Museu da Marioneta
É um dos festivais favoritos de Fernando Mota e começa já esta semana. “Ainda por cima organizado por um querido amigo homónimo, o Fernando Galrito”, sublinha o músico. “Já lá toquei, fui júri, vi filmes com bandas sonoras minhas”, conta. Todos os anos, é programa certo, em família, com os filhos – “ainda gatinhavam e já viam por lá filmes de animação do mundo inteiro”. Este ano, revela, há uma sessão especial, que não vai perder: “Vou ver pela primeira vez na grande tela, o filme O rapaz que apagava beijos, da Radostina Neykova e do Fernando Galrito, com música da minha autoria”.
No Other Land
de Basel Adra, Rachel Szor, Yuval Abraham e Hamdan Ballal
Cinema Ideal e em streaming na Filmin Portugal
Obrigatório ver, para Fernando Mota, é o filme No Other Land: “Um retrato cru e angustiante acerca da brutalidade e imoralidade da ocupação e limpeza étnica que os israelitas impõem às terras e populações palestinianas há mais de sete décadas, com o financiamento dos EUA e a indiferença da Europa”, descreve. “Apesar de ter acabado de vencer o Oscar de Melhor Documentário, não houve nenhum distribuidor norte-americano a exibi-lo até agora”, lembra. Por cá, é possível vê-lo em casa ou numa sala de cinema de Lisboa.
Do Claro ao Breu, de Sopa de Pedra
Lovers & Lollypops
Para banda sonora desta semana (ou das próximas), Fernando Mota sugere um disco do coletivo Sopa de Pedra. “Já tem uns dois ou três anos, mas continua a visitar frequentemente o meu carro, sobretudo em viagens mais longas fora das autoestradas. É de um dos meus grupos de música portuguesa favoritos, as Sopa de Pedra, coro feminino do qual fazem parte as minhas amigas Teresa e Inês Campos e Inês Melo. O primeiro disco já tinha arranjos e interpretações de um grande bom gosto e subtileza. Este viaja por territórios mais exploratórios e misteriosos. Sou fã.”
Torrões de Terra, de Manuel Zimbro
Assírio & Alvim
O livro está esgotado nas livrarias e na editora, mas pode ser encontrado nas Bibliotecas de Lisboa, começa por avisar Fernando Mota. “Sou um péssimo leitor e a maior parte dos livros que leio acabam por estar relacionados com os temas que estou a pesquisar para algum projeto de criação. Este é um deles. Um estranho livro de poesia e guaches, em formato de disco para, segundo o autor, ser guardado ao lado da música na casa de cada um. De um enigmático artista plástico e poeta, que colaborou com René Bertholo e Lourdes de Castro, tendo sido companheiro desta nos seus últimos anos de vida, as suas palavras têm exercido uma grande ressonância nas minhas explorações sonoras e visuais e na forma como observo e escuto o mundo.”
Metamorphosis, de Emanuele Coccia
Ainda sem edição portuguesa
Fernando Mota descobriu o filósofo Emanuele Coccia ao ler o seu livro A Vida das Plantas, editado por cá pela Documenta. “Tem sido um colaborador involuntário em praticamente todos os meus processos criativos. O facto de ter estudo botânica e depois disso filosofia dá-lhe um olhar totalmente novo acerca dos fenómenos naturais e acerca da perceção que temos sobre aquilo a que chamamos natureza, vida ou biologia”, nota o músico. “Este Metamorfoses chamou a minha atenção porque o tema da transformação e da memória tem estado muito presente na minha vida e no meu pensamento.”
“Picado de génio e das bexigas”, lê-se como legenda da caricatura de Camilo Castelo Branco no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro. O génio do escritor deu origem a uma obra torrencial com duas tendências essenciais: a novela satírica de costumes e a novela passional. As bexigas que lhe desfeavam o rosto não impediram uma acidentada vida sentimental que foi a mais importante fonte da novela camiliana. Após vários amores tumultuosos, apaixona-se por Ana Plácido (esposa do negociante Manuel Pinheiro Alves), que seduz e rapta. Capturados e presos na Cadeia da Relação do Porto, são julgados e absolvidos do crime de adultério. Depois de vários anos de vida em comum, Camilo casa finalmente com Ana Plácido em 1888. Atormentado pela morte do filho predileto e pela progressiva e crescente cegueira, suicida-se em 1890.
A 16 de março celebra-se o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Evocando o grande escritor, traçámos um breve retrato de seis dos seus personagens, escolhidos, entre tantos outros, do seu impressionante universo romanesco. Procurando, nesta tão difícil seleção, um justo equilíbrio entre livros mais e menos conhecidos do grande público, estes textos, acompanhados das respetivas ilustrações de Inês do Carmo, pretendem contribuir para suscitar o interesse na leitura da extraordinária obra do autor. Porque, como escreveu Camilo, com o seu humor característico, “a mocidade ou não lê nada, ou lê livros moderníssimos e detesta os clássicos, porque estes os ensinam a escrever corretamente.”
“A verdade na novela é a minha religião;
e aposto eu que muitas religiões
são menos verdadeiras que as minhas novelas.”
Mariana
“Ninguém o amará como eu: ninguém lhe adoçará as penas
tão desinteresseiramente como eu fiz.”
Amor de Perdição (1862)
Escrito na Cadeia da Relação do Porto, em 15 dias, Amor de Perdição é o mais célebre dos romances de Camilo. Obra que o filósofo Miguel de Unamuno considerava “a novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península e um dos poucos livros representativos da nossa comum alma ibérica”.
A intriga centra-se nos amores contrariados dos jovens Simão Botelho e de Teresa de Albuquerque, vítimas da rivalidade entre famílias fidalgas. O facto do título em tudo corresponder à situação do autor e da sua amante Ana Plácido, à época encarcerados pelo crime de adultério, não passou despercebido, estimulando a curiosidade dos leitores.
Num golpe de génio, Camilo introduz uma terceira personagem, Mariana, filha do ferrador João da Cruz, “formosa rapariga da aldeia”. Símbolo eloquente do amor-renúncia, Mariana é a amante silenciosa, abnegada e fiel. Camilo salienta a formusura da “gentil criatura”, dos seus “grandes olhos azuis” e do seu “sorriso triste” e qualifica-a de “nobre rapariga”, apesar da sua condição popular. Confidente apaixonada de Simão, serve generosamente de intermediária entre ele e Teresa, acompanha-o na prisão e sacrifica-se para o seguir no degredo. Após a morte de Simão no decurso da viagem, suicida-se abraçando o seu cadáver lançado ao mar, morrendo “sem ter ouvido ‘amor’ dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão”.
Silvestre da Silva
“Ao terceiro ano de casado,
Silvestre formava com o peito e abdómen um arco.”
Coração, Cabeça e Estômago (1862)
Silvestre da Silva, o herói de Coração, Cabeça e Estômago, motivado pela experiência acumulada ao longo da vida, decide dedicar os seus últimos anos exclusivamente aos prazeres da gastronomia, desiludido com as inconstâncias amorosas e com a futilidade do combate das ideias.
Camilo constrói a narrativa como uma pretensa autobiografia que descreve a vida do herói nas três fases que correspondem ao título da obra. Na primeira fase (Coração), relata os sete amores desafortunados do protagonista. Na segunda fase (Cabeça), dá conta dos seus infortúnios no meio intelectual e jornalístico. Por fim, na terceira fase (Estômago), descreve o seu retiro no campo, a sua estreia na carreira política, o seu casamento com uma morgada e a sua entrega aos prazeres da boa mesa.
O herói sintetiza a sua existência terrena num delicioso soneto de despedida: “(…) Cabeça e coração senti sem vida, / No estômago busquei uma alma nova (…) / E por muito comer eu desço à cova!” Apesar do tom jocoso, a obra narra a constante procura do protagonista de um sentido e propósito para a vida.
As suas contradições e perplexidades perante um mundo em transformação refletem, afinal, as do seu criador que, consciente do momento de transição literária em que vivia, adivinhava no esgotamento da fórmula romântica a possibilidade do surgimento de algo novo. Por isso, Abel Barros Baptista considera esta obra “uma experimentação pioneira na irrisão do sentimentalismo a partir de dentro. E também de fora, claro”.
Calisto Elói
“Não sou homem de salvas e rodeios;
digo as coisas à moda velha.”
A Queda de um Anjo (1865)
Divertidíssima sátira política sobre a vacuidade da oratória parlamentar e a indiferença governativa aos grandes problemas da maioria. O inesquecível protagonista, Calisto Elói de Silos Benevides de Barbuda, um fidalgo transmontano, austero e conservador, é uma encarnação paródica do país: eleito deputado, Calisto vem viver para Lisboa, onde se deixa corromper pelo luxo e pelo prazer que imperam na capital.
Na composição e definição do personagem, Camilo é minucioso na descrição dos detalhes do seu trajar arcaico e conservador (“o chapéu armado, calção de tafetá”, “gola e portinholas da casaca eram sérias demais e calças rematando em polainas abotoadas de madrepérola”). Aliás, a contaminação da personagem e os indícios da sua queda expressam-se exteriormente através da primeira visita a um alfaiate lisboeta. Esta transfiguração exterior representa, por um lado, a forma como as roupas refletem as normas sociais, a superficialidade da vida e a importância dada às aparências e, por outro, traduz a metamorfose moral e as alterações no discurso e comportamento do deputado (que transita da oposição miguelista para o partido liberal no governo).
A Queda de um Anjo retoma um dos temas constantes na novelística camiliana, o conflito entre a cidade o campo. É, segundo Alexandre Cabral, autor do Dicionário de Camilo Castelo Branco, um romance jocoso em que o escritor se diverte e “aproveita para dar uns bons sopapos nos peralvilhas da cidade”.
Rui Gomes de Azevedo
“O moço é que era
a pureza e estreme honra.”
O Senhor do Paço de Ninães (1867)
Romance histórico que tem como pano de fundo as lutas de D. António, Prior do Crato e a ação dos portugueses na Índia. Apesar da trama decorrer no Minho no século XVI (“Estamos no Minho, o leitor e eu”, assim se inicia a narrativa), algumas das personagens vão percorrer o mundo (Espanha, França, Inglaterra e Oriente) pela pena de um escritor que nunca saiu de Portugal, mas que evidencia assinalável conhecimento dos ambientes, costumes e comportamentos da época.
A obra tem por base um (inevitável?) amor contrariado. Rejeitado pelo pai da noiva, o jovem Rui Gomes de Azevedo deixa o Minho, vem para Lisboa, combate no norte de África em Alcácer Quibir e toma partido por D. António, Prior do Crato, na sucessão ao trono. Desiludido, parte para a Índia, onde assiste às rapacidades e atrocidades dos seus compatriotas. Rui surge na sua “inocência genuína” como personificação idealizada dos valores e costumes austeros dos antepassados (“da casta dos nossos avós”), postos em causa com o movimento da expansão e pelas novas gerações que os “trocaram pela glória da Índia”.
O herói assume uma perspetiva que lembra a do Velho do Restelo revelando o lado negro da expansão ultramarina: os vícios, a crueldade e a ganância do colonialismo português. Camões referiu-se à Goa portuguesa, por experiência própria, como “mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados”; Camilo, por intermédio do seu herói ficcional, reitera essa visão, escrevendo: “A honra aqui é planta que se mirra e fenece”.
Angélica Florinda
“Tanta razão tem o povo em me chamar
bruxa como santa.”
A Bruxa do Monte Córdova (1867)
Ambientada durante o período da guerra civil que ocorreu entre 1831 e 1834, e opôs liberais a absolutistas, a novela relata uma história de amor trágico que reflete a época conturbada que se vivia.
Angélica Florinda, “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida com Tomás de Aquino. Amores contrariados que acompanham e se entrelaçam com os eventos históricos da guerra civil. Depois da morte do amante, no campo de batalha, Angélica, entretanto mãe solteira, acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga. Refugiada num convento, guiada espiritualmente por Frei Silvestre, é acometida por culpas e fervores religiosos, responsabilizada pela morte de Tomás (por com ele se ter unido em pecado) e forçada a repudiar o filho ilegítimo. Angélica Florinda vive um processo longo e tormentoso de penitência até que, aos “quarenta e cinco anos, com parecenças de sessenta” se refugia numa choupana na serra, a um quarto de légua da aldeia de Caparães, onde granjeia fama de exorcista. A bruxa de Monte Córdova passa a atrair “não só homens, mulheres e crianças endemoinhadas, mas também o gado (…), para a todos estes irracionais curar de enfermidades excedentes do alcance das ciências médicas”.
Através do destino trágico da comovente Angélica, Camilo acusa o fanatismo religioso, a pregação fradesca e a intolerância política, da influência que exerceram na carnificina da guerra civil.
Ângela
“Aquilo é mulher finória e soberba.”
Os Brilhantes do Brasileiro (1869)
A narrativa questiona a fidelidade de uma mulher, posta em causa por vender alguns dos seus brilhantes sem dar conhecimento ao marido. A fidalga Ângela de Noronha de Antas vive um amor contrariado pelo plebeu Francisco José da Costa. Aos 20 anos de idade, forçada pelo pai em difícil situação económica, aceita com relutância casar com o brasileiro Hermenegildo Fialho, 26 anos mais velho. Porém, nunca esquece o seu primeiro e único amor. Descoberta a vender cinco brilhantes da pulseira, prenda de noivado, recusa-se com altiva dignidade a dar qualquer esclarecimento ao marido e abandona o lar conjugal sem nada, recusando até o dote que o noivo lhe fizera.
Diferente das protagonistas habituais de Camilo, a fascinante personagem de Ângela recusa submeter-se à autoridade patriarcal e às convenções socias e morais vigentes, agindo unicamente de acordo com a sua consciência e assumindo inteira responsabilidade dos seus atos. O escritor denuncia uma sociedade machista que submetia a mulher, ao longo da sua vida, à total obediência perante as figuras masculinas, primeiro o pai, depois o marido. “Você sabe bem que nós, os homens, não somos mulheres. Elas têm outra casta de obrigações. Se a mulher for igual ao marido, então não há honra nem vergonha neste mundo”, profere Hermenegildo.
Confirmando que há muito da biografia de Camilo nas suas ficções, Alexandre Cabral considera que “o autor, ao descrever Ângela, está a imprimir-lhe a altiva rebeldia de Ana Plácido”.
O MACAM nasce da vontade do empresário Armando Martins de mostrar a sua coleção de arte. Que retrato é que esta coleção traça do seu colecionador?
Essa foi uma pergunta que lhe fiz e a resposta dada foi “nenhum”. Acho que faz o retrato de uma pessoa que se apaixonou muito cedo pela arte, e que foi surpreendido pela arte contemporânea, que desconhecia. O Armando Martins (nascido no concelho de Penamacor, em 1949) veio para Lisboa sem nunca ter tido nenhum contacto com o mundo da arte. O primeiro museu que visitou foi o Museu Nacional de Arte Antiga, mas não ficou nada conquistado, antes pelo contrário. Depois, acabou por ir sendo surpreendido pela arte contemporânea. Inicialmente começou a comprar serigrafias com um amigo e, ao fim de um tempo, achou que aquilo não era suficiente. Foi quando decidiu comprar a primeira obra original para se oferecer a si próprio no aniversário dos 25 anos. E, portanto, acho que a coleção faz o retrato de alguém que não tem medo de arriscar; que, não conhecendo um determinado mundo, não tem medo de entrar nele. O Armando Martins tem esse lado arrojado de enveredar por caminhos que não lhe são conhecidos e de sair da sua zona de conforto. É uma pessoa com um espírito muito curioso, muito atento e muito desperto para aquilo que o pode levar para horizontes que desconhece. Foi o que aconteceu com a arte: surpreendeu-o e levou-o para um mundo que não lhe era minimamente conhecido e que ele descobriu sem ter estrutura para tal, sem ter tido formação para o fazer, de forma totalmente autodidata.
Que obra foi essa com que ele se auto-presenteou no seu 25º. aniversário?
Esse primeiro quadro original que ele comprou, da autoria de Rogério Ribeiro, é uma obra de 1970, que ele compra em 74. É uma pintura abstrata. Seria fácil comprar um primeiro quadro figurativo, porque há sempre pontos de referência, da analogia com o real, mas o primeiro quadro que compra é um quadro abstrato. Portanto, há assim um mergulho, uma imersão direta num mundo que é de outra dimensão.
Qual é o horizonte temporal desta coleção?
A obra mais antiga é um Malhoa, datada de 1895. Em relação à mais recente, há várias de 2024, e até de 2025.
Que critério presidiu à formação desta coleção: o exclusivo gosto pessoal do colecionador ou a procura de nela representar os artistas e os movimentos mais relevantes das últimas cinco décadas?
Numa primeira fase, foi por gosto pessoal. Tanto que ele começou a comprar de 1970 para a frente e só depois recuou. Não houve aqui uma orientação curatorial da coleção. Ele foi comprando por instinto, por gosto. Sem dúvida que começou a compreender que havia uma cronologia, havia uma ordem e preocupou-se em ter aqui um caminho cronológico. Acima de tudo, ele teve uma preocupação sempre muito presente nesta coleção: a ambição de ter um determinado nome, mas não uma qualquer obra desse nome. Portanto, ele sempre se preocupou em ter uma obra digna, representativa do artista, que considerava como sendo um artista importante para a coleção. Não lhe bastava comprar. Por exemplo, pode ter comprado inicialmente um desenho pequenino do Amadeo [Sousa Cardoso], mas sentia que aquilo não era representativo do Amadeo. Enquanto não comprou uma boa pintura do Amadeo, não descansou. Portanto, há, de facto, uma preocupação nesse sentido, não só de ir criando uma estrutura colmatando com artistas que são importantes e que fazem um percurso, como ter obras representativas desses artistas. Depois, a partir dos anos 2000, ele sai mais do mundo português e começa a ir visitar feiras internacionais, e apercebe-se de que era importante ter arte internacional, manter esse diálogo também de atualização da relação da arte que se fazia em Portugal com a arte que se faz lá fora. Ele estava consciente de que os artistas portugueses ganhariam com esse diálogo internacional.
Se tivesse que escolher uma ou mais obras icónicas que melhor caracterizassem esta exposição, qual ou quais seriam?
Esta é uma coleção a dois tempos. Tem uma orientação contemporânea e, portanto, há uma série de obras contemporâneas que acho que que ilustram bem aquilo que é o core da coleção. Mas, depois há um núcleo primário inicial, que é extraordinário e que faz uma grande paridade com outras coleções nacionais que são exemplares daquilo que é a história da arte, essencialmente do século XX em Portugal. Portanto, se tivesse que escolher, sem dúvida que o Amadeo é um ex-líbris, tal como o Santa Rita, o Eduardo Viana ou a Vieira da Silva. Obviamente que a pintura do Pessoa pelo Pomar é uma pintura emblemática, também. E, eu sei, que A mulher da laranja, do Eduardo Viana, é a pintura preferida do Armando Martins. Já eu acho que O Rapaz das Louças, também do Viana, é uma obra muito representativa deste primeiro núcleo. No segundo núcleo também há muitas. É difícil escolher uma, porque há tantas obras emblemáticas, mas eu talvez escolhesse a da Marina Abramović, que considero uma peça extraordinária. A coleção tem várias obras de mulheres, o que é uma coisa que me agradou bastante quando comecei a conhecer o espólio. E tem obras bastante arrojadas, também…

O espaço expositivo prolonga-se pelo hotel, dado que existem obras de arte expostas nas zonas sociais, nos corredores e nos quartos. Como surgiu esta ideia?
Quando o Armando me deu a conhecer a coleção e me perguntou se eu estaria interessada em trabalhá-la e criar um projeto museológico, perguntei-lhe como é que ele pensava sustentar um museu, porque os museus não são lucrativos. Ele disse-me que já tinha pensado numa solução: ter um hotel associado ao museu que pudesse dar estabilidade financeira, que fosse um motor de sustentabilidade. Como sei como é angustiante estar dependente do Estado e de fundos públicos, e ao saber que podemos ter, aqui no MACAM, um grau de autonomia, fiquei conquistada. Depois, preocupava-me que a vertente “hotel” se sobrepusesse à vertente cultural do museu. Eu já tinha tido a experiência de colocar obras de arte originais em quartos de hotel e foi isso mesmo que lhe propus, pegar em peças que dificilmente entrariam na exposição, por haver outras mais significativas do mesmo artista, e colocá-las nos quartos. Os quartos da ala nova têm obras de artistas portugueses do pós-25 de Abril, os quartos do primeiro piso do palácio têm obras de artistas portugueses e os do segundo piso têm peças de artistas estrangeiros. Quanto aos corredores, o primeiro piso do palácio tem, por exemplo, várias obras do modernismo. O objetivo é que as pessoas tenham uma experiência diferente, que sintam que estão a dormir num museu e que estão a privar com obras da coleção do museu.
Isso faz com que os hóspedes do hotel se interessem por arte moderna portuguesa…
Exatamente. De um modo geral, penso que a grande expectativa dos visitantes estrangeiros e de muitas das famílias é conhecerem a arte portuguesa. Eles vêm para ver a arte portuguesa, portanto, eles querem um sítio onde possam ver arte portuguesa. E a nossa aposta foi muito essa. Embora no último piso tenhamos um núcleo de arte estrangeira, apostamos em dar a conhecer a arte portuguesa. Faz uma falta enorme em Lisboa haver uma exposição permanente de arte moderna. Na verdade, nem a Gulbenkian nem o MNAC [Museu do Chiado] têm exposições em permanência. Há um certo preconceito, um certo tabu com a ideia do permanente. As pessoas acham que tem que haver dinâmica e uma rotação de exposições, e é óbvio que tem, porque nós precisamos de conquistar os públicos e precisamos de atraí-los com novas ofertas. Mas tendo o MACAM quatro galerias, então vale a pena dedicar duas delas a uma permanente, onde as pessoas sabem que podem encontrar uma oferta que lhes permite conhecer a arte portuguesa e a arte contemporânea. Porque é muito bom as pessoas saberem que determinado museu tem um conjunto de obras emblemáticas e significativas e depois ter, de facto, acesso a elas. Para mim era muito óbvio que esse era o caminho para este museu.
The House of Private Collections (A Casa das Coleções Privadas); este é o mote do MACAM. O que é que isto significa exatamente?
Significa que o MACAM não mostrará apenas a coleção de arte do seu fundador, mas convidará também outros colecionadores privados a mostrar as suas coleções, reforçando a nossa missão de as tornar visíveis ao público. Isto irá acontecer na extensão contemporânea do palácio, dedicado às exposições temporárias, que conta com duas salas que permitem mostrar obras de maior escala.
O MACAM situa-se num eixo geográfico compreendido pelo MAAT e pelo MAC/CCB, entre outros. Que mais valia pode este museu acrescentar às dinâmicas desta área?
Uma enorme mais valia. Estamos aqui num art district crescente. Somos muito complementares, porque, no fundo, conseguimos manter um diálogo de contemporaneidade com o MAAT e com o CCB. Temos obras diferentes, mesmo havendo, obviamente, artistas que se repetem nas várias coleções, mas a nossa coleção de arte portuguesa está estruturada desde o final do século XIX, o que não acontece nos outros locais. O MAC/CCB tem toda uma coleção essencialmente internacional, e depois portuguesa, também da contemporaneidade, mas desta fase inicial do século XX. Portanto, nós temos a arte portuguesa que o MAAT também não apresenta, dai achar que é complementar, porque as pessoas sabem que podem vir aqui ter uma ideia genérica daquilo que é a arte portuguesa, moderna e contemporânea, e arte internacional contemporânea. E depois, indo visitar o MAAT, têm novas perspetivas de exposições temporárias. O MAC/CCB tem uma coleção permanente, alternativa internacional, com obras também de artistas portugueses contemporâneos que farão um diálogo com aqueles que nós temos aqui. E isso reforça o conhecimento dos públicos. A oferta nesta área é muito rica, mas acho que nós nos distinguimos perfeitamente.
Pai, e se ficares sem palavras?
Felicita Sala
Fábula
Quantas conversas entre um pai e uma filha já foram por aí fora, de pergunta em pergunta, e deram a volta ao mundo? Nesta história, uma menina, ao ver o pai falar tanto, pergunta-lhe, na hora de se deitar: “O que acontece se ficares sem palavras? Vais ter alguma guardada para mim?” Ele desliga o telefone e dá-lhe uma resposta sem pressas que vai seguindo as suas perguntas encadeadas. Um livro cheio de imaginação e de pormenores divertidos no texto e nas ilustrações, que é também uma forma de, ao longo das páginas, dizer “gosto de ti”.
O meu pai não sabe desenhar
David Pintor
Porto Editora
É na filha que se tem inspirado, nos últimos anos, para criar muitos dos seus livros infantis. David Pintor volta à sua protagonista preferida para contar a história de um pai ilustrador e da sua filha, uma menina que gosta de pedir que lhe faça desenhos. Com humor e boa disposição, o pai vai acedendo aos pedidos, mas quase nunca o resultado é o que a criança esperava. Nisto do desenho, já sabemos, é preciso muita imaginação e não há nada melhor do que inventar histórias a partir de traços numa folha em branco. Um livro sobre uma relação de amor e cumplicidade, e também sobre a magia dos desenhos.
Bluey – Perfeito
Booksmile
São já quase três dezenas, os livros de Bluey editados por cá pela Booksmile. Mesmo a tempo do Dia do Pai, chegou às livrarias mais um título, em que a personagem da série de animação infantil se esforça por fazer o melhor desenho de sempre para o pai. Existirá um desenho perfeito? A cadelinha Bluey vai descobrir que isso da perfeição tem muito que se lhe diga, numa história em que recorda as brincadeiras com o progenitor. Um livro que nos recorda também como os momentos mais simples podem ser os que nos ficam, para sempre, na memória.
Os lápis desejam feliz Dia do Pai
Drew Daywalt e Oliver Jeffers
Nuvem de Letras
Os simpáticos lápis de cera de Drew Daywalt (texto) e Oliver Jeffers (ilustração) têm sido protagonistas de muitas histórias. Este já é o sexto livro editado pela Nuvem de Letras e fala do amor destes personagens coloridos pelos seus progenitores, sejam eles como forem: pais que gostam de ensinar e de aprender, pais talentosos (ou nem tanto), pais (des)orientados, pais exemplares, pais divertidos, casais de pais, mães-pais, pais-avôs, pais-padrastos… Nestas páginas cabem pais de todos os feitios e amores de filhos sempre gigantescos.
As pegadas do pai
Michelle Robinson e Paddy Donnelly
Porto Editora
Num tempo encantado de dinossauros, mas que pode ser assustador para uma pequena cria, esta é a história de um filho que segue as pegadas do pai e sonha, um dia, ser como ele. “Serei forte e alto quando for grande? Será que os meus pés vão crescer assim?”, interroga-se. Do pai há de aprender que até os grandes se sentem pequenos, e que até os pequenos são fortes e capazes. E que medos e erros não nos devem impedir de seguir em frente. É isso crescer – e os pais estão sempre lá para ajudar no caminho.
Num dia de Natal, tudo muda na perceção daquela que aparentava ser a vida feliz de uma mulher casada com o homem amado e mãe de três filhos. Nora Helmer olha em redor e encarna a mais profunda deceção. Afinal, aos olhos do marido, Torvald Helmer, ela não é mais do que um mero acessório na “casa de bonecas” em que vive.
Assim como um brinquedo, perante o desvendar de um episódio em que o seu altruísmo e dedicação puseram em risco a conceção tradicional de família, Nora toma consciência de que sempre foi manipulada, primeiro pelo pai e depois pelo marido. Sem autonomia sobre as suas escolhas e decisões, sobre os seus gostos e até sobre o seu papel exemplar de esposa e mãe, sempre moldados de acordo com as expectativas da sociedade patriarcal, Nora apercebe-se da vacuidade da sua vida.
Decide, então, deixar Torvald e os filhos e partir em busca da sua própria identidade e liberdade. Concretamente, Nora abandona a “casa de bonecas”, paradigma do lar ideal que foi, durante anos, a prisão emocional e psicológica de uma mulher.
Aqui, termina Casa de Bonecas, a obra-prima de Henrik Ibsen, estreada pelo autor norueguês no distante ano de 1879, peça profundamente controversa à época, com os setores mais conservadores a exigirem um final em que Nora voltasse para o marido e para os filhos. Além da importância que teve na história do teatro realista europeu, Casa de Bonecas está constantemente presente no debate sobre os direitos das mulheres, sobre as dinâmicas de poder nos relacionamentos e a luta pela liberdade individual.
São estas razões que voltam a trazer Ibsen, e mais precisamente o universo da peça, ao Teatro Aberto. “Estava atual há mais de 140 anos, estava atual nos anos 50 do século XX, época em que situamos este espetáculo, e está, infelizmente, atual hoje, quando vemos a perpetuação das desigualdades entre homens e mulheres e até um ataque a direitos adquiridos”, atenta o encenador João Lourenço.
Perante a urgência de voltar a este clássico, ou melhor, ao universo deste marco da história do teatro, Lourenço e a dramaturgista Vera San Payo de Lemos procuraram uma sequela, tendo encontrado na peça de 2017 Casa de Bonecas 2.ª parte, do norte-americano Lucas Hnath, não só uma visão contemporânea de Nora Helmer (embora a peça se continue a passar no final do século XIX), como “o dispositivo perfeito para reforçar o debate e questões como a desigualdade de papéis no casamento e no seio da família tradicional” quando, 15 anos depois de ter partido, Nora regressa a casa para pedir o divórcio.
Reinventando Nora
Não sendo inédito no Teatro Aberto, esta é a primeira vez que João Lourenço assume claramente que “este é um projeto de cinema e teatro”, já que ambas as artes se encontram num justo equilíbrio. E tudo começa, precisamente, com um filme que condensa a peça de Ibsen “no essencial”.
Conta Vera San Payo de Lemos que “há muito tempo que [havia] a vontade de fazer a Casa de Bonecas, tendo colecionado inúmeras traduções e versões, inclusive várias sequelas. Existia, portanto, muito material e pensámos que poderíamos transformar a peça do Ibsen num guião cinematográfico, e partir para um projeto que combinasse o filme e o teatro”. Quando descobriram esta continuação do Lucas Hnath, João e Vera decidiram avançar com um espetáculo que, levando o nome da protagonista, condensasse no filme a peça de Ibsen e, em palco, a de Hnath, “embora completamente reescrita”.
“Interessou-nos tirar a ação do final do século XIX e passá-la para o meio do século XX. Não era só a estética da época, mas também por ser nos anos 50 [do século passado] que começam a germinar grandes movimentos de contestação e [a emergir] a revolução sexual. Decidimos assim situar a ação do filme nessa década e, depois, o regresso de Norma, no final da de 60”, explica a dramaturgista.
Depois do filme, acontece a experiência de “mergulhar para dentro dele, ou para dentro da boca de cena”, como diz João Lourenço, e reencontrar Nora, uma mulher totalmente emancipada, feminista libertária e autora de livros “que têm ajudado a libertar muitas mulheres”, preparada, uma vez mais, para enfrentar Torvald. Mas, este regresso reserva ainda a Nora outros recontros, nomeadamente com Ana Maria, governanta da casa e amiga de infância, agora, companheira do ainda marido, e com a filha relutante, Ema.
Para além de Cleia Almeida no papel da protagonista e de Renato Godinho no de Torvald, Nora Helmer conta com interpretações em palco de Patrícia André e Carolina Picoito Pinto e do músico Ernesto Rodrigues. No filme, dirigido por João Lourenço e Nuno Neves, atuam também Filipe Vargas, Benedita Pereira, Miguel Damião e Rita Correia. O espetáculo está em cena até 20 de abril.
[Atualização a 17 de abril: a carreira do espetáculo foi prolongada até 11 de maio]
paginations here